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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  " AGORA QUE VOCÊ PAROU "

Agora que você parou de beber, a sua preocupação principal é não começar outra vez. Aqui estão algumas sugestões práticas, baseadas na experiência de outros, que lhe irão facilitar esta tarefa.


1. Coma tudo o que lhe apetecer. Com o estômago cheio, terá menos vontade de beber.

2. Se sentir um desejo irresistível de beber, isso pode ser simplesmente devido à necessidade que o organismo tem de líquidos, a qual pode freqüentemente ser muito intensa. Portanto beba à vontade - desde que não sejam bebidas alcoólicas. Sumos de fruta com glicose, chá ou café com muito açúcar satisfarão melhor a necessidade que o corpo tem de muitos líquidos.

3. O álcool destruiu a sua reserva limitada de vitamina B. Tome muitas vitaminas, especialmente compostos de vitamina B. Podem obter-se sem receita médica, não criando habituação e sendo inofensivas.

4. Pode sentir certa depressão, o que resulta de estar fisicamente em baixo. Mantenha o seu organismo equilibrado.

5. Não fique sentado a olhar para o ar com a sua mente completamente vazia. Faça qualquer coisa, qualquer coisa positiva. (a) Dê um passeio. (b) Tome um banho. (c) Faça a barba. (d) Faça um pouco de jardinagem (e) Engraxe os sapatos (f) Faça um telefonema, etc., etc. Qualquer destas coisas irá quebrar o período de melancolia.

6. O telefone é o meio mais seguro de ligação para obter a ajuda de AA. Use-o em qualquer altura. A pessoa a quem você telefonar pode precisar tanto do seu telefonema como você próprio. Portanto, nunca hesite em fazê-lo.

7. Faça um plano para o seu dia. Não continue a fazer as coisas às calhas, baralhando-se. Pode não conseguir levar tudo a cabo, mas faça o melhor que puder.

8. Vá com calma. Os alcoólicos têm tendência para fazer tudo em excesso e ao mesmo tempo.

9. Primeiro as coisas mais importantes. Selecione as suas prioridades, lembrando-se sempre que a sobriedade tem prioridade sobre todas as outras coisas.

10. Perder a calma é um luxo a que você não se pode dar. Lembre-se que até é possível que a outra pessoa tenha razão, portanto seja tolerante e evite perturbações emocionais.

11. Não existe nenhum problema que uma bebida não agrave, portanto não exagere a importância dos seus e mantenha-se sóbrio.

12. Em alturas difíceis, em que não conseguir ajuda, a Oração da Serenidade dita ao seu próprio Deus, tal como você O concebe, dar-lhe-á a confiança necessária de que você precisa. Ele está sempre disponível.

FONTE: "Alcoólicos Anônimos - Portugal "
" 15 PONTOS "

Quinze pontos para um alcoólico ter em conta
quando confrontado com a vontade de beber.

A pessoa mais infeliz do mundo é o alcoólico crônico que tem uma ânsia persistente de gozar a vida como já em tempos o fez, mas que não consegue concebê-la sem álcool.
Tem com isso uma obsessão confrangedora e julga que, por um milagre de controlo, o conseguirá.
A sobriedade, que deverá ser a sua principal preocupação, é, sem dúvida, a coisa mais importante da sua vida. Você pode pensar que o seu trabalho a sua vida familiar ou qualquer outra coisa pode ser mais importante. Mas pense que, se não estiver sóbrio e não se mantiver sóbrio, tem poucas probabilidades de ter um emprego, uma família, alguma sanidade ou até mesmo a própria vida. Se estiver convencido de que tudo na vida depende da sua sobriedade, terá muito mais probabilidades de ficar e de se manter sóbrio. Se der prioridade a outras coisas, está apenas a reduzir as hipóteses que tem de ficar sóbrio.

1. Cultive a aceitação contínua do fato de que a sua escolha é entre uma maneira de beber infeliz e com bebedeiras e privar-se da mais pequena bebida que seja.

2. Cultive com entusiasmo a gratidão por ter tido a felicidade de descobrir o que estava errado antes que fosse demasiado tarde.

3. Prepare-se para encarar, como sendo natural e inevitável, que durante um certo período de tempo (que pode ser bastante longo) você vai sentir:
a) um desejo irritante e consciente por uma bebida;
b) um impulso súbito e compulsivo para tomar apenas uma bebida;
c) a ânsia, não tanto pela bebida em si, como pelo conforto aliciante e pelo bem-estar que uma bebida ou duas lhe proporcionavam.

4. Lembre-se que as alturas em que não lhe apetece beber deve ser aproveitado para criar a força para não beber quando lhe apetece.

5. Cultive e pratique um plano diário de uma forma de pensar e agir que lhe permita viver esse dia sem tomar uma bebida, sejam quais forem as contrariedades que possam surgir, ou seja, qual for a maneira em que o possa assaltar a sua antiga ânsia de beber.

6. Não se permita pensar, nem sequer por uma fração de segundo: " É uma pena ou uma injustiça cruel que eu não possa beber como as chamadas pessoas normais".

7. Não se permita pensar nem falar de qualquer prazer real ou imaginário que em tempos teve com a bebida.

8. Não se permita pensar que uma bebida ou duas poderiam melhorar uma má situação ou pelo menos que seria mais fácil de suportá-la se bebesse. Substitua isto pelo seguinte pensamento: "Uma bebida só tornará tudo pior? uma bebida significa uma bebedeira".

9. Minimize a situação. Pense, ao ver um cego ou uma pessoa deficiente, como eles ficariam felizes se o seu problema pudesse ser resolvido apenas não tomando uma bebida hoje. Pense com gratidão a sorte que tem em ter um problema tão simples e tão pequeno.

10. Cultive e alimente a satisfação da sobriedade:
a) que bom que é estar livre da vergonha, da humilhação e da autocondenação;
b) que bom que é estar livre das conseqüências ou do começo de uma bebedeira que antes nunca tinha conseguido evitar;
c) que bom que é estar livre do que as pessoas pensavam e falavam de si e da piedade e desprezo misturados que tinham por si;
d) que bom que é estar livre do medo de si próprio.

11. Faça e volte a fazer a lista das compensações da sobriedade, tais como:
a) a simples possibilidade de comer e dormir normalmente, de acordar contente por estar vivo contente por ter estado sóbrio ontem e contente por ter o privilégio de se manter sóbrio hoje;
b) a capacidade de enfrentar o que a vida proporciona, com paz de espírito, respeito próprio e em posse de todas as suas faculdades.

12. Cultive uma associação de idéias que o ajude:
a) associe uma bebida à única causa de toda a infelicidade, vergonha e humilhação que já conheceu;
b) associe uma bebida à única coisa que pode destruir a sua nova felicidade reencontrada e que pode tirar-lhe o respeito por si próprio e a sua paz de espírito.

13. Cultive a gratidão:
a) a gratidão de poder ter tanta coisa por um preço tão baixo;
b) a gratidão de ser apenas uma bebida o preço da felicidade que a sobriedade lhe proporcionou;
c) a gratidão pela existência de AA e por você o ter encontrado a tempo;
d) a gratidão por você ser apenas a vítima de uma doença chamada alcoolismo e de não ser um degenerado, um fraco e imoral, nem ser a vítima por suas próprias mãos de um vício, nem uma pessoa de sanidade duvidosa;
e) a gratidão por tal como aconteceu a outros, você vir a seu tempo a não sentir a falta ou a ânsia de uma bebida que decidiu não tomar.

14. Procure maneiras de ajudar outros alcoólicos? e lembre-se que a melhor maneira de ajudar os outros é mantendo-se sóbrio.

15. E não se esqueça de que, quando o coração lhe pesa, quando a resistência está em baixo e a mente agitada e confusa, você pode encontrar muito conforto num amigo verdadeiro e compreensivo. Você tem esse amigo em AA (Alcoólicos Anônimos).

• Fonte: "Alcoólicos Anônimos – Portugal"


" I CONCEITO "

Dr. Lais Marques da Silva
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

Os substantivos definem as idéias. Dizemos que uma questão é substantiva quando ela contém o significado, a substância. Na designação "Doze Conceitos para Serviços Mundiais", temos dois substantivos que devemos analisar detidamente a fim de que possamos compreender a totalidade dos seus conteúdos.
O primeiro é a palavra conceito. Recorrendo ao "Aurélio", vemos que: 1. Em Filosofia, significa a representação de um objeto pelo pensamento, por uma das suas características gerais - abstração, idéia; 2. Ação de formular uma idéia por meio de palavras - definição, caracterização e, 3. Pensamento, idéia, opinião. Estas primeiras acepções nos transmitem o significado da palavra conceito porque respondem às indagações: qual a idéia e qual a sua definição?
O segundo substantivo é a palavra serviço. Com ela já estamos bem familiarizados, pois vivemos numa Irmandade animada pelo espírito de serviço, entendido como o ato de colocar a sobriedade ao alcance de todos os que a desejem. Os serviços definem o AA como o conhecemos e põem os seus membros em contato, em comunicação, com os que precisam de ajuda, os que querem parar de beber.
O serviço em AA compreende tudo o que se venha a realizar para alcançar o alcoólico que ainda sofre e se compõe de uma grande variedade de atividades que vão desde o preparo de uma xícara de café até a manutenção do Escritório de Serviços Gerais. No entanto, o serviço básico, e também a razão primordial da existência de AA, é o de levar a mensagem ao alcoólico que ainda sofre. O serviço dá à Irmandade a marca da ação. Alcoólicos Anônimos é uma sociedade de alcoólicos em recuperação e em ação.
Do mesmo modo que o objetivo de cada membro é a sua própria sobriedade, o dos serviços é colocar esta mesma sobriedade ao alcance de todos os que a desejem; "Cada grupo é animado de um único propósito - o de transmitir a mensagem ao alcoólico que ainda sofre".
O ideal de ajuda se constitui numa importante força de coesão para o grupo porque anima os seus membros em torno de um objetivo comum e, por isso, se torna um sólido alicerce para a Irmandade. Indispensável à Unidade, é a própria essência do Terceiro Legado.
A tarefa de estender a mão àquele que ainda sofre oferece a cada membro um trabalho suficientemente grande para polarizar a imaginação e os esforços dos seus membros e para fazer nascer um profundo sentimento de lealdade em relação ao grupo. "Razões tinham que ser encontradas para manter as pessoas autoritárias e causadoras de atrito em seus devidos lugares. Um adequando comitê de serviços, com considerável pressão, aliado a muito amor e confiança, provou ser a resposta". O serviço traz recompensas imateriais para os que o realizam e é um dos pilares sobre os quais se assenta a recuperação individual.
Voltando ao tema, vemos que os serviços são mundiais e aí muita gente entende que não é da sua alçada em razão do adjetivo mundial, considerado o âmbito restrito da sua atuação individual. Mas os serviços têm uma outra dimensão, a espacial, uma vez que compreendem as ações que se desenvolvem nos grupos, as que são realizadas a nível nacional, as que ultrapassam as fronteiras de um país e as que são executadas a nível internacional. Como a Irmandade está em cerca de 147 países do mundo, os serviços se tornaram realmente mundiais. Assim, o alcance da Irmandade é global e a sua mensagem é dirigida à espécie humana, a todos os que têm problemas com a bebida.
Os Doze Conceitos, ligados ao Terceiro Legado, interessam em especial aos "servidores de confiança", isto é, aos companheiros que se dedicam ao serviço.
Com poucos anos de existência, a Irmandade contava com milhares de grupos, com uma Junta de Serviços Gerias, com uma Conferência e uma Revista. Era necessário, então, estabelecer as relações entre estas essas estruturas. Desta forma, quando o próprio Bill W. idealizou os 12 Conceitos, estabeleceu as relações que visavam, a meu ver, montar um sistema, como se espera que exista numa sociedade como aquela em que vivemos, preocupada com os controles, a retroalimentação e com a reformulação do planejamento. Os Doze Conceitos de AA dão a coesão necessária aos serviços e previnem a existência de superposições e, como tal, evitam dissensões.
Outro ponto que é necessário esclarecer é o conceito de Serviços Gerais. São serviços que os grupos não podem fazer por si mesmos, como: uniformizar, editar e distribuir uma literatura composta de numerosos títulos; fazer um trabalho de informação ao público padronizado a nível nacional; passar a experiência adquirida pelos grupos da nossa Irmandade como um todo aos novos grupos; atender, numa escala maior, aos pedidos de ajuda; publicar a Revista Nacional, etc.
Há frases que demonstram um grande poder de síntese e que dão uma idéia muito clara das coisas: "Os Passos são para o alcoólico viver e as Tradições são para a Irmandade viver". Uma outra diz que "Os Passos ensinam a viver e as Tradições ensinam a conviver". São frases que, sendo curtas, exibem um grande poder de síntese e encerram uma grande significação. No entanto, em relação aos Conceitos, fica um pouco difícil condensar, fazer uma ponte que os una como um todo. Resta o esforço de tentar costurá-los de modo a transmitir uma idéia condensada, uma visão global do seu conteúdo e é o que passamos a fazer agora.
Conceito I: Nele fica estabelecido que "A responsabilidade final e a autoridade suprema para os serviços mundiais recaem sobre os grupos de AA." "Esta responsabilidade e a conseqüente autoridade foram transferidos para os grupos no decurso da Convenção Internacional de Saint Louis, em 1955". Esta é a idéia do Conceito I.

O SEGREDO DE A.A.

Numa noite qualquer, ouvi um companheiro dizer que “o segredo de A.A. está na próxima reunião”. Uma afirmativa um tanto engraçada, que descontraiu mais um pouco o ambiente, fazendo-me pensar: por quê? Nas reuniões seguintes procurei esse segredo, mas, como encontrá-lo se sempre haverá a “próxima reunião”? No máximo, o que se pode é meditar sobre certos mistérios que ocorrem a cada reunião, a cada depoimento, a cada gesto, a cada momento. Até nas falhas que ocorrem para tornar a reunião mais interessante. Falhas nossas, é claro pois a Irmandade é perfeita.
Que mistério é esse que faz companheiros tão simples e aparentemente incultos mostrarem na cabeceira de mesa exemplos que nenhum intelectual, nenhum doutor, ninguém que seja um alcoólico em recuperação devia formular?
Que mistério é esse que nasce das paredes, sugerindo para que se “evite o primeiro gole”, para que a “freqüência às reuniões” se torne fundamental para o alcance da sobriedade e para que se diga que “quando qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, a mão de A.A. estará sempre ali, pois somos responsáveis”?
Que mistério é esse que transforma tantos leigos anônimos em sábios, auxiliando para que tantos visitantes se convençam de que são impotentes perante o álcool, mas que podem ser felizes na caminhada sugerida pelos Doze Passos?
Que mistério é esse que faz doutores e analfabetos, ricos e pobres, homens e mulheres, jovens e idosos se igualarem completamente dentro de uma sala de A.A.?
Dizia um certo cavalheiro: “Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”. Nem os mais incrédulos negam a existência de mistérios em A.A. Ali, tudo sempre dá certo. A partir de A.A., os alcoólicos acertam-se na vida, creiam ou não, pois, para muitos, tudo pode ser mesmo bastante inacreditável. Inacreditável para aqueles que jamais pensaram se possível conter a compulsão voraz pela bebida. Inacreditável para a família e os amigos dos alcoólicos, pois conheceram suas vidas de bebedores-problemas e os vêem completamente modificados e transformados em pessoas felizes e prósperas.
Existe mesmo um segredo, mas parece que ele é tão abstrato que ninguém consegue desvendá-lo completamente. Faz parte de um universo muito grande e está distribuído pelas dezenas de milhares de Grupos existentes no mundo inteiro. Entretanto, a cada dia, podemos chegar mais perto dele. Depende apenas da nossa participação nas reuniões, eis que nelas vamos descobrindo nós mesmos refletidos nos companheiros e sendo refletido por eles.

Nunca descobriremos tudo, mas não faz mal. Aprendemos a ter calma e vencer qualquer compulsão. Mais vale o nosso bem-estar. Bem-estar esse que nasce exatamente daqueles mistérios da reunião e do segredo de A.A.

(Walter M. Grupo Natal / RN)

VIVÊNCIA N.° 52 MAR./ABR. 98
A PROMESSA DE DEUS

Robert Holbrook, ou dr. Bob, como era chamado, foi um dos fundadores de Alcoólicos Anônimos e, claro, era um alcoólico. Médico e cirurgião de um certo renome na cidade de Akron-Ohio, sua vida entrou em franco declínio, tanto material como moralmente. Apesar disso, mesmo nessa época, lia a bíblia todas as noites. Crescera num lar cristão, seu pai foi professor de escola dominical na igreja batista por mais de vinte anos, Bob tinha fortes raízes.

Às vezes ele se queixava a uma amiga da família, Henrietta Seiberling, que mais tarde ofereceu sua própria casa para o primeiro grupo que se formou: - Henrietta, ele dizia, eu quero tanto me libertar do álcool, peço a Deus, mas não consigo.

Ela respondeu: - Calma, Bob, você apenas ainda não sabe como.

Algum tempo depois, corria o ano de 1935, Bill Wilson, que viria a ser o outro fundador de A.A., estava hospedado num hotel em Akron, para resolver um negócio que talvez fosse a sua última oportunidade de trabalho. Há apenas alguns meses sem beber, naquela noite estava só e desesperado para tomar uns drinques. Ia se dirigindo para o happy-hour do bar do hotel, que estava animado, quando passou pela cabine telofônica e viu, colada no vidro, uma lista de telefones das igrejas da cidade. Entrou e, debaixo de um grande conflito emocional, começou a ligar para as igrejas perguntando se conheciam alguém com problemas de bebida para ele poder conversar. Quando insistiam em saber detalhes de pergunta tão esquisita, dizia que ele próprio tinha problemas com o álcool. Depois de várias ligações, alguém se interessou: - tenho alguém que talvez possa ajudá-lo, e lhe apresentou Henrietta. Esta telefonou para o dr. Bob, que, muito constrangido e contrafeito, concordou em rec
eber o visitante por, no máximo, quinze minutos.

Quando ficaram a sós na sala de Bob, este perguntou a Bill Wilson, o visitante: - sou médico, estudei muitos anos, sei tudo o que a ciência pode fazer por mim, já consultei grandes mestres no assunto. Quem é você e porque acha que pode ajudar-me?

- Não vim ajudá-lo – respondeu Bill – eu vim pedir ajuda.

Assisti já várias vezes o filme O Valor da Vida (The Bill W.Story). Toda vez que chega nessa parte, eu choro. A partir dessa frase, Bill contou ao médico a sua própria história, os seus mais bem guardados segredos. O dr. Bob, que havia se armado mentalmente até os dentes para acabar com os argumentos daquele intrometido, foi pego no contrapé e totalmente desarmado. Ouvindo a história de Bill, sentiu irresistível vontade de também contar suas histórias e começou a falar também. Os quinze minutos se prolongaram por muitas horas, nem viram o tempo passar.

Aquela única frase foi a grande descoberta que permitiu às pessoas finalmente falarem a linguagem do coração, a linguagem de Deus. Trata-se de partilha, a verdadeira partilha, o verdadeiro compartilhar, é o tirar as máscaras. Aquela fagulha transformou-se num fogo mágico, hoje representado por mais de cem mil grupos anônimos em praticamente todos os países do mundo e por muitos grupos também, já em alguns países, do programa Celebrando a Recuperação, com os Doze Passos finalmente chegando nas igrejas.

Nós, os maltrapilhos, não temos vergonha de falar na linguagem de Deus, de confessar nossos segredos, de tirar as máscaras. Fazer isso, na palavra de Deus, representa a cura. É uma promessa.

Como, naquele começo com um grupo em Akron e outro em Nova Iorque, não existiam ainda os Doze Passos, nas reuniões foi largamente utilizada como base para recuperação, a carta ou epístola de Tiago, que faz parte da bíblia.

Essa carta, que eu já li muitas vezes e é minha favorita, tem passagens que falam tão forte ao nosso coração, que merece um texto à parte neste blog, que prometo escrever logo.

Hoje, porém, o versículo da carta que é uma promessa de Deus e representa a cura, é este: “Confessem seus pecados (erros, segredos) uns aos outros, orem uns pelos outros e você será curado (recuperado)”. É uma ordem (confessem uns aos outros) e é uma promessa de Deus (será curado).

As pessoas “normais”, entretanto, não fazem isso, pelo contrário, morrem de medo de se expor. Mesmo dentro das igrejas. Mesmo desafiando a vontade de Deus, preferem se esconder atrás de suas máscaras, ficar entre as grades de suas pequenas prisões. Olha a frase instigante:

“O tamanho de sua dificuldade em confessar seu segredo a outro ser humano é exatamente o tamanho de seu compromisso com a sua máscara”.

Brennan Manning, nosso companheiro, hoje escritor e pregador famoso, cita em seu livro Evangelho Maltrapilho a seguinte frase, de outro escritor, Dietrich Bonhoeffer: “Aquele que está sozinho com seus pecados (erros, segredos) está absolutamente sozinho. Pode acontecer que os cristãos, apesar da adoração corporativa, da oração comunitária e de toda sua comunhão no serviço, sejam ainda assim relegados à sua solidão. A reviravolta final na comunhão acaba não acontecendo porque, embora experimentem comunhão uns com os outros como cristãos e devotos, não experimentam a comunhão como não-devotos, como pecadores. A comunhão devota não permite que ninguém seja pecador. Todos devem, portanto, esconder seus pecados de si mesmos e de sua comunidade. Não ousamos ser pecadores. Permanecemos assim sozinhos com nosso pecado, vivendo em mentiras e hipocrisias. O fato é que somos pecadores.

Prossegue B.Manning: “o futuro espiritual dos maltrapilhos consiste não em negar que somos pecadores, mas em aceitar esta verdade com clareza crescente, regozijando-nos no incrível anseio de Deus de nos resgatar a despeito de tudo”.



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