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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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" HISTÓRICO E PROGRAMA DE RECUPERAÇÃO DE A.A. "

Dr. Laís Marques da Silva
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

Num primeiro momento, vou enfocar dois fatos históricos de especial importância para a Irmandade de A.A..

O primeiro está ligado à espiritualidade.
Carl Gustaf Jung, que foi quem mais procurou casar psicologia com espiritualidade, teve um importante papel na fundação do A.A. e também para o fato de termos um programa espiritual.
No início dos anos 30 do século passado, um americano chamado Rowland, banqueiro e ex-senador, viajou para Zurique, na Suíça, para tratar do seu problema de alcoolismo com o famoso psiquiatra Jung. Rowland recaiu algumas vezes e, após um ano de terapia, não apresentou nenhum progresso. Jung comunicou ao paciente que ele estava gastando dinheiro à toa e que não poderia ajudá-lo. Rowland perguntou se havia alguma esperança, se não havia nada que ele pudesse sugerir. A resposta foi que a única coisa que poderia fazer seria procurar uma conversão, uma profunda mudança interior. Disse que ouvira relatos de pessoas que, após uma conversão religiosa, tinham parado de beber e que isso fazia sentido para ele.
Rowland passou a freqüentar um movimento religioso, muito conhecido naquela época, os Grupos Oxford. Conseguiu a desejada conversão e parou de beber. Já sóbrio, procurou um velho companheiro de bebida, chamado Ebby, que o convidou para beber e a resposta foi: eu não bebo mais. Ebby ficou estupefato e perguntou: o que você quer dizer com isso? Você é um alcoólico sem esperança como eu. Rowland relatou o que lhe havia acontecido e Ebby, seguindo o mesmo caminho, conseguiu parar de beber por um longo período de tempo.
Estando sóbrio, Ebby foi visitar um velho amigo, Bill W. e recebeu dele o mesmo convite para beber e a resposta foi: não bebo mais. Aí foi a vez de Bill ficar espantado. Ebby relatou o que havia acontecido e Bill pensou que trilhar este caminho seria uma boa idéia. Procurou tratamento e, no decurso dele, experimentou um despertar espiritual. Cerca de seis meses mais tarde iniciou a primeira reunião de A.A. em Akron, Ohio.

O segundo fato histórico está ligado à solidariedade humana, à compreensão, à troca interpessoal de riquezas interiores que ocorre no compartilhar de experiências, tão ao estilo de A.A. e, ao mesmo tempo, fundamento para a formação de uma comunidade.
Em novembro de 1934, Bill alcançou a sobriedade e, durante seis meses, falhou ao tentar ajudar outros alcoólicos. Nenhum deles desejou aquilo que Bill pensou que tinha para dar. Mas, no dia das mães de 1935, estando em Akron, Ohio, sentiu-se desesperado e teve medo de voltar a beber. Procurou então um alcoólico que pudesse entender o que sentia e foi ter com o Dr. Bob pelo que Bob, como alcoólico, podia dar a ele. Bill não procurou para dar, mas para receber e foi aí, ao receber, que conseguiu, finalmente, dar. Estava aberta a poderosa via de mão dupla.
O Dr. Bob se sensibilizou com o fato de Bill não só admitir que necessitava dele, mas também por ter agradecido pela ajuda que havia recebido, o que possibilitou se manter sóbrio. Aquele muito obrigado de Bill tocou e acalmou os sentimentos do Dr. Bob. Alguma coisa havia mudado no seu íntimo, agora ele era diferente.
Por ser um alcoólico, o Dr. Bob podia não apenas ouvir, mas também compreender e compartilhar. Experimentaram a via de mão dupla vivida em A.A., no dia a dia dos seus membros. Essa via de mão dupla é um dos elementos mais importantes na formação de uma verdadeira comunidade.
Esses foram os dois fatos históricos que considero de relevante importância para o desenvolvimento da espiritualidade e para o nascimento da comunidade de Alcoólicos Anônimos.

Num segundo momento, volto-me para o Programa de Recuperação.
Vinte anos depois de ter-se recuperado, Bill W. escreveu para Jung e relatou o papel que, involuntariamente, ele havia desempenhado na criação do A.A..
Jung, em carta datada de 30 de janeiro, de 1961, dirigida a Bill W., enfatizou a importância da experiência religiosa e das barreiras protetoras formadas pela comunidade humana e ressaltou ainda que a palavra álcool significava espírito e que era usada tanto para designar a mais alta experiência religiosa quanto o mais depravador dos venenos e colocava, finalmente, que a receita é "spiritus" contra "spiritum", ou seja, a espiritualidade contra as bebidas chamadas espirituosas e que talvez o alcoolismo fosse uma condição espiritual. Seria a espiritualidade contra a droga álcool, "Spirit against spirits". Esse pensamento conduz à visão que tenho do Programa de Recuperação de A.A..
Vejo-o como um programa de conversão espiritual, de modificação profunda do ser, um programa psicológico em que se destaca a força de mensagens curtas e breves, de aforismos e provérbios. Para progredir no Programa, o alcoólico é apoiado pela existência de um sistema de apadrinhamento, uma das formas de proteção da comunidade humana. O padrinho é uma espécie de psicoterapeuta não profissional e não pago. É também um fato considerado normal, além de ser bem aceito, que o afilhado possa superar o seu padrinho e até procurar um outro num determinado momento da sua trajetória de recuperação e nisso, o apadrinhamento é superior à terapia tradicional. Finalmente, vejo o Programa de Recuperação como um programa importante para o estabelecimento de uma verdadeira comunidade.
Quase todos os Passos do Programa de Recuperação são voltados para o autoconhecimento, para o conhecimento de si mesmo. Nos Diálogos de Platão, Sócrates diz: "Eu preciso primeiro conhecer-me, conforme a inscrição de Delfos - Conhece-te a ti mesmo".
Praticar o Programa de Recuperação é estar na busca de si mesmo pela vida inteira e o homem só começa a ter valor quando procura conhecer a si mesmo. A jornada em A.A. é a caminhada rumo ao interior, que começa já no Primeiro Passo.
Na busca da sua individualidade, da sua singularidade espiritual, o membro de A.A. encontra a resposta à grande indagação: Quem sou eu?
Enquanto fazendo o Programa de Recuperação, os alcoólicos são seres humanos voltados para a descoberta do seu mundo interior, onde vão encontrar a espiritualidade e a solução dos seus problemas íntimos e também o seu valor e a sua dignidade.

Concluindo, há cerca de 2.500 anos, havia uma integração perfeita entre ciência e religião na filosofia daquele tempo. Em 1633, Galileu, ante a Inquisição, teve que repudiar a Teoria Copernicana. A partir daí, passou a vigorar um contrato, não escrito, em que a religião seguia o seu caminho e a ciência se restringia aos fenômenos naturais. Muitas coisas boas aconteceram nos dois lados, mas o problema era que esse contrato era fragmentador. Dividia o homem e, no entanto, ele precisa ser integral, ter integridade, e hoje esse contrato não funciona mais. Atualmente, os homens procuram soluções que falem ao espírito, que os ajudem na busca da vida interior. 30 anos depois da sua morte, Jung se tornou mais atraente por oferecer um casamento perfeito entre psicologia e espiritualidade, entre religião e ciência.
Para finalizar, recorro às palavras de Scott Peck, autor do Livro Further Along The Road Less Travelled. Scott Peck é psiquiatra, com formação na Universidade de Harvard e Diretor do Milford Hospital, Mental Health Clinic, em Connecticut. Traduzi o trecho que vou citar e são essas as suas palavras: "... acredito que o evento positivo maior deste século vinte ocorreu em Akron, Ohio, em 10 de junho de 1935, quando Bill W. e o Dr. Bob juntaram-se para fazer a primeira reunião de A.A.. Não foi só o início do movimento de auto-ajuda e da integração da ciência com a espiritualidade, a nível de raízes, mas também o início do movimento de comunidade". Mais adiante, diz: "quando meus amigos do A.A. e eu nos juntamos, freqüentemente chegamos à conclusão de que, muito provavelmente, Deus deliberadamente criou a doença do alcoolismo a fim de criar alcoólicos para que eles pudessem criar o A.A. e assim alcançar o movimento de comunidade que caminha para ser a salvação não somente de alcoólicos e aditos, mas de todos nós".




" ESPERANÇA "

Dr. Laís Marques da Silva
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

Há uma velha história mexicana que ilustra a importância da esperança para uma vida plena e saudável. A história diz que, um dia, o diabo decidiu deixar o negócio. Fez um leilão para oferecer todos os instrumentos de tentação que havia usado. Muitas pessoas compareceram esperando encontrar um meio de realizar os seus desejos por meio desses instrumentos. O leilão começou cedo mas não havia muito interesse por ele, como se poderia esperar. De fato, as pessoas estavam surpresas de ver a maior parte dos instrumentos novos e brilhando, como se nunca tivessem sido usados.
Os lances estavam baixos e a maior parte dos instrumentos tinha sido vendida por um preço baixo. Lá pela tarde havia apenas um que diferia dos outros pelo fato de que estava bem usado e, assim, o leilão começou com valores altos e que continuaram a subir ainda mais. Algumas pessoas perguntaram aos assistentes do diabo o que havia com esse instrumento que o levava a um preço tão alto. Os assistentes responderam que era a ferramenta que o diabo usava mais freqüentemente e achavam que lhe era a mais útil. Era a tentação para cair em desespero. Eles explicaram que o demônio achava que, uma vez que conseguia que as pessoas abandonassem a esperança, o resto era fácil.
Muitos que estão em recuperação podem lembrar dos tempos em que viveram sem esperança. A sua falta produzia a sensação de iminente perdição. Ainda quando nós ocultávamos o nosso desespero e o medo do futuro debaixo da máscara da bravura, tudo indicava que estávamos presos a uma situação que só poderia piorar. Contemplamos o suicídio como uma maneira de sair da situação. Estando sem esperança, não tínhamos a sensação real de que o futuro poderia ser diferente do presente.




EXPERIÊNCIA+FORÇA=ESPERANÇA

O preâmbulo de Alcoólicos Anônimos nos diz que o A.A. é uma Irmandade em que as pessoas compartilham suas experiências, forças e esperanças. De fato, a experiência, a força e a esperança estão interligados. A origem da nossa força está em compartilhar abertamente a nossa experiência de recuperação. O desejo de compartilhar aquilo que funcionou para nós, os erros que cometemos, e mesmo assim sobrevivemos, as dificuldades que superamos, a nossa disposição para aceitar o cuidado dos outros na recuperação, tudo contribuiu para uma força que nenhum de nós tinha dentro de nós mesmos. Poderíamos entender também que esta disposição para compartilhar não é uma questão de escolha para nós. Compartilhar uma experiência não é só uma troca de "histórias de guerras" dos nossos dias bebida. Necessitamos de compartilhar a experiência de hoje se queremos encontrar a força necessária para vivê-lo.
É a experiência compartilhada, mais a força que flui do próprio ato de compartilhar, que se tornam os fundamentos da esperança. A esperança é pessoal mas nunca individual, isto é, pode e precisa ser passada para os companheiros. A esperança é a realidade compartilhada ou não é, de modo nenhum, real. Esta é uma afirmação extrema mas, ao exame, parece ser verdadeira. É mais óbvia ainda no caso da sobriedade. Muitos têm tentado ir sozinhos, fazer do próprio modo e então descobriram que não podiam. A tentativa de viver para si mesmos e por si mesmos inevitavelmente termina em frustração e desespero. Só quando começamos a compartilhar a nossa experiência é que ganhamos força e podemos começar a ter esperança.
Essa lição simples que primeiro aprendemos em termos de sobriedade é, às vezes, difícil de aplicar em outras áreas da nossa vida. Mesmo depois de anos de sobriedade, podemos sentir uma falta de plenitude em nossas vidas e que vemos em outros que estão à nossa volta. Podemos descobrir que temos uma falta de esperança no futuro. A rotina, a falta de gosto de viver, até mesmo um sentimento de cinismo, podem se insinuar nas nossas vidas cotidianas. O futuro pode ter uma outra promessa, que não da confusa sensação de ir levando, de passar pela vida. Essa falta de esperança em relação ao futuro pode estar relacionada à nossa necessidade de compartilhar experiência e força. Não podemos apenas estar desejosos de dar, mas também de estar abertos para receber dos outros. Uma das coisas que pode acontecer é que nos tenhamos tornado doadores e não recebedores. A esperança pode ser revitalizada pela disposição de aceitar a ajuda dos outros, ao permitir que as nossas vidas sejam tocadas e influenciadas pelas experiências dos outros e pela sua força. Não podemos apenas estar desejosos de dar, mas também estar abertos para receber dos outros. Pode acontecer que nos tenhamos tornado doadores e não recebedores. A esperança pode ser revitalizada pela disposição de aceitar a ajuda dos outros, permitir que as nossas vidas sejam tocadas e influenciadas pelas experiências dos outros e também pela sua força.

ESPERANÇA VERSUS FANTASIA

Gastamos muito tempo com o pensamento mágico e cheio de desejos, quando estávamos bebendo ou usando. Poderíamos ter fantasiado acerca de ganhar na loteria, de ter uma importante promoção ou de achar exatamente a pessoa certa que faça a vida valer a pena. A nossa adição nos encoraja a viver na fantasia mais do que na realidade.
A diferença entre fantasiar e ter esperança está na sua relação com o presente. A fantasia não tem nenhuma relação com o presente de uma forma real. É simplesmente um mundo criado pelas nossas vontades e desejos, e isso sem que se tenha dado um só passo para ir daqui para ali. É verdade que alguns ganharam na loteria, que podemos ter recebido uma promoção inesperada ou que tenhamos encontrado alguém especial que faça a diferença real em nossas vidas. Mas nós temos, pelo menos, que fazer um esforço para comprar um bilhete, ou fazer o esforço de sair e encontrar a pessoa.

ESPERANÇA E SIMPLICIDADE

Um dos maiores bloqueios para o surgimento da esperança é a nossa tendência para complicar uma situação. Dê a nós cinco minutos para ficar sozinhos com um problema simples e poderemos criar um labirinto que desafia a imaginação. Essa tendência era constante antes de recuperação ter sido iniciada, mas a nossa capacidade para complicar continua na recuperação.
Albert Einstein desenvolveu grandes teorias matemáticas muito antes dos dias dos computadores. No entanto, ele teve como espaço apenas os quadros negros nos quais fazia as suas complicadas fórmulas matemáticas. Sempre que se retirava, deixava uma recomendação em cada quadro negro que dizia "apagar" ou "não apagar". Um dia, o homem da limpeza chegou à sala e viu que Einstein escrevera "apagar", exceto um pequeno canto. Nele marcou com um quadrado em que escreveu uma famosa fórmula e debaixo dela escreveu "não apague". A fórmula era 2+2=4. Einstein, com o seu grande gênio matemático, podia ir para o que é mais complicado e muito além da capacidade da maioria das pessoas. Ele não só tinha o senso de humor, mas também a idéia da importância do básico.
Simplicidade na vida não é ser bisonho. Uns podem ter uma predisposição natural para uma vida mais ordenada e para um estilo de vida mais simples do que outros. Todos nós tendemos, no entanto, a deixar a nossa vida desnecessariamente desordenada. A confusão se torna um bloqueio real para o surgimento da esperança e isso porque, por vezes, nos encontramos, embora de forma não consciente, no meio de contradições. Um exemplo de contradição é a que ocorre quando queremos beber ou usar e, ao mesmo tempo, permanecer sóbrios e não causar problemas. As contradições nos levam a conflitos internos porque estamos agredindo a realidade e tentando moldá-la ao nosso modo. Quando mantemos a esperança simples e direta, podemos nos harmonizar com a realidade e a nossa esperança terá uma chance maior de sobreviver.
Às vezes, necessitamos compartilhar as nossas esperanças para ver se são contraditórias. Se não, temos que abandonar um desejo em favor de outro, ou botá-lo em espera por um tempo. Por exemplo, alguém pode desejar completar treinamento para uma nova carreira, desenvolver alguns hobbies ou buscar uma relação. Essas coisas não têm que estar em conflito, mas podem estar. Pode ser necessário dar prioridade a uma em relação a outra. Em cada caso, entretanto, precisamos nos manter em alinhamento com a esperança básica de viver sóbrios. Ao tomar providências para realizar algumas das nossas esperanças, pode acontecer um conflito com o nosso programa básico, e então podemos causar problemas. Manter as coisas simples, neste caso, significa compartilhar esperanças com os outros de modo que nos mantenhamos do conflito e conservamos a nossa sobriedade na perspectiva própria.

ESPERANÇA E PACIÊNCIA

Em relação à maioria, a paciência não tem sido uma das características mais fortes. Por exemplo, tendemos a ser pessoas que desejamos tudo e agora. Ter esperança não é exigir. Alguns se conhecem suficientemente bem de modo a ter o entendimento necessário para estar consciente de que, freqüentemente, reagimos em excesso em resposta aos nossos pensamentos e desejos. Aprender a ter esperança é aprender a ter paciência. Novamente, a experiência compartilhada e a força de muitos companheiros em recuperação têm nos ensinado que ainda as nossas mais elevadas esperanças podem ser realizadas, mas não necessariamente no nosso tempo programado, ao nosso modo. A impaciência pode ser inimiga da esperança. Podemos saber, a partir da experiência, que a impaciência tem arruinado, por vezes, uma relação ou um trabalho. Podemos agir muito rapidamente, sem consulta ou oração e arruinar uma amizade. Podemos aprender a partir dos erros decorrentes da impaciência e a importância de dar um tempo. De fato, a paciência não significa simplesmente esperar e olhar a grama crescer. Paciência é esperar com esperança.
Novamente, é útil compartilhar com uma outra pessoa a dificuldade de esperar e de conter a nossa tendência para a impaciência. Pelo compartilhamento, desenvolvemos a esperança e evitamos alguns dos perigos que ocorrem quando nos tornamos excessivamente exigentes. Não há uma fórmula para tudo isso. A arte de viver com esperança é adquirida através da prática e isso significa que todos cometemos enganos. Mas há esperança até mesmo nisso, porque podemos aprender a desenvolver um senso de tempo pessoal, a respeito de quando agir e de quando esperar.

ESPERANÇA, DOR DA PERDA E FRACASSO

De início, pode parecer que a recuperação promete que todos os julgamentos ficarão para traz. A dádiva da sobriedade parece trazer consigo todas as coisas que desejávamos. Nem todas as pessoas têm essa experiência cor de rosa no início da recuperação. Nos primeiros anos, não há muitos que não tenham, em algum momento, o sentimento de que viramos a página. Começamos a suspeitar que a vida irá se desenvolver maciamente para nós. No entanto, depois de algum tempo na recuperação, todos acabam se dando conta de que, embora a sobriedade seja a nossa maior dádiva e as promessas do programa sejam verdadeiras, continuamos a enfrentar a realidade da dor da perda e do fracasso nas nossas vidas.
Esses tempos são muito importantes para nós. Aprendemos que a esperança não é simplesmente um otimismo que nega a dor de viver. Aprendemos, também, que a nossa sobriedade não é frágil. Sobriedade não depende de que as coisas corram da nossa maneira. Não está baseada em sucesso continuado. Descobrimos que a esperança não está fundamentada em nós mesmos mas, antes, num Poder Superior a nós e que nós permitimos que trabalhe nas nossas vidas. É em tempo de dificuldade que chegamos a um entendimento mais profundo da necessidade que temos dos outros para dar suporte para a nossa esperança de viver. A esperança não se afasta alegremente da dor. Ao contrário, ela nos dá condições para enfrentar a dor da perda ou do fracasso.


Entre as mais severas dores que podemos enfrentar está a perda de um ente querido pela morte ou a perda de uma relação como conseqüência do divórcio ou da separação. É importante estar atento para o fato de que a dor de tais perdas não é incompatível com a esperança. A dor é real e nós precisamos sentir pesar pela perda. Muito se tem escrito acerca do fenômeno do sofrimento. Sofrer por uma perda real em nossas vidas é um processo complexo, acompanhado de sentimentos muito intensos. Às vezes, podemos experimentar uma sensação real de culpa. Podemos ter súbitos ataques de raiva na relação com uma outra pessoa, com Deus ou com nós mesmos. Podemos perguntar porque tal perda deveria acontecer. Podemos às vezes perguntar se, tendo trabalhado duramente para estar sóbrio, valeu a pena.
A esperança desempenha duas importantes funções em tempos de perda. Se entendemos a esperança como sendo a confiante expectativa de Deus, isso nos capacita para passar pelo processo de sofrimento, estando sóbrios, e chegar a uma completa aceitação da nossa perda. A esperança nos lembra que, embora a perda de um ente querido por morte ou separação irá ,na verdade, afetar as nossas vidas, a intensidade da emoção passará. A esperança nos encoraja para chegar aos outros e aceitar ajuda. A esperança nos dá força para aceitar os nossos sentimentos e entender que, não importando quão poderosos possam ser, eles não têm o poder de nos destruir.
A esperança também nos capacita para ver a importância de estar pesaroso e de chegar a uma completa aceitação da perda a fim de que a esperança possa florescer novamente. Se tentamos passar ao largo desse processo de pesar tentando acreditar que nada aconteceu ou se nos permitimos ficar presos pela raiva que pode acompanhar o pesar, nós estaremos diminuindo a nossa capacidade de ter uma genuína esperança em relação ao futuro.
Ter pesar pela perda de um amigo ou de uma pessoa querida não é o contrário da esperança. Se uma pessoa tem sido realmente uma benção em nossas vidas e experimentamos a perda dessa pessoa, uma certa tristeza deve se seguir. Mas lamentar a perda não precisa ser para sempre. À medida que lamentamos a perda ou chegamos à completa aceitação dela, um outro futuro começa a emergir. É a esperança que nos permite olhar para frente na vida com calma e confiante expectativa acerca do que é bom.
As dores da perda ou do fracasso freqüentemente são inter-relacionadas e difícil de distinguir. Entretanto, podemos separá-las. Freqüentemente, a perda não é da nossa responsabilidade. O fracasso parece implicar numa sensação de que "poderia ter sido diferente se eu tivesse ...". Ao longo da recuperação, continuamos a aprender a lidar com o fracasso de uma maneira saudável e plena de esperança. Talvez o que a esperança nos ensine, a despeito do fracasso, é que nenhum fracasso é final e dura até o momento em que nós o solucionemos. A perda em não realizar um objetivo acalentado pode ser real. A esperança, entretanto, nos permite conhecer que houve falha e nos ajuda a entender que não significa necessariamente que nós falhamos. Neste caso, a esperança nos capacita para olhar para o que é bom na experiência e em nós mesmos. A esperança nos encoraja a reconhecer, mas a não ficar no passado.
Muitos de nós passamos por significativas perdas e fracassos no nosso beber ou usar. Na sobriedade, aprendemos a olhar para traz e ver que eles não precisam impor danos permanentes nas nossas vidas. Na sobriedade, na medida em que olhamos para a realidade da dor da perda e do fracasso, entendemos que temos recursos para caminhar ao longo do programa e das pessoas que estão nele, o que nunca tivemos antes. A esperança não se vai com a dor, mas nos permite aceitá-la e viver com um certo agrado.



A ESPERANÇA COMO UMA MANEIRA DE SER

A esperança é uma maneira de ver o futuro. Implica não somente em desejar que as coisas sejam diferentes mas num desejo de mudar e na coragem para agir. A esperança nos fala muito acerca de nós mesmos. Ela revela que está presente no fundo dos nossos corações e mentes. Na recuperação, descobrimos que temos esperança não somente em relação a nós mesmos mas também na recuperação dos outros, das nossas famílias e até nas nossas carreiras. A esperança nos leva para fora de nós mesmos, nos ajuda a nos tornarmos menos autocentrados, e ser mais atentos ao bem estar dos outros.
A esperança pode nos ver através da dificuldade e de situações dolorosas e nos dar significação e propósito. Quando as coisas vão bem e a esperança se realizou, temos uma oportunidade para sermos gratos e podemos olhar para um futuro ainda melhor.

DESENVOLVENDO A ESPERANÇA

Há diversas pequenas coisas que podemos fazer para ajudar a desenvolver a nossa capacidade para termos esperança. Podemos, por exemplo, escrever as nossas esperanças e objetivos específicos de uma forma regular e compartilhá-los com os outros. Podemos chamar a isso de um inventário do futuro, mais do que do passado. Ele revelará a diferença entre o que nós realmente esperamos e o que nós fantasiamos.
Um outro meio de desenvolver a nossa capacidade para ter esperança envolve o Passo Onze, que nos chama para melhorar o nosso contacto consciente com Deus na forma que o entendemos, pedindo para saber a sua vontade em relação a nós e o poder necessário para realizá-la. À medida que aprendemos a dar tempo para a oração, descobrimos novas possibilidades que nunca consideramos antes. Se estamos dispostos a oferecer a nossa esperança ao nosso Poder Superior em oração e meditação, nossa esperança será alargada e nós chegaremos a um entendimento mais profundo de que a concretização da esperança não depende somente de nós.
Se estamos desejosos de compartilhar experiência e força, a esperança pode se tornar um modo de vida. Não mais temos que lamentar o passado porque estamos aprendendo como olhar com confiança para o futuro. A disposição de aceitar o nosso passado pode ser a única barreira à esperança. Na medida em que crescemos na honestidade, ganhamos abertura e aceitação, entendemos que a nossa esperança não será em vão. Disposição para examinar e compartilhar nossas esperanças, para ser paciente e manter as coisas simples, para ter tempo para a oração e a meditação, torna-se o fundamento para uma vida atual em que se olha para frente, para o futuro, com a expectativa confiante no que é bom.



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I CONCEITO
Dr. Lais Marques da Silva
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

Os substantivos definem as idéias. Dizemos que uma questão é substantiva quando ela contém o significado, a substância. Na designação "Doze Conceitos para Serviços Mundiais", temos dois substantivos que devemos analisar detidamente a fim de que possamos compreender a totalidade dos seus conteúdos.
O primeiro é a palavra conceito. Recorrendo ao "Aurélio", vemos que: 1. Em Filosofia, significa a representação de um objeto pelo pensamento, por uma das suas características gerais - abstração, idéia; 2. Ação de formular uma idéia por meio de palavras - definição, caracterização e, 3. Pensamento, idéia, opinião. Estas primeiras acepções nos transmitem o significado da palavra conceito porque respondem às indagações: qual a idéia e qual a sua definição?
O segundo substantivo é a palavra serviço. Com ela já estamos bem familiarizados, pois vivemos numa Irmandade animada pelo espírito de serviço, entendido como o ato de colocar a sobriedade ao alcance de todos os que a desejem. Os serviços definem o AA como o conhecemos e põem os seus membros em contato, em comunicação, com os que precisam de ajuda, os que querem parar de beber.
O serviço em AA compreende tudo o que se venha a realizar para alcançar o alcoólico que ainda sofre e se compõe de uma grande variedade de atividades que vão desde o preparo de uma xícara de café até a manutenção do Escritório de Serviços Gerais. No entanto, o serviço básico, e também a razão primordial da existência de AA, é o de levar a mensagem ao alcoólico que ainda sofre. O serviço dá à Irmandade a marca da ação. Alcoólicos Anônimos é uma sociedade de alcoólicos em recuperação e em ação.
Do mesmo modo que o objetivo de cada membro é a sua própria sobriedade, o dos serviços é colocar esta mesma sobriedade ao alcance de todos os que a desejem; "Cada grupo é animado de um único propósito - o de transmitir a mensagem ao alcoólico que ainda sofre".
O ideal de ajuda se constitui numa importante força de coesão para o grupo porque anima os seus membros em torno de um objetivo comum e, por isso, se torna um sólido alicerce para a Irmandade. Indispensável à Unidade, é a própria essência do Terceiro Legado.
A tarefa de estender a mão àquele que ainda sofre oferece a cada membro um trabalho suficientemente grande para polarizar a imaginação e os esforços dos seus membros e para fazer nascer um profundo sentimento de lealdade em relação ao grupo. "Razões tinham que ser encontradas para manter as pessoas autoritárias e causadoras de atrito em seus devidos lugares. Um adequando comitê de serviços, com considerável pressão, aliado a muito amor e confiança, provou ser a resposta". O serviço traz recompensas imateriais para os que o realizam e é um dos pilares sobre os quais se assenta a recuperação individual.

Voltando ao tema, vemos que os serviços são mundiais e aí muita gente entende que não é da sua alçada em razão do adjetivo mundial, considerado o âmbito restrito da sua atuação individual. Mas os serviços têm uma outra dimensão, a espacial, uma vez que compreendem as ações que se desenvolvem nos grupos, as que são realizadas a nível nacional, as que ultrapassam as fronteiras de um país e as que são executadas a nível internacional. Como a Irmandade está em cerca de 147 países do mundo, os serviços se tornaram realmente mundiais. Assim, o alcance da Irmandade é global e a sua mensagem é dirigida à espécie humana, a todos os que têm problemas com a bebida.
Os Doze Conceitos, ligados ao Terceiro Legado, interessam em especial aos "servidores de confiança", isto é, aos companheiros que se dedicam ao serviço.
Com poucos anos de existência, a Irmandade contava com milhares de grupos, com uma Junta de Serviços Gerias, com uma Conferência e uma Revista. Era necessário, então, estabelecer as relações entre estas essas estruturas. Desta forma, quando o próprio Bill W. idealizou os 12 Conceitos, estabeleceu as relações que visavam, a meu ver, montar um sistema, como se espera que exista numa sociedade como aquela em que vivemos, preocupada com os controles, a retroalimentação e com a reformulação do planejamento. Os Doze Conceitos de AA dão a coesão necessária aos serviços e previnem a existência de superposições e, como tal, evitam dissensões.

Outro ponto que é necessário esclarecer é o conceito de Serviços Gerais. São serviços que os grupos não podem fazer por si mesmos, como: uniformizar, editar e distribuir uma literatura composta de numerosos títulos; fazer um trabalho de informação ao público padronizado a nível nacional; passar a experiência adquirida pelos grupos da nossa Irmandade como um todo aos novos grupos; atender, numa escala maior, aos pedidos de ajuda; publicar a Revista Nacional, etc.
Há frases que demonstram um grande poder de síntese e que dão uma idéia muito clara das coisas: "Os Passos são para o alcoólico viver e as Tradições são para a Irmandade viver". Uma outra diz que "Os Passos ensinam a viver e as Tradições ensinam a conviver". São frases que, sendo curtas, exibem um grande poder de síntese e encerram uma grande significação. No entanto, em relação aos Conceitos, fica um pouco difícil condensar, fazer uma ponte que os una como um todo. Resta o esforço de tentar costurá-los de modo a transmitir uma idéia condensada, uma visão global do seu conteúdo e é o que passamos a fazer agora.

Conceito I: Nele fica estabelecido que "A responsabilidade final e a autoridade suprema para os serviços mundiais recaem sobre os grupos de AA." "Esta responsabilidade e a conseqüente autoridade foram transferidos para os grupos no decurso da Convenção Internacional de Saint Louis, em 1955". Esta é a idéia do Conceito I.


" O GRUPO - MUDANÇA NA MATRIZ "

DR. LAIS MARQUES DA SILVA, ex- PRESIDENTE DA JUNTA DE
SERVIÇOS GERAIS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS DO BRASIL

Este é o tema da XVI Conferência a realizar-se em Brasília, de 12 a 16 de abril de 1992. Foi colocado para um ano de estudo e reflexão para cada um dos membros de Alcoólicos Anônimos. Digo cada um porque me refiro aos membros da Irmandade individualmente, de "per si". Um ano parece muito tempo mas, na realidade, não o é diante de tema tão forte e de tanta densidade.
A mudança sugerida se dirige à Matriz, ao Grupo, a unidade mais importante porque formadora, fonte e origem de tudo o que ocorre na Irmandade de A.A., mas que é também repositório das nossas melhores expectativas na convicção da grandeza, da riqueza e do imenso potencial de crescimento humano contido no Programa de Recuperação de A.A.. Nisto está o fundamento para uma análise crítica, pois colocamos, lado a lado, tanto uma avaliação da realidade atual dos nossos grupos quanto o grande potencial de crescimento dos seus membros que eles, os grupos, encerram.
Não se trata de refroma física do prédio onde se realizam as reuniões nem da aquisição de novo mobiliário. Falando em Matriz, referimo-nos ao grupo: a mais importante unidade de atuação, de transformação e de recuperação. A idéia de mudança no grupo conduz, necessariamente, à transformação de cada um dos seus membros. A mudança se dirige às pessoas e para elas está voltado o Programa de Recuperação e exatamente elas é que deverão ser exemplos vivos, verdadeiros modelos que, em consequência, induzirão nova forma de estruturar uma nova dinâmica de recuperação. Não se pretende mudar o A.A.. A Conferência apenas deseja o reencontro com o verdadeiro programa de A.A.. O A.A. não precisa ser mudado. O programa é que precisa ser feito. Quem precisa mudar somos nós e não o mundo que nos cerca. A recuperação se dirige ao alcoólico e a mudança a ocorrrer à sua volta será decorrência da sua própria mudança. Este tema responde a uma necessidade e/ou uma expectativa de melhora, em face da riqueza do Programa de Recuperação, dos Príncípios e das Tradições de A.A..
Agimos por atração. Há considerável esforço em levar à sociedade e à comunidade profissional informações relativas à Irmandade e ao que ela oferece àqueles que sofrem no alcoolismo.
Muitos dos que chegam ao grupo não permanecem nele porque, para eles, o grupo não é atraente, não está ao nível das suas necesidades ou expectativas ou se mostra pouco aderente. É válido indagar: como estão os nossos depoimentos? Como estamos fazendo o nosso Programa de Recuperação? O que se está passando nos grupos de A.A. nos dias de hoje?
É frequente observar, especialmente entre os mais antigos, que vários deles estejam fazendo exatamente os mesmos depoimentos ao longo dos anos, centrados, ainda, no Primeiro Passo. Descobrindo serem impotentes diante do álcool, passaram a relatar o que faziam quando estavam alcoolizados. Não fazem o mesmo em relação ao que estão fazendo hoje, sem o álcool. Muitas vezes, apenas parando com o álcool e não progredindo no programa, o alcoólico permanece o mesmo prepotente, dono da verdade, pisando nos familiares e companheiros. Aí ficam as vaidades, os orgulhos e os narcisismos não tratados e tudo isso entra como elementos desencadeadores de comportamentos pouco sadios e geradores de tantos problemas. Não esperamos navegar em mar de calmaria. Entre nós se encontram pessoas em difirentes estágios de recuperação. Alguns ainda estão muito mal. Espera-se, sim, que haja progresso, que se evolua no Programa de Recuperação de A.A., que não precisa ser mudado porque é muito bom mas precisa ser feito por cada membro da Irmandade, por cada um de nós.

Entende-se haver grande alegria quando, ao fazer o Primeiro Passo e parar de beber, o alcoólico fica maravilhado diante de si e do mundo que o cerca. Era tudo o que ele queria e por tanto tempo não conseguira. É um renascimento. Tudo isso é maravilhoso. Mas nascer é um ato singular enquanto que crescer é um processo contínuo. O crescimento sucede ao nascimento. Muitas vezes, esses companheiros não estão dispostos a fazer os outros Passos e aí param de beber, mas não acrescentam nada de novo às suas vidas e, como consequência, não há crescimento e tudo se reduz em repetir e repetir os seus depoimentos. O lema para muitos companheiros é: aqui estou, aqui fico. Mas este lema pode ser para eles os seus epitáfios. Quanto à Recuperação e aos Passos, fazem depoimentos pobres e, se ficarem nesse estágio, o grupo se reduz a uma mesmice que não motiva as pessoas a permanecerem nele. Essas pessoas gostam e se beneficiam desses depoimentos a princípio, mas depois perdem, pela repetição e pela pobreza, o interesse.
Esses depoimentos ligados ao Primeiro Passo são importantes, geram identificação para os recém-chegados. A verdade daquele que o faz contribui para a honestidade de cada membro do grupo e, também este, o grupo, auxilia o depoente na busca da própria honestidade e sanidade. O problema não está nisso, mas em ficar só nisso; está na inexistência de um trabalho de reformulação pessoal. A Irmandade distingue e enfatiza duas condições diferentes: sobriedade e serenidade. É preciso evitar o primeiro gole a cada 24 horas e estar sóbrio para ver a si mesmo e o mundo com olhos claros, limpidos, sem a névoa do álcool, mas é preciso, também, caminhar no Programa de Recuperação e alcançar a serenidade, a paz traduzida em um nova condição de equilíbrio mental, na capacidade de estabelecer prioridades e no aprendizado da conceituação de valores, o que habilita o companheiro a viver sem esquentar fora da justa medida, sem correr o perigo das recaídas. A maioria se recupera com o programa de A..A., mas há outros, portadores de patologias concomitantes com o alcoolismo, necessitados de tratamento especializado e que a Irmandade de A.A. não oferece. Nessas casos, os cuidados dos profissionais da área da saúde deverão ser procurados.
O depoimento ligado ao Primeiro Passo, muitas vezes, ao longo dos anos, vai sendo retocado e, aí, já não vale mais porque não é honesto e porque sendo incompleto, não atinge a finalidade do desabafo catártico. Depoimento indolor não acrescenta, não contribui para a recuparação e, depois de muito repetido, acaba decorado também pelos demais companheiros do grupo. Mas não é esse o único perigo. Se existirem muitos companheiros do grupo nessa situação, pode ocorrer que, movidos pela vaidade, se estabeleça um "campeonato de desgraças" e, com este campeonato, pode até ocorrer que os mais inibidos e os novatos não encontrem oportunidade de falar.

O assunto é tanto delicado quanto complexo e há sempre novos ângulos a abordar. Relatar o que se fez há muitos anos é muito pouco. Daquele que ficou anos sem beber e ainda frequenta os grupos de A.A. espera-se um relato do que fez ultimamente em função do crescimento pessoal dentro do programa de A.A.. Importa apreciar o progresso alcançado ao fazer cada um dos Passos. Esse relato é importante. Pode constituir-se num exemplo vivo de recuperação, com grande possibilidade de ser seguido porque não é preciso ser letrado para ver e entender o que é oferecido como exemplo. O programa precisa ser praticado para que sejamos o exemplo vivo. É preciso estudar o programa para aplicar em nós o que aprendemos, porque, se tudo isso for feito apenas para os outros, valerá, então a máxima de que "quem sabe faz e quem não sabe ensina".
É muito frequente observar que o Primeiro e o Décimo Segundo Passos sejam feitos por todos os membros de A.A. e, deste último, apenas a primeira parte. Mas o programa é de 12 Passos, o tesouro está em todo o conjunto e o crescimento depende de se fazer todos os 12 e não em sobrevoar os 10 do meio.

As recaídas são um fato observado com frequência. Ignoramos, na quase totalidade dos casos, as suas causas e mecanismos mas constatamos faltar alguma coisa a esses doentes. Há companheiros com tendência especial à recaída. São doentes graves. Provavelmente vão morrer do alcoolismo.

Voltar ao mesmo grupo, muitas vezes deficiente nos 12 Passos, nada vai acrescentar. Eles já estiveram lá antes, sem alcançar a sobriedade e a serenidade. As recaídas nos levam a pensar nos nossos grupos, em como está a nossa Matriz. Quais são os companheiros com tendência à recaída e quais as causas? Será que para eles não há alternativa, a não ser beber e beber? Diante de uma recaída, devemos nos satisfazer com as habituais explicações: "não havia chegado ao fundo do posso", "não estava pronto", "não estava motivado", "não fez o que eu aconselhei", "recaiu porque não frequentava o grupo"? Será que o grupo se detém sobre o Programa de Recuparação de A.A.? Será que o grupo está bem estruturado e em condições de receber esse tipo de doente grave? Será que o grupo é realmente harmônico e composto de irmãos que vêem nas diferenças não uma causa de conflito mas um estímulo ao crescimento?

Os recaídos são doentes graves, envolvidos numa rede de equívocos. Eles se acham culpados e desamparados e esses sentimentos reforçam a recaída. Muitas vezes sentem não ter outra saída senão o colapso emocional, a loucura, o suicídio ou simplesmente voltar a beber e, aí, beber pode parecer até a escolha mais sensata. É preciso evitar também, em relação a esses doentes, que os grupos desenvolvem uma atitude preconceituosa, um estigma.
Os grupos devem compreender que a doença do alcoolismo tem um modo de agir sobre o alcoólico na ativa, e acerca disso todos os seus membros têm uma visão clara, mas também atentar para o fato, cada vez mais evidente, de que a doença do alcoolismo tem, também, um modo de atuar durante a sobriedade -ela é uma doença crônica e incurável- e esta ação é potencialmente destrutiva quanto ao seu modo de atuar na fase de sobriedade.
A perda de controle vem antes da recaída. O companheiro entra em dificuldade e depois perde o controle. É necessário uma ajuda imediata quando o companheiro percebe que a cabeça está esquentando. Os padrinhos devem estar atentos para o aparecimento das manifestações usualmente surgidas nos companheiros que recaem e aumentar os cuidados e atenções para evitá-las. Aqui também é necessário pensar no papel do padrinho e avaliar como ele vem sendo desempenhado.

Graças ao trabalho e à dedicação dos pioneiros de A.A. do Brasil e dos mais antigos, foi possível abrir e manter em funcionamento milhares de grupos com todos os benfícios daí resultantes para os alcoólicos, ainda que tenham ficado exatamente como tudo começou: um alcoólico conversando com outro. Dos veteranos, ouvi muitas vezes o relato entusiasmado de como o A.A. do Brasil progrediu com o advento da literatura e a criação do Claab. Esperamos que hoje fenômeno semelhante esteja ocorrendo em função da análise crítica acerca de como está sendo realizado o nosso Programa de Recuperação sugerida no tema adotado pela Conferência de 1991 e que, em função dele, se abra um novo e amplo horizonte para os sofredores dessa doença em nosso País.
Espero que todos se detenham e reflitam sobre este tema; que levem suas dúvidas e conclusões aos Delegados de Área e que eles, representando a consciência coletiva dos grupos, possam contribuir para a grandeza, para uma dimensão maior a ser alcançada na XVI Conferência de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil.



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