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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  " AS RECAÍDAS E A NATUREZA HUMANA "

(Publicado na Revista Grapevine de 27.09.81)
Por William Duncan Silkworth - Médico

O mistério das recaídas não é tão profundo como parece. Freqüentemente a
causa é muito simples, ainda que nos soe estranho que um alcoólatra que
tenha se restabelecido, chegando a ponto de ocupar um lugar digno em seu
meio e que permaneceu abstêmio durante anos, repentinamente jogue fora sua
sobriedade e felicidade vendo-se, novamente, no perigo mortal de afogar-se
na bebida.
As pessoas têm a tendência de dizer que "há algo de peculiar nos
alcoólatras. Parecem estar bem, mas a qualquer momento retornam ao mau
caminho. Nunca se pode estar seguro no que diz respeito a eles".
Este raciocínio é simples. O alcoólatra é uma pessoa enferma. Sob as
técnicas de Alcoólicos Anônimos melhora, o que vale dizer que detém sua
enfermidade. Porém é tão imprevisível seu comportamento quanto o é o de uma
pessoa que controla seu diabetes.

Que fique bem esclarecido, de uma vez por todas, que os alcoólatras são,
antes de tudo, seres humanos.
Tanto nos círculos comuns como nos círculos profissionais, existe a
tendência de atribuir tudo o que um alcoólico faz, ou deixe de fazer, à sua
"conduta alcoólica". A verdadeira causa é, simplesmente, sua natureza
humana.
É um grande erro considerar muitos dos rasgos de personalidade que se
observam nos adictos à bebida como peculiares do alcoólatra. Os caprichos
emocionais e mentais são classificados como sintomas de alcoolismo,
unicamente porque os alcoólatras os possuem; Entretanto, os mesmos caprichos
podem ser encontrados em pessoas não-alcoólicas. São sintomas da humanidade!
É possível que o alcoólico se creia diferente dos demais, como alguém
especial com tendências e reações únicas. Muitos psiquiatras, médicos e
terapeutas levam ao extremo a mesma idéia em suas análises e tratamentos de
alcoólatras. Com freqüência, convertem em intrincado mistério umas condições
que se encontra em todos os seres humanos, bebam whisky ou bebam leite.
O alcoolismo, tal como as demais doenças, têm manifestações próprias e
singulares. Tem, também, um certo número de características desconcertantes
que a diferem das demais enfermidades.

Ao mesmo tempo, muitos dos sintomas e grande parte do desenvolvimento do
alcoolismo, são afins, e também similares aos de outras enfermidades.
O beber novamente é uma recaída! E uma reincidência que ocorre depois que o
alcoólico tenha deixado de beber e haja começado o programa de recuperação
de A.A. As "recaídas" ocorrem geralmente nos primeiros tempos do
adoutrinamento do alcoólico em A.A., quando ainda não teve tempo de aprender
suficientemente as técnicas e a filosofia de A.A. de forma que lhe
proporcionem uma base sólida para sua recuperação. Entretanto, as "recaídas"
também podem ocorrer com o alcoólico que esteja há meses, ou mesmo vários
anos, em Alcoólicos Anônimos. Neste último tipo de "recaídas" é onde se pode
encontrar a marcante similaridade existente entre a conduta de um alcoólico
e as vítimas "normais" de outras doenças.
Ninguém fica surpreso com as freqüentes recaídas entre os enfermos de
tuberculose. No entanto, há aqui um fato surpreendente - a causa é, muitas
vezes, a mesma que conduz às recaídas dos alcoólicos.
O processo é o seguinte: Quando um paciente tuberculoso se recupera o
suficiente para receber alta no hospital, seu médico lhe passa cuidadosas e
detalhadas instruções sobre a forma de vida que deve adotar. Deve tomar
grandes quantidades de leite. Deve abster-se totalmente de fumar. Deve
obedecer a várias normas muito severas.

Durante os primeiros meses, talvez vários anos, o paciente segue as
recomendações. Porém, na medida em que vai se fortalecendo e sentindo-se
mais recuperado, vai baixando a guarda. Pode chegar o momento em que decida
tresnoitar. Quando o faz, nada de mal sucede. Logo estará desprezando por
completo as instruções que recebeu quando deixou o hospital. Eventualmente
chega a recaída.
A mesma tragédia podemos encontrar dentre os cardíacos. Após um ataque ao
coração, o paciente se submete a um severo regime. Como está assustado,
adota sem discussão, durante algum tempo, as instruções recebidas. Deita-se
cedo, evita exercícios pesados tais como subir escadas, deixa de fumar e
leva uma vida espartana. Eventualmente, contudo, chega o momento em que,
pelo fato de sentir-se bem durante meses ou anos, crê que recuperou toda a
sua saúde, o que o leva a perder o medo. Se o elevador enguiça, nosso homem
sobe tranqüilamente os três andares. Ou decide ir à uma festa, ou fumar um
cigarrinho, ou tomar um par de tragos. E se não observa efeitos graves como
decorrência deste quebrantamento do regime de vida que tem levado, ensaia
fazer tudo de novo, até que chega o momento em que sofre uma recaída.

Tanto no caso do tuberculoso quanto no do cardíaco, os atos que os
conduziram à recaída foram precedidos por um raciocínio errôneo. O paciente,
em cada caso, fez uma racionalização alijada por completo de sua própria
realidade. Afastou-se deliberadamente do seu conhecimento do fato de que
havia sido vítima de uma grave enfermidade. Adquiriu excesso de confiança.
Entendeu que já não necessitava seguir nenhuma observação sobre como se
cuidar.
E isso exatamente o que ocorre ao alcoólico - ao que tem sua enfermidade
detida ou ao A.A. que sofre uma "recaída". Obviamente, a decisão de se tomar
um trago precede o fato em si. Começou a pensar, equivocadamente, antes de
colocar-se no caminho que o conduz à "recaída".
Não há razão para atribuir à "recaída" a sua condição alcoólica, assim como
inexiste razão para supor-se que o segundo infarto se deveu à sua conduta
cardíaca. Não há nada confuso nisto. O paciente simplesmente não seguiu as
instruções.

Para o alcoólico, A.A. oferece as devidas instruções. O fator primordial e
ingrediente preventivo é a continuidade nas emoções. O alcoólico que aprende
algumas das técnicas, porém deixa de lado a filosofia e o espírito do
programa, cansa-se de seguir as sugestões não porque é alcoólico, mas porque
é humano. As normas e os regulamentos irritam a qualquer pessoa, porque são
restritivas, proibitivas, negativas. Contudo, a filosofia de A.A. é positiva
e oferece um amplo motivo para a emoção perdurável, um contínuo desejo de
seguir voluntariamente as instruções.
Em qualquer caso, a psicologia do alcoólico não é tão diferente como as
pessoas crêem. E certo que a enfermidade tem algumas diferenciações físicas,
e talvez o alcoólico tenha problemas peculiares já que se colocou na
defensiva em conseqüência do desenvolvimento de suas frustrações. No
entanto, em muitos casos, não existe razão para se falar de "mentalidade
alcoólica", assim como não há "mentalidade cardíaca" ou "mentalidade
tuberculosa".

Creio que podemos ajudar muito mais ao alcoólico se reconhecermos que ele é,
primordialmente, um ser humano, com todas as características da natureza
humana.



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