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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  NADA, foi o que aconteceu... E como foi bom!

Como acontece com muita gente, pensei muito no Décimo Primeiro Passo quando comecei a trabalhar o programa. Pareceu-me bastante direto e honesto: tinha de reservar algum tempo, a cada dia, para melhorar meu contato consciente com Deus. Mas com o tempo, o que de início parecia simples, veio a se transformar em algo de grande significado. A prática dos Passos passou a exigir mais do que um simples entendimento superficial.

O que é oração? O que é meditação? Eu tinha muita familiaridade com a oração do desespero. Nos meus dias de alcoolismo ativo, frequentemente pedia a Deus: "Por favor, tire-me dessa situação." Minhas preces eram, geralmente, seguidas de uma promessa: "Nunca mais beberei." A oração do desespero e o excesso de bebida continuaram por muito tempo.
Quando comecei a praticar o Décimo Primeiro Passo, minha falta de experiência e de conhecimento do programa tornaram-se óbvias. Mas, querendo abandonar velhas idéias e adquirir novas, descobri o significado da prática desse Passo. Quase não tenho experiência com meditação. Talvez haja mais pessoas confusas.
A meditação é descrita como a prática da concentração. A idéia central é calar nossa tagarelice mental e deixar a vontade de Deus invadir nossas vidas. Técnicas de meditação aparecem em muitos dos caminhos espirituais. Há mantras - palavras sagradas repetidas continuadamente, como o rosário e versos do Upanishads hindu. Há movimentos físicos, como ajoelhar-se em oração, fazer ioga ou tai chi. Algumas técnicas de meditação incluem diferentes símbolos visuais, como o sistema judeu de concentração nas letras do alfabeto hebráicos "alph" ou, para os estudantes mais adiantados, as quatro letras que formam o nome de Deus, chamadas de tetragrama.

Felizmente, a meditação não requer perícia na grande variedade de diferentes métodos ou técnicas. O importante é encontrar o método melhor para cada um. Quem tem uma experiência religiosa pessoal com a qual se sente satisfeito, pode começar por lá. Na tradição cristã, por exemplo, há um método chamado "oração centralizada". É uma antiga forma de meditação usada por padres do deserto, eremitas que devotaram suas vidas à oração. A "oração centralizada" consiste em sentar-se calmamente, estando consciente de sua respiração. O objetivo desse método é usar um dos processos mais naturais da vida, respirar, com a finalidade de aquietar a mente.

Para muitas pessoas, a prática de meditação escolhida pode ter sido popularizada por outra fé religiosa. Várias técnicas são tão universais que uma religião dificilmente poderia reclamar crédito total por sua evolução. Respirar é respirar, chame-se a isso de "oração centralizada" ou ioga. Para usar uma técnica de meditação de uma determinada fé não há necessidade de se converter. Milhares de pessoas neste país (referindo-se aos Estados Unidos) praticam a técnica chinesa do tai chi para fortalecer seus corpos e acalmar suas mentes, mas muito poucas se converteram no taoismo, fonte dessa maravilhosa técnica.

Existem cursos de meditação, mas alguns deles são muito caros. O total de meus investimentos em meditação resume-se ao custo de alguns livros baratos. Mas mesmo esse minguado investimento monetário não é necessário. Pergunte a um pastor, padre, rabino ou a um amigo que costume meditar. Uma antiga técnica mencionada num livro de nossa Irmandade consiste em ler, com cuidado, uma passagem de um escrito inspirador. Assim nossa mente se acalma e nós nos aprofundamos cada vez mais nos significados do texto.

Uma vez encontrado o tipo de meditação que nos satisfaça, por quanto tempo e quão frequentemente devemos praticá-la? Alguns professores de meditação recomendam de quinze a trinta minutos, uma ou duas vezes por dia. A próxima pergunta poderia ser: o que poderá acontecer na minha meditação?

Alguns acreditam que uma espécie de experiência espiritual sobrenatural é a finalidade da meditação. É verdade que um estado de contentamento, satisfação própria da meditação, pode ser acompanhado por algumas experiências não familiares, mas a verdadeira experiência dos mestres é, como os budistas podem dizer: nada. Tenho ouvido milhares de histórias de pessoas dizendo que nada lhes aconteceu em suas meditações. Entretanto, suas vidas durante esses tempos meditativos têm passado por maravilhosas transformações.
No meu caso, posso relembrar o tempo quando nada acontecia durante minhas meditações diárias. Não havia sinais ou sons especiais, nem sentimentos de alegria. Nada, foi o que aconteceu. Durante o dia, entretanto, um maravilhoso processo estava tomando lugar em minha mente. Quando eu estava ocupado trabalhando ou dirigindo o carro, lembranças represadas começaram a aflorar à superfície. Essas lembranças sempre me causaram grande desgosto e remorso, e contribuíram para que eu bebesse a fim de me libertar delas. Agora, depois de minhas meditações, esses horríveis tempos de minha vida entraram na minha consciência cheia de saúde e de perdão. Parecia que Deus estava fazendo por mim o que eu não consegui fazer por mim mesmo.

Há perigo na meditação? Como qualquer outra coisa na vida, a prática da meditação pede rigorosa honestidade. Por causa dos sentimentos de felicidade que frequentemente acompanham a meditação, a prática pode tornar-se uma forma de escape da vida real. Em vez de ser uma parte natural da vida diária, a meditação torna-se um exercício egoísta para isolar-me do mundo e de outras pessoas. A esse tipo de mau uso da meditação tem-se dado o nome de quietismo. Acredito que nosso Décimo Primeiro Passo estamos procurando a vontade de Deus para nossas vidas e o poder de levar essa divina vontade para o mundo exterior. Não estamos procurando ocupar nossa vida inteira com meditação.
Outra forma de má prática da meditação é o sentimento de superioridade que pode vir de longas horas em quieta solidão. Outra vez, nossa literatura nos adverte: "Não somos santos". Nossa meditação pode sempre representar nossa boa vontade de crescer espiritualmente. Uma experiência espiritual durante a meditação não é necessariamente um despertar espiritual. A transformação de nossas vidas é o resultado da prática de todos os Doze Passos e não o resultado da total concentração numa única parte de um dos Passos.
Quando a prática do Décimo Primeiro Passo é integrada no programa total de recuperação como honestidade e humildade, é o começo de uma fantástica aventura. Meditação diária abre novos caminhos, novas descobertas. Oração, comunicação com Deus torna-se uma realidade, não apenas uma possibilidade.

Grapevine, nov/99

VIVÊNCIA JULHO/AGOSTO 2000



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