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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  " ESPERANÇA "

Dr. Laís Marques da Silva
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

Há uma velha história mexicana que ilustra a importância da esperança para uma vida plena e saudável. A história diz que, um dia, o diabo decidiu deixar o negócio. Fez um leilão para oferecer todos os instrumentos de tentação que havia usado. Muitas pessoas compareceram esperando encontrar um meio de realizar os seus desejos por meio desses instrumentos. O leilão começou cedo mas não havia muito interesse por ele, como se poderia esperar. De fato, as pessoas estavam surpresas de ver a maior parte dos instrumentos novos e brilhando, como se nunca tivessem sido usados.
Os lances estavam baixos e a maior parte dos instrumentos tinha sido vendida por um preço baixo. Lá pela tarde havia apenas um que diferia dos outros pelo fato de que estava bem usado e, assim, o leilão começou com valores altos e que continuaram a subir ainda mais. Algumas pessoas perguntaram aos assistentes do diabo o que havia com esse instrumento que o levava a um preço tão alto. Os assistentes responderam que era a ferramenta que o diabo usava mais freqüentemente e achavam que lhe era a mais útil. Era a tentação para cair em desespero. Eles explicaram que o demônio achava que, uma vez que conseguia que as pessoas abandonassem a esperança, o resto era fácil.
Muitos que estão em recuperação podem lembrar dos tempos em que viveram sem esperança. A sua falta produzia a sensação de iminente perdição. Ainda quando nós ocultávamos o nosso desespero e o medo do futuro debaixo da máscara da bravura, tudo indicava que estávamos presos a uma situação que só poderia piorar. Contemplamos o suicídio como uma maneira de sair da situação. Estando sem esperança, não tínhamos a sensação real de que o futuro poderia ser diferente do presente.

EXPERIÊNCIA+FORÇA=ESPERANÇA

O preâmbulo de Alcoólicos Anônimos nos diz que o A.A. é uma Irmandade em que as pessoas compartilham suas experiências, forças e esperanças. De fato, a experiência, a força e a esperança estão interligados. A origem da nossa força está em compartilhar abertamente a nossa experiência de recuperação. O desejo de compartilhar aquilo que funcionou para nós, os erros que cometemos, e mesmo assim sobrevivemos, as dificuldades que superamos, a nossa disposição para aceitar o cuidado dos outros na recuperação, tudo contribuiu para uma força que nenhum de nós tinha dentro de nós mesmos. Poderíamos entender também que esta disposição para compartilhar não é uma questão de escolha para nós. Compartilhar uma experiência não é só uma troca de "histórias de guerras" dos nossos dias bebida. Necessitamos de compartilhar a experiência de hoje se queremos encontrar a força necessária para vivê-lo.
É a experiência compartilhada, mais a força que flui do próprio ato de compartilhar, que se tornam os fundamentos da esperança. A esperança é pessoal mas nunca individual, isto é, pode e precisa ser passada para os companheiros. A esperança é a realidade compartilhada ou não é, de modo nenhum, real. Esta é uma afirmação extrema mas, ao exame, parece ser verdadeira. É mais óbvia ainda no caso da sobriedade. Muitos têm tentado ir sozinhos, fazer do próprio modo e então descobriram que não podiam. A tentativa de viver para si mesmos e por si mesmos inevitavelmente termina em frustração e desespero. Só quando começamos a compartilhar a nossa experiência é que ganhamos força e podemos começar a ter esperança.
Essa lição simples que primeiro aprendemos em termos de sobriedade é, às vezes, difícil de aplicar em outras áreas da nossa vida. Mesmo depois de anos de sobriedade, podemos sentir uma falta de plenitude em nossas vidas e que vemos em outros que estão à nossa volta. Podemos descobrir que temos uma falta de esperança no futuro. A rotina, a falta de gosto de viver, até mesmo um sentimento de cinismo, podem se insinuar nas nossas vidas cotidianas. O futuro pode ter uma outra promessa, que não da confusa sensação de ir levando, de passar pela vida. Essa falta de esperança em relação ao futuro pode estar relacionada à nossa necessidade de compartilhar experiência e força. Não podemos apenas estar desejosos de dar, mas também de estar abertos para receber dos outros. Uma das coisas que pode acontecer é que nos tenhamos tornado doadores e não recebedores. A esperança pode ser revitalizada pela disposição de aceitar a ajuda dos outros, ao permitir que as nossas vidas sejam tocadas e influenciadas pelas experiências dos outros e pela sua força. Não podemos apenas estar desejosos de dar, mas também estar abertos para receber dos outros. Pode acontecer que nos tenhamos tornado doadores e não recebedores. A esperança pode ser revitalizada pela disposição de aceitar a ajuda dos outros, permitir que as nossas vidas sejam tocadas e influenciadas pelas experiências dos outros e também pela sua força.

ESPERANÇA VERSUS FANTASIA

Gastamos muito tempo com o pensamento mágico e cheio de desejos, quando estávamos bebendo ou usando. Poderíamos ter fantasiado acerca de ganhar na loteria, de ter uma importante promoção ou de achar exatamente a pessoa certa que faça a vida valer a pena. A nossa adição nos encoraja a viver na fantasia mais do que na realidade.
A diferença entre fantasiar e ter esperança está na sua relação com o presente. A fantasia não tem nenhuma relação com o presente de uma forma real. É simplesmente um mundo criado pelas nossas vontades e desejos, e isso sem que se tenha dado um só passo para ir daqui para ali. É verdade que alguns ganharam na loteria, que podemos ter recebido uma promoção inesperada ou que tenhamos encontrado alguém especial que faça a diferença real em nossas vidas. Mas nós temos, pelo menos, que fazer um esforço para comprar um bilhete, ou fazer o esforço de sair e encontrar a pessoa.

ESPERANÇA E SIMPLICIDADE

Um dos maiores bloqueios para o surgimento da esperança é a nossa tendência para complicar uma situação. Dê a nós cinco minutos para ficar sozinhos com um problema simples e poderemos criar um labirinto que desafia a imaginação. Essa tendência era constante antes de recuperação ter sido iniciada, mas a nossa capacidade para complicar continua na recuperação.
Albert Einstein desenvolveu grandes teorias matemáticas muito antes dos dias dos computadores. No entanto, ele teve como espaço apenas os quadros negros nos quais fazia as suas complicadas fórmulas matemáticas. Sempre que se retirava, deixava uma recomendação em cada quadro negro que dizia "apagar" ou "não apagar". Um dia, o homem da limpeza chegou à sala e viu que Einstein escrevera "apagar", exceto um pequeno canto. Nele marcou com um quadrado em que escreveu uma famosa fórmula e debaixo dela escreveu "não apague". A fórmula era 2+2=4. Einstein, com o seu grande gênio matemático, podia ir para o que é mais complicado e muito além da capacidade da maioria das pessoas. Ele não só tinha o senso de humor, mas também a idéia da importância do básico.
Simplicidade na vida não é ser bisonho. Uns podem ter uma predisposição natural para uma vida mais ordenada e para um estilo de vida mais simples do que outros. Todos nós tendemos, no entanto, a deixar a nossa vida desnecessariamente desordenada. A confusão se torna um bloqueio real para o surgimento da esperança e isso porque, por vezes, nos encontramos, embora de forma não consciente, no meio de contradições. Um exemplo de contradição é a que ocorre quando queremos beber ou usar e, ao mesmo tempo, permanecer sóbrios e não causar problemas. As contradições nos levam a conflitos internos porque estamos agredindo a realidade e tentando moldá-la ao nosso modo. Quando mantemos a esperança simples e direta, podemos nos harmonizar com a realidade e a nossa esperança terá uma chance maior de sobreviver.
Às vezes, necessitamos compartilhar as nossas esperanças para ver se são contraditórias. Se não, temos que abandonar um desejo em favor de outro, ou botá-lo em espera por um tempo. Por exemplo, alguém pode desejar completar treinamento para uma nova carreira, desenvolver alguns hobbies ou buscar uma relação. Essas coisas não têm que estar em conflito, mas podem estar. Pode ser necessário dar prioridade a uma em relação a outra. Em cada caso, entretanto, precisamos nos manter em alinhamento com a esperança básica de viver sóbrios. Ao tomar providências para realizar algumas das nossas esperanças, pode acontecer um conflito com o nosso programa básico, e então podemos causar problemas. Manter as coisas simples, neste caso, significa compartilhar esperanças com os outros de modo que nos mantenhamos do conflito e conservamos a nossa sobriedade na perspectiva própria.

ESPERANÇA E PACIÊNCIA

Em relação à maioria, a paciência não tem sido uma das características mais fortes. Por exemplo, tendemos a ser pessoas que desejamos tudo e agora. Ter esperança não é exigir. Alguns se conhecem suficientemente bem de modo a ter o entendimento necessário para estar consciente de que, freqüentemente, reagimos em excesso em resposta aos nossos pensamentos e desejos. Aprender a ter esperança é aprender a ter paciência. Novamente, a experiência compartilhada e a força de muitos companheiros em recuperação têm nos ensinado que ainda as nossas mais elevadas esperanças podem ser realizadas, mas não necessariamente no nosso tempo programado, ao nosso modo. A impaciência pode ser inimiga da esperança. Podemos saber, a partir da experiência, que a impaciência tem arruinado, por vezes, uma relação ou um trabalho. Podemos agir muito rapidamente, sem consulta ou oração e arruinar uma amizade. Podemos aprender a partir dos erros decorrentes da impaciência e a importância de dar um tempo. De fato, a paciência não significa simplesmente esperar e olhar a grama crescer. Paciência é esperar com esperança.
Novamente, é útil compartilhar com uma outra pessoa a dificuldade de esperar e de conter a nossa tendência para a impaciência. Pelo compartilhamento, desenvolvemos a esperança e evitamos alguns dos perigos que ocorrem quando nos tornamos excessivamente exigentes. Não há uma fórmula para tudo isso. A arte de viver com esperança é adquirida através da prática e isso significa que todos cometemos enganos. Mas há esperança até mesmo nisso, porque podemos aprender a desenvolver um senso de tempo pessoal, a respeito de quando agir e de quando esperar.

ESPERANÇA, DOR DA PERDA E FRACASSO

De início, pode parecer que a recuperação promete que todos os julgamentos ficarão para traz. A dádiva da sobriedade parece trazer consigo todas as coisas que desejávamos. Nem todas as pessoas têm essa experiência cor de rosa no início da recuperação. Nos primeiros anos, não há muitos que não tenham, em algum momento, o sentimento de que viramos a página. Começamos a suspeitar que a vida irá se desenvolver maciamente para nós. No entanto, depois de algum tempo na recuperação, todos acabam se dando conta de que, embora a sobriedade seja a nossa maior dádiva e as promessas do programa sejam verdadeiras, continuamos a enfrentar a realidade da dor da perda e do fracasso nas nossas vidas.
Esses tempos são muito importantes para nós. Aprendemos que a esperança não é simplesmente um otimismo que nega a dor de viver. Aprendemos, também, que a nossa sobriedade não é frágil. Sobriedade não depende de que as coisas corram da nossa maneira. Não está baseada em sucesso continuado. Descobrimos que a esperança não está fundamentada em nós mesmos mas, antes, num Poder Superior a nós e que nós permitimos que trabalhe nas nossas vidas. É em tempo de dificuldade que chegamos a um entendimento mais profundo da necessidade que temos dos outros para dar suporte para a nossa esperança de viver. A esperança não se afasta alegremente da dor. Ao contrário, ela nos dá condições para enfrentar a dor da perda ou do fracasso.
Entre as mais severas dores que podemos enfrentar está a perda de um ente querido pela morte ou a perda de uma relação como conseqüência do divórcio ou da separação. É importante estar atento para o fato de que a dor de tais perdas não é incompatível com a esperança. A dor é real e nós precisamos sentir pesar pela perda. Muito se tem escrito acerca do fenômeno do sofrimento. Sofrer por uma perda real em nossas vidas é um processo complexo, acompanhado de sentimentos muito intensos. Às vezes, podemos experimentar uma sensação real de culpa. Podemos ter súbitos ataques de raiva na relação com uma outra pessoa, com Deus ou com nós mesmos. Podemos perguntar porque tal perda deveria acontecer. Podemos às vezes perguntar se, tendo trabalhado duramente para estar sóbrio, valeu a pena.
A esperança desempenha duas importantes funções em tempos de perda. Se entendemos a esperança como sendo a confiante expectativa de Deus, isso nos capacita para passar pelo processo de sofrimento, estando sóbrios, e chegar a uma completa aceitação da nossa perda. A esperança nos lembra que, embora a perda de um ente querido por morte ou separação irá ,na verdade, afetar as nossas vidas, a intensidade da emoção passará. A esperança nos encoraja para chegar aos outros e aceitar ajuda. A esperança nos dá força para aceitar os nossos sentimentos e entender que, não importando quão poderosos possam ser, eles não têm o poder de nos destruir.
A esperança também nos capacita para ver a importância de estar pesaroso e de chegar a uma completa aceitação da perda a fim de que a esperança possa florescer novamente. Se tentamos passar ao largo desse processo de pesar tentando acreditar que nada aconteceu ou se nos permitimos ficar presos pela raiva que pode acompanhar o pesar, nós estaremos diminuindo a nossa capacidade de ter uma genuína esperança em relação ao futuro.
Ter pesar pela perda de um amigo ou de uma pessoa querida não é o contrário da esperança. Se uma pessoa tem sido realmente uma benção em nossas vidas e experimentamos a perda dessa pessoa, uma certa tristeza deve se seguir. Mas lamentar a perda não precisa ser para sempre. À medida que lamentamos a perda ou chegamos à completa aceitação dela, um outro futuro começa a emergir. É a esperança que nos permite olhar para frente na vida com calma e confiante expectativa acerca do que é bom.
As dores da perda ou do fracasso freqüentemente são inter-relacionadas e difícil de distinguir. Entretanto, podemos separá-las. Freqüentemente, a perda não é da nossa responsabilidade. O fracasso parece implicar numa sensação de que "poderia ter sido diferente se eu tivesse ...". Ao longo da recuperação, continuamos a aprender a lidar com o fracasso de uma maneira saudável e plena de esperança. Talvez o que a esperança nos ensine, a despeito do fracasso, é que nenhum fracasso é final e dura até o momento em que nós o solucionemos. A perda em não realizar um objetivo acalentado pode ser real. A esperança, entretanto, nos permite conhecer que houve falha e nos ajuda a entender que não significa necessariamente que nós falhamos. Neste caso, a esperança nos capacita para olhar para o que é bom na experiência e em nós mesmos. A esperança nos encoraja a reconhecer, mas a não ficar no passado.
Muitos de nós passamos por significativas perdas e fracassos no nosso beber ou usar. Na sobriedade, aprendemos a olhar para traz e ver que eles não precisam impor danos permanentes nas nossas vidas. Na sobriedade, na medida em que olhamos para a realidade da dor da perda e do fracasso, entendemos que temos recursos para caminhar ao longo do programa e das pessoas que estão nele, o que nunca tivemos antes. A esperança não se vai com a dor, mas nos permite aceitá-la e viver com um certo agrado.

A ESPERANÇA COMO UMA MANEIRA DE SER

A esperança é uma maneira de ver o futuro. Implica não somente em desejar que as coisas sejam diferentes mas num desejo de mudar e na coragem para agir. A esperança nos fala muito acerca de nós mesmos. Ela revela que está presente no fundo dos nossos corações e mentes. Na recuperação, descobrimos que temos esperança não somente em relação a nós mesmos mas também na recuperação dos outros, das nossas famílias e até nas nossas carreiras. A esperança nos leva para fora de nós mesmos, nos ajuda a nos tornarmos menos autocentrados, e ser mais atentos ao bem estar dos outros.
A esperança pode nos ver através da dificuldade e de situações dolorosas e nos dar significação e propósito. Quando as coisas vão bem e a esperança se realizou, temos uma oportunidade para sermos gratos e podemos olhar para um futuro ainda melhor.

DESENVOLVENDO A ESPERANÇA

Há diversas pequenas coisas que podemos fazer para ajudar a desenvolver a nossa capacidade para termos esperança. Podemos, por exemplo, escrever as nossas esperanças e objetivos específicos de uma forma regular e compartilhá-los com os outros. Podemos chamar a isso de um inventário do futuro, mais do que do passado. Ele revelará a diferença entre o que nós realmente esperamos e o que nós fantasiamos.
Um outro meio de desenvolver a nossa capacidade para ter esperança envolve o Passo Onze, que nos chama para melhorar o nosso contacto consciente com Deus na forma que o entendemos, pedindo para saber a sua vontade em relação a nós e o poder necessário para realizá-la. À medida que aprendemos a dar tempo para a oração, descobrimos novas possibilidades que nunca consideramos antes. Se estamos dispostos a oferecer a nossa esperança ao nosso Poder Superior em oração e meditação, nossa esperança será alargada e nós chegaremos a um entendimento mais profundo de que a concretização da esperança não depende somente de nós.
Se estamos desejosos de compartilhar experiência e força, a esperança pode se tornar um modo de vida. Não mais temos que lamentar o passado porque estamos aprendendo como olhar com confiança para o futuro. A disposição de aceitar o nosso passado pode ser a única barreira à esperança. Na medida em que crescemos na honestidade, ganhamos abertura e aceitação, entendemos que a nossa esperança não será em vão. Disposição para examinar e compartilhar nossas esperanças, para ser paciente e manter as coisas simples, para ter tempo para a oração e a meditação, torna-se o fundamento para uma vida atual em que se olha para frente, para o futuro, com a expectativa confiante no que é bom.



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