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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  AUTO-ESTIMA

Dr. Lais Marques da Silva, ex-presidente da Junaab.(Junta Nacional de Alcoólicos Anônimos do Brasil)

Auto-estima. Valorização de si mesmo, amor próprio.

Entre os alcoólicos, é comum observar que, anteriormente ao desenvolvimento da dependência química, eram egocêntricos, apresentavam baixa capacidade de suportar tensões nervosas e que tinham baixa auto-estima, embora esses traços não concorram para elevar o risco de se tornarem alcoólicos.

Para sair de um padrão emocional baixo, os alcoólicos dependem de novas e poderosas fontes de auto-estima e de esperança, sendo observado que uma abstinência estável esteja ligada a uma mudança profunda de personalidade que ocorre, não por coincidência, com a evolução que se verifica no decurso do crescimento espiritual.

Em A.A. não se estuda o problema do alcoolismo nem se faz diagnóstico. Diagnosticar como alcoólico corresponderia a rotular de um modo que pode causar dano tanto à auto-estima quanto à aceitação social.
A auto-estima recebe um reforço considerável quando o alcoólico entra em serviço, uma vez que não só percebe que pode fazer alguma coisa pelos outros, mas também porque o serviço tende a reduzir a preocupação mórbida que o alcoólico tem consigo mesmo, além de fortalecer a ligação entre o membro de A.A. e o grupo.

A elevação da auto-estima é de enorme importância, pois leva os alcoólicos a mudanças de atitude e a melhores resultados do que os que se conseguem simplesmente fazendo ameaças ou apelando para a racionalidade ao se procurar fazer aconselhamento. É uma mudança de atitude. A recuperação está intimamente associada ao ganho de auto-estima.

Um outro fato importante ligado ao aumento da auto-estima é que, na medida em que ela aumenta, o alcoólico readquire a capacidade de ouvir as mensagens que são passadas nos grupos. Ele se torna permeável, aceita a comunidade formada pelo grupo.

Auto-estima é alguma coisa que não se pode pegar, mas ela influi na nossa maneira de sentir e de ser. Não se pode vê-la, mas está lá quando nos vemos no espelho. Não podemos ouvi-la, mas esta lá quando falamos com nós mesmos.

Estima é a palavra que usamos para coisa ou pessoa que avaliamos como sendo de valor. Se se acha que uma pessoa tem valor, isso significa que ela está em elevada estima. Temos estima por um troféu porque ele traduz o valor da conquista. Auto significa de si mesmo e, aí está então a auto-estima significando que nos achamos importantes. É como nos vemos e como sentimos acerca das nossas realizações. É a maneira silenciosa de se achar de valor, de ser amado e aceito pelas pessoas.

A auto-estima ajuda a manter a cabeça elevada, a ter orgulho de si mesmo e do que podemos fazer. Dá coragem para tentar novas coisas e poder para acreditar em si mesmo. Dá respeito a si mesmo quando se comete um engano. Quando nos respeitamos, as outras pessoas também o fazem. É também necessária para fazer opções certas acerca de nós mesmos.

Naturalmente, todos nós temos altos e baixos, mas ter baixa auto-estima não é bom. Sentir-se sem importância causa tristeza e isso pode inibir as nossas ações, dificultar fazer novas amizades. Ter elevada auto-estima é importante para crescer.

É preciso fazer uma lista das coisas em que somos bons, quaisquer que sejam elas. É preciso que nos cumprimentemos a cada dia por todas as coisas que fazemos bem e de bom e ainda lembrar delas antes de dormir.

É preciso gostar do nosso corpo porque ele é nosso, afinal. Se há algo que pode ser corrigido, é corrigir. Mas é necessário aceitar o que não se pode modificar. Se pensamentos negativos invadem a nossa mente, que se dê um basta neles.

É preciso manter o foco nas boas coisas e nas boas qualidades que temos e, sobretudo, aprender a nos aceitar. É preciso fazer brilhar a nossa auto-estima.

PENSAMENTOS QUE AJUDAM

“Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato. E, então, pude relaxar. Hoje sei que isso tem nome ... Auto-estima”.

“Quando me amei de verdade, comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável: pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início, a minha razão chamou essa atitude de egoísmo. Hoje sei que se chama ... Amor-próprio”.

“Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece. Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é ...Plenitude”.

“Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei menos vezes. Hoje descobri a ... Humildade”.

“Quando me amei de verdade, deixei de temer meu tempo livre, desisti de fazer grandes planos e abandonei os projetos megalômanos de futuro. Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo. Hoje sei que isso é ... Simplicidade”.

“Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou que a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo. Hoje sei que o nome disso é ... Respeito”.

“Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento. Hoje chamo isso de ... Amadurecimento”.

“Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra as minhas verdades. Hoje seu que isso é ... Autenticidade”.

“Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando eu a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada. Tudo isso é ... Saber Viver”.










Alcoólicos Anônimos, começo e crescimento...(Bill W.)

Há 14 anos, realizei uma conferência diante da Sociedade Médica do Estado de New York, por ocasião de sua reunião anual, Para nós, de Alcoólicos Anônimos, esse foi um acontecimento histórico. Representou a primeira oportunidade em que uma das grandes Associações Médicas dos Estados Unidos obteve informações corretas sobre a nossa Irmandade. Os médicos, naquele dia, fizeram mais do que tomar conhecimento a nosso respeito. Eles nos receberam com os braços abertos e autorizaram a publicação de nossa palestra sobre A.A. na sua revista especializada, chamada Journal. Milhares de exemplares dessa conferência de 1944, desde então, têm sido distribuídos ao redor do mundo, convencendo os médicos de todas as partes sobre o valor de A.A. Somente Deus sabe o que essa percepção e atitude generosa têm representado para incontáveis alcoólicos e suas famílias.

A profunda compreensão daqueles membros da Sociedade Médica Sobre Alcoolismo da cidade de New York, movidos pelo espírito de generosidade, convidaram-me a vir aqui esta noite e com o sentimento de eterna gratidão é que trago os cumprimentos de 250 mil alcoólicos recuperados, que compõem agora a nossa Irmandade, em cerca de 7 mil Grupos, aqui e no exterior.*

Talvez a melhor maneira para compreender os métodos e resultados de A.A. seja dar uma olhada nos seus primórdios, no tempo em que a medicina e a religião assumiram uma benéfica parceria conosco. Essa parceria constitui agora o alicerce do sucesso que temos tido desde então.

Seguramente, ninguém inventou Alcoólicos Anônimos. A.A. é uma síntese de atitudes e princípios oriundos da medicina e da religião. Nós, alcoólicos, simplesmente alinhamos essas forças, adaptando-as aos nossos propósitos como Irmandade, de forma que funcione com eficácia. A nossa contribuição foi restabelecer o elo perdido na cadeia da recuperação, a qual agora é tão significativa e promissora para o futuro.

Poucas pessoas sabem que as primeiras raízes de A.A. encontraram solo fértil há 30 anos num consultório médico. Dr. Carl Jung, esse grande pioneiro da psiquiatria, estava falando com um paciente alcoólico. E, de fato, aconteceu o seguinte:

O paciente, um preeminente homem de negócios americano, havia percorrido o caminho típico do alcoólico. Havia esgotado as possibilidades da medicina e da psiquiatria nos Estados Unidos e veio procurar o Dr. Jung como último recurso. Carl Jung havia tratado dele durante um ano e o paciente, a quem chamaremos de Sr. R., sentia-se confiante de que haviam sido descobertas e removidas as causas profundas da sua compulsão para beber. Todavia, em pouco tempo, após receber alta do Dr. Jung, voltou a embriagar-se.

Em estado de desespero, voltou ao consultório de Dr. Jung e perguntou qual era a sua real situação, obtendo a resposta. Em essência, o Dr. Jung lhe disse: "Durante algum tempo, após a sua chegada aqui, acreditei que você seria um daqueles raros casos no qual poderia ocorrer uma completa recuperação. Mas devo dizer-lhe francamente que nunca vi um único caso de recuperação através da psiquiatria em que a neurose fosse tão severa como é em você. A medicina fez tudo o que podia fazer. Essa é a situação."

Uma profunda depressão tomou conta do Sr. R., e ele perguntou: "Não há exceção? Isso é realmente o fim da linha para mim?"

"Bem", respondeu o Dr. Jung, "há algumas exceções, muito poucas. Aqui e ali, de vez em quando, os alcoólicos têm tido o que chamam de experiências espirituais vitais, que parecem ser uma espécie de grande rompimento ou alteração, seguida de uma reorganização emocional. Idéias, emoções e atitudes, as quais constituíam as forças motrizes desses homens, são posta de lado e um novo elenco de conceitos e propósitos começa a dominá-los. Tentei produzir algumas dessa alterações emocionais dentro de você. Com alguns tipos de neuróticos, o método que emprego dá bons resultados, mas nunca obtive êxito num alcoólico com o seu perfil."

"Mas", protestou o paciente, "eu sou um homem religioso e ainda tenho fé". O Dr. Jung respondeu: " A fé religiosa comum não é suficiente. Estou me referindo a uma experiência transformadora, uma conversão espiritual, se preferir assim. Somente posso recomendar-lhe que se coloque num ambiente religioso de sua escolha; que reconheça sua impotência pessoal e que se entregue ao Deus que você pensa existir. O raio de um despertar espiritual poderá atingi-lo. Terá que tentar isso, é a sua única saída". Assim falou um grande e humilde médico.

Para o futuro de A.A., essas palavras foram decisivas. A ciência havia diagnosticado que o Sr. R. estava virtualmente desenganado. As palavras do Dr. Jung haviam-no atingido fundo, produzindo uma grande deflação do ego. Essa deflação profunda é atualmente a pedra angular dos princípios de A.A. Ali, no consultório do Dr. Jung, esse princípio foi aplicado pela primeira vez em nosso benefício.

O paciente, Sr. R., escolheu o Grupo Oxford da época como sua instituição religiosa. Terrivelmente castigado e quase sem esperança, entrou em grande atividade no grupo. Para sua alegria e assombro, prontamente cessou sua obsessão por bebidas.

Retornando à América, o Sr. R. encontrou um velho amigo de escola, um alcoólico crônico. Esse amigo - a quem chamaremos de Ebby - estava prestes a ser internado num hospital psiquiátrico estadual. Nessa conjuntura, um outro elemento vital foi adicionado à síntese de A.A. O Sr. R., alcoólico, conversou com Ebby, também um alcoólico e companheiro de sofrimento. Essa identificação profunda veio a ser o segundo princípio fundamental de A.A. Através dessa ponte de identificação, o Sr. R. transmitiu o veredicto do Dr. Jung de como a maioria dos alcoólicos era desenganada, do ponto de vista médico e psiquiátrico. Ele então apresentou Ebby ao Grupo Oxford, onde meu amigo rapidamente ficou sóbrio.

Meu amigo Ebby conhecia bem minha situação. Eu havia percorrido o itinerário familiar. No verão de 1934, meu médico, William D. Silkworth, deu-se por vencido e desenganou-me. Ele foi obrigado a me dizer que eu era vítima de uma compulsão neurótica para beber; que nenhum tratamento, educação ou força de vontade poderia detê-la. Acrescentou ainda que eu era vítima de uma desordem física que poderia ser de natureza alérgica; uma disfunção física que provocaria dano cerebral, a insanidade ou a morte. Aqui estava novamente o deus da ciência - que era então meu único Deus - esvaziando-me o ego. Eu estava pronto para receber a mensagem que em breve viria por intermédio do meu amigo alcoólico, Ebby.

Ele veio à minha casa num dia de novembro de 1934 e sentou-se à mesa da cozinha enquanto eu bebia. "Não, obrigado", não queria nenhuma bebida, disse-me. Muito surpreso, perguntei-lhe o que havia acontecido. Olhando-me de frente, disse: "Tenho religião". Isso foi demais: uma afronta à minha formação científica. Tão polidamente quanto possível, perguntei-lhe que tipo de religião ele tinha.

Então me contou de suas conversas com o Sr.R. e como o alcoolismo realmente era desesperador, segundo o Dr. Carl Jung. Acrescentando-se ao veredicto do Dr. Silkworth, esta era a pior notícia possível. Fui duramente atingido. Em seguida, Ebby enumerou os princípios aprendidos no Grupo Oxford. Embora aquela boa gente às vezes lhe parecesse agressiva demais, não poderia encontrar nenhuma fala na maioria dos seus ensinamentos básicos. Afinal. esses ensinamentos tornaram-no sóbrio.

Em essência, aqui estão, tal como o meu amigo os aplicava em 1934:

1. Ebby admitiu que era impotente para dirigir sua própria vida.

2. Tornou-se honesto consigo mesmo, como nunca fora antes; fez um "exame de consciência".

3. Fez uma rigorosa confissão de seus defeitos pessoais e, assim, deixou de viver sozinho com seus problemas.

4. Inventariou suas relações distorcidas com outras pessoas, visitando-as para fazer as reparações possíveis.

5. Resolveu dedicar-se a ajudar outras pessoas necessitadas, sem a usual necessidade de prestígio ou ganho material.

6. Através da meditação, procurou a orientação para a sua vida e ajuda para praticar esses princípios de comportamento por toda a vida.

Para mim, tudo isso soava ingênuo. Contudo, meu amigo continuou o singelo relato do que havia acontecido. Contou-me que, praticando esses ensinamentos, tinha parado de beber. Medo e solidão desapareceram e havia adquirido uma considerável paz de espírito. Sem rigorosas disciplinas ou grandes resoluções, essas mudanças começaram a surgir a partir do momento em que se pôs de acordo com esses princípios. Sua libertação do álcool parecia ser um produto secundário. Embora sóbrio há poucos meses, sentia-se seguro, pois agora tinha uma resposta básica. Evitando prudentemente os debates, despediu-se e partiu. A centelha que se converteria em Alcoólicos Anônimos tinha sido acesa. Um alcoólico havia estado falando com outro, estabelecendo uma profunda identificação comigo e colocando os princípios da recuperação ao meu alcance.

A princípio, a história do meu amigo produziu uma confusão de emoções desencontradas. Eu estava indeciso e revoltado ao mesmo tempo. Minha forma solitária de beber continuou por mais algumas semanas, mas não pude esquecer sua visita. Vários assuntos ocorreram em minha mente: primeiro, que era estranho e imensamente convincente o seu estado de evidente libertação; segundo, que ele havia sido desenganado por médicos competentes; terceiro, que esses velhos preceitos, quando transmitidos por ele, tocaram-me com grande força; quarto, que eu não poderia, nem queria, seguir adiante com nenhum conceito de Deus e que não faria nenhum sentido para mim, nenhuma conversão. Resumindo, tentando brincar com meus pensamentos, descobri que já não podia fazê-lo. Pelos laços da compreensão, sofrimento e singela verdade, um outro alcoólico me havia enlaçado a ele. Não podia me desligar.

Uma manhã, após beber, tive uma inesperada revelação. E perguntei: "Quem é você para escolher a forma como recuperar-se? Mendigos não têm o direito de escolher. Suponha que a medicina diga que você tem um carcinoma. Você não iria tratá-lo com cosméticos. Tomado de medo, rapidamente suplicaria ao médico para dizimar aquelas diabólicas células cancerosas. E se ele não pudesse detê-las e você acreditasse que uma conversão religiosa poderia fazê-lo, o seu orgulho seria posto de lado. Se preciso fosse, por-se-ia de pé em praça pública e chorando diria Amém junto a outras vítimas. Então, qual a diferença entre você e uma vítima de câncer? Seu corpo está se desintegrando. Do mesmo modo, desintegra-se a sua personalidade e a sua obsessão leva-o à loucura ou a funerária. Vai experimentar a fórmula do seu amigo ou não?"

Naturalmente, experimentei. Em dezembro de 1934, compareci ao Hospital Towns, de New York. Ao meu ver, meu velho amigo, Dr. William Silkworth, balançou a cabeça, incrédulo. Tão logo me liberei dos sedativos e do álcool, senti-me terrivelmente deprimido. Ebby veio me visitar. Embora me agradasse vê-lo, retraí-me um pouco. Temia a evangelização, mas isso não aconteceu. Após conversar um pouco, pedi-lhe que falasse novamente com clareza da sua fórmula de recuperação. Mansa e calmamente, sem exercer nenhuma pressão, explicou-me E então partiu.

Deitado e em grande conflito , mergulhei na mais negra depressão que havia sofrido. Por um momento, meu obstinado orgulho foi esmagado. E exclamei: "Agora estou pronto para fazer o mesmo que o meu amigo Ebby". Embora não esperasse nada, fiz esse frenético apelo: "Se existe Deus, que se mostre por inteiro". O resultado foi instantâneo, elétrico, indescritível. O quarto iluminou-se de uma brancura intensa. Entrei em êxtase e vi-me numa montanha. Um vento intenso soprava, envolvendo-me e penetrando-me. Para mim, o vento não era feito de ar, mas de espírito. Veio-me fulgurante à mente um pensamento fantástico: "Você é um homem livre". E então o estado de êxtase cessou. Ainda deitado na cama, descobri dentro de mim um novo mundo de consciência, inundado da "presença". Unido com o universo, uma grande paz caiu sobre mim. "Então esse é o Deus dos pregadores, essa é a grande realidade." Mas, rapidamente, recobrei a razão e minha educação
formal assumiu o comando. Eu deveria estar louco. Fiquei terrivelmente assustado.

Dr. Silkworth, um santo médico como nunca houvera igual, veio para ouvir-me contar hesitante esse fenômeno. Após interrogar-me cuidadosamente, assegurou-me de que não estava louco e que talvez eu tivesse tido uma experiência psíquica que poderia resolver o meu problema.Como um homem da ciência cético que era até então, essa foi uma resposta compreensiva e sagaz. Se tivesse dito "alucinação", eu poderia agora estar morto. A ele dedico minha eterna gratidão.

A boa sorte me perseguia. Ebby me trouxe um livro intitulado Variedades da Experiência Religiosa e eu o devorei. Escrito por William James, psicólogo, sugere que a experiência da conversão pode ter uma realidade objetiva. A conversão modifica a motivação e, de forma quase automática, possibilita uma pessoa ser e fazer o que era antes impossível. Interessante foi o fato de que as experiências de conversão ocorreram na maioria das vezes com pessoas que sofreram derrota total em determinada etapa da vida. O livro mostrava certamente essas variedades. Mas, se essas experiências eram brilhantes ou embaçadas, súbitas ou graduais, de caráter teológico ou intelectual, tais conversões tinham um denominador comum, operavam mudanças em pessoas completamente derrotadas. Assim afirmava William James, o pai da moderna psicologia. Após compreender esses fatos eu venho tentando aplicá-los.

Para os bêbados, a resposta óbvia era a deflação profunda, e quanto maior melhor. Isso me parecia claro como a água. Eu tive a formação de engenheiro e a visão autorizada e a visão autorizada do psicólogo significou tudo para mim. Esse renomado cientista da mente veio confirmar tudo que o Dr. Jung havia dito e ele havia documentado exaustivamente tudo o que havia afirmado. Desse modo, William James confirmou os fundamentos pelos quais eu e muitos outros temos nos mantido sóbrios todos esses anos. Eu não tenho tomado nenhuma bebida alcoólica desde 1934.

Armado com absoluta certeza e animado pelo meu inato desejo de poder, lancei-me à tarefa de curar alcoólicos por atacado. Era duplamente impulsionado e as dificuldades nada significavam. Não me apercebia da enorme presunção do meu projeto. Recrutei à força durante seis meses e a minha casa se encheu de alcoólicos. Discursos bombásticos não produziram o menor resultado. (Para meu desapontamento, Ebby, meu amigo da conversa à mesa da cozinha e que estava mais doente do que eu supunha, demonstrou pouco interesse nesse alcoólicos. Esse fato pode ter sido a causa de suas recaídas, embora tenha eventualmente se recuperado.) Mas tinha descoberto que trabalhar com outros alcoólicos era de enorme importância sobre a minha própria sobriedade. Contudo, nenhum dos meus candidatos estava conseguindo ficar sóbrio. Por quê?

Pouco a pouco, os erros da minha abordagem tornaram-se claros. Algo semelhante a um fanático religioso, obcecado com a idéia de que todos teriam que ter uma "experiência espiritual" como a minha. Eu esqueci que James havia dito existir uma grande variedade de experiências transformadoras. Meus companheiros alcoólicos olhavam-me incrédulos ou zombavam sobre o meu "clarão". Sem dúvida, isso arruinava a forte identificação que era tão necessária estabelecer com eles. Tornei-me um evangelista. Obviamente teria que mudar a minha abordagem. O que havia acontecido comigo em seis minutos seriam necessários seis meses com os outros. Tive que aprender que as palavras eram apenas palavras e doravante teria que ser prudente.

Nessa conjuntura - a primavera de 1935 -, o Dr. Silkworth advertiu-me que eu havia esquecido tudo a respeito da deflação profunda do ego. Havia me transformado num pregador. E me disse: "Por que você não coloca a dura realidade da medicina a essas pessoas antes de mais nada? Esqueceu o que disse William James sobre a profunda deflação do ego? Dá-lhes os fatos médicos, com toda clareza. Não lhes conte do "clarão". Enumere extensivamente os seus sintomas, a fim de estabelecer uma profunda identificação. Se você agir dessa forma, os seus candidatos poderão vir a adotar os singelos princípios morais que você vem tentando ensinar a eles". Aqui estava a contribuição vital para a síntese. E uma vez mais foi feita por um médico.

Incontinente, substituiu-se a ênfase atribuída ao pecado pela enfermidade, a doença fatal, o alcoolismo. Nós citávamos a opinião de vários médicos que asseguravam de que o alcoolismo era mais letal que o câncer e que consistia numa obsessão mental acompanhada de crescente sensibilidade física. Esses eram os nossos fantasmas gêmeos. Loucura e morte. Apoiávamo-nos muito na declaração do Dr. Jung de quão desesperadora poderia ser essa situação e logo aplicávamos uma dose devastadora de conhecimento a todo alcoólico ao nosso alcance. Para o homem moderno, a ciência é onipotente, virtualmente um Deus. Por isso, se a ciência proferir uma sentença de morte a um alcoólico e nós colocarmos esse veredicto terrível numa transmissão constante ao alcoólico, uma vítima falando a outra, pode abalar totalmente o ouvinte. Então o alcoólico pode voltar-se para o Deus dos teólogos, simplesmente por não ter mais lugar para onde ir. Por mais
verdadeiro que fosse esse estratagema, certamente continha o seu lado prático. Imediatamente todo o ambiente modificou-se. As coisas começaram a melhorar.

Passados alguns meses, fui apresentado ao Dr. Robert S., um cirurgião de Akron. Era um alcoólico em péssimo estado. Desta vez não fiz nenhum sermão. Contei-lhe da minha experiência e do que conhecia sobre o alcoolismo. Porque nos entendemos e precisávamos um do outro, estabeleceu-se uma reciprocidade pela primeira vez. Esse encontro marcou o fim da minha postura de pregador. Essa idéia da necessidade mútua, acrescida ao ingrediente final da síntese da medicina, religião e da experiência do alcoólico constitui agora Alcoólicos Anônimos.

"Dr, Bob", um caso muito grave, alcançou a sobriedade e, desde então, nunca mais tomou um trago até a sua morte, em 1950. Ele e eu logo começamos a trabalhar com um grupo de alcoólicos que encontramos no Hospital Municipal de Akron. Quase imediatamente logramos uma recuperação, seguida de outras. O primeiro Grupo de A.A. havia sido formado. Retornando a New York no outono de 1935, dessa vez com todos os ingredientes da recuperação, um outro grupo rapidamente tomou forma nesta cidade.

Todavia, o progresso dos Grupos de Akron e New York foi dolorosamente lento nos anos seguintes. Centenas de casos foram trabalhados, mas somente poucos responderam positivamente. Entretanto, no final de 1937, quarenta pessoas estavam sóbrias e começamos a nos sentir mais seguros e confiantes. Vimos que tínhamos uma fórmula poderosa, que levada de um alcoólico a outro, mentalmente produz, numa reação em cadeia, um número expressivo de recuperações. Então veio a pergunta: "Como podemos transmitir nossas boas novas aos milhões de alcoólicos na América e em todas as partes do mundo?" A resposta parecia estar em uma literatura específica, que detalharia os nossos métodos. Uma outra necessidade era uma forte divulgação publicitária, a qual nos traria uma grande quantidade de casos.

Na primavera de 1939, mossa Irmandade havia produzido um livro intitulado Alcoólicos Anônimos. Nesse volume, nossos métodos eram detalhadamente descritos. Para obter uma maior clareza e transparência, o programa de viva-voz que me foi transmitido pelo meu amigo Ebby, foi ampliado para conter o que chamamos agora em A.A. de "Doze Passos Sugeridos Para a Recuperação". Este era o cerne do nosso livro. Para dar substâncias ao métodos de A.A., nosso livro incluiu vinte e oito histórias pessoais de recuperação. Esperávamos que essas histórias pudessem nos identificar plenamente com os nossos leitores distantes, o que certamente vem ocorrendo. E como nos havíamos retirado do Grupo Oxford, nossa Irmandade adotou o título do nosso livro (Alcoólicos Anônimos) como seu nome. O advento desse livro constitui um marco histórico. Nesses vinte anos, esse texto básico teve uma distribuição de aproximadamente 400.000 cópias. Incontáveis alcoólicos
têm alcançado a sobriedade sem outra ajuda a não ser a leitura desse livro e a prática dos seus princípios.

Nossa segunda necessidade foi a publicidade. E estava prestes a aparecer. Fulton Oursler, destacado editor e escritor, publicou um artigo a nosso respeito na revista Liberty, em 1939. No ano seguinte, John D. Rockefeller Jr. deu um jantar para A.A., que foi amplamente divulgado. No ano seguinte, 1941, foi publicado um artigo no Saturday Evening Post. Essa publicação sozinha nos trouxe milhares de novas pessoas. Na medida em que crescíamos, também aumentávamos a eficiência. O índice de recuperação estava bem alto. De todos aqueles que realmente tentavam A.A., um grande percentual obteve êxito imediato; outros tardavam um pouco e ainda outros, se ficavam conosco, finalmente melhoravam bastante. Nosso alto índice de recuperação tem se mantido constante, incluindo aqueles que primeiro escreveram suas histórias na edição original de Alcoólicos Anônimos. De fato, 75% dessas pessoas alcançaram finalmente a sobriedade. Somente 25% morreram ou
ficaram loucos. A maioria daqueles que ainda vivem tem permanecido sóbrios em média vinte anos.

Desde os nossos primeiros dias, temos sido procurados por inúmeros alcoólicos, que se aproximam de nós e logo se afastam - talvez três em cada cinco, atualmente. Mas, felizmente, aprendemos que a maioria deles volta mais tarde, contanto que não sejam demasiadamente psicóticos ou tenham sofrido sérios danos cerebrais. Uma vez que tenham aprendido dos lábios de outros alcoólicos que são vítimas de uma doença quase sempre fatal, continuar bebendo somente lhes causará mais transtornos. Finalmente, são obrigados a voltar para A.A.; têm que fazê-lo ou morrem. Algumas vezes isso acontece anos após o primeiro contato. O índice final de recuperação é, por essa razão, mais alto do que pensávamos que poderia ser no princípio.

Outra tendência que se tem observado nos anos recentes tem sido fonte de muito conforto. Em nossos primeiros dias cuidávamos somente daqueles casos terminais. Não se podia fazer nada até que o álcool quase destruísse sua vítima. Mas, nos dias atuais, nós não precisamos esperar que tais sofredores atinjam esse nível profundo. Agora podemos ajudá-los a ver onde têm a cabeça antes de alcançarem o fundo do poço. Por conseguinte, metade dos membros atualmente em A.A. é composta de casos mais suaves. Muito freqüentemente, a família, o trabalho e a saúde das vítimas estão relativamente intactos. Até mesmo os casos em potencial que nos procuram hoje em dia são pessoas que sofreram apenas um pouco, Aqui e no exterior, nossa Irmandade está fazendo muito progresso para superar as barreiras de raça, credo e circunstância próprias de cada cultura.

Contudo, temos que refletir humildemente que Alcoólicos Anônimos somente arranhou a superfície do problema total do alcoolismo. Aqui nos Estados Unidos, temos ajudado a conseguir a sobriedade somente a cinco por cento de uma população alcoólica de 4.500.000 pessoas.

As razões são estas: Não podemos nos relacionar com alcoólicos que são demasiado psicopatas ou sofreram sérios danos cerebrais; muitos alcoólicos não gostam dos nossos métodos e estão à procura de formas distintas e mais fáceis; milhões de alcoólicos ainda se apegam à racionalização de que seus problemas estão relacionados a circunstâncias pessoais e, assim, a culpa recai sobre outras pessoas. Conseguir que o alcoólico na ativa ou alcoólico em potencial admita que é vítima de uma doença progressiva e freqüentemente fatal é uma tarefa muito difícil. Esse é o grande problema com que nos defrontamos, quer sejam médicos, religiosos, familiares ou amigos. Contudo, temos muitos motivos para ter esperanças. Um dos maiores motivos reside no que os médicos estão fazendo e deverão continuar a fazer. Talvez alguns de vocês estejam perguntando: "Como podemos ajudar com mais eficiência?"

Nós, de A.A., não podemos oferecer a opinião da autoridade profissional, mas sentimos que podemos dar algumas sugestões de grande ajuda. Somente há poucos anos, o bêbado era na maioria das vezes um incômodo. O médico e o hospital podiam minorar-lhe a brutal ressaca. Um pequeno alívio podia ser proporcionado à família e poucas coisas mais podia ser feita.

Agora a situação é diferente. Próximo a cada cidade e vila deste país existe um Grupo de A.A. Todavia, com bastante freqüência, o alcoólico não quer experimentar A.A. Exatamente aí é que o médico da família pode intervir de forma decisiva. Ele é a pessoa a quem chamam quando os problemas reais começam a aparecer. Depois de desintoxicar a vítima do álcool e tranqüilizar a família, pode dizer francamente ao alcoólico o que o aflige. Pode fazer por esse paciente a mesma coisa que o Dr. Carl Jung fez pelo "Sr. R." e o Dr. Silkworth fez por mim. Isso precisa ficar claro para o relutante bêbado ao dizer-lhe que contraiu uma doença progressiva e quase sempre fatal, que não pode recuperar-se sozinho e que necessita de muita ajuda. Devido ao grande conhecimento atual das deficiências metabólicas e emocionais do alcoólico, os médicos da família podem documentar as suas afirmações e diagnósticos de uma forma mais convincente do que
podiam nossos médicos pioneiros.

É muito gratificante saber que hoje em dia a matéria alcoolismo é objeto de inúmeros cursos em nossas escolas médicas. Em qualquer caso, é fácil obter informações acerca do alcoolismo. Organizações, como o Conselho Nacional Sobre o Alcoolismo (desde 1962, a Escola Rutgers de Estudos do Álcool), mais as inúmeras clínicas estatais de reabilitação e a ajuda dos médicos clínicos, são forças disponíveis de utilíssimo conhecimento. Assim munido, o médico da família pode - como dizemos em A.A. - "amaciar" o alcoólico de forma tal que ele esteja disposto a procurar a nossa Irmandade. Ou, se resiste ao A.A., pode ser encaminhado a uma clínica, ao psiquiatra ou a um religioso compreensivo. Nesse estágio, o mais importante é que ele reconheça sua doença e que comece a fazer algo a respeito.

Se o resultado do médico da família é cuidadosamente realizado, os resultados são muitas vezes imediatos. Se a primeira abordagem não funciona, a chances melhorarão através de abordagens persistentes e sucessivas que trarão resultados. Esses procedimentos simples não roubam ao médico da família muito tempo nem serão necessariamente dispendiosos ao bolso do paciente. Um esforço combinado dessa natureza, feito pelo médico da família, seja onde for, não falha e conquista excelentes resultados. De fato, o resultado do trabalho dessa espécie e do médico da família tem sido grande. E por isso, gostaria de registrar nossos agradecimentos especiais a esses médicos.

Agora, dirigimo-nos ao especialista, normalmente o psiquiatra. Estou alegre em dizer que os psiquiatras, em grande número, estão encaminhando alcoólicos para A.A. - até os psiquiatras que são mais ou menos especialistas em alcoolismo. Sua compreensão a respeito de alcoólicos agora é grande. A paciência e tolerância conosco e com A.A. tem sido monumental.

Em 1949, por exemplo, a Associação Psiquiátrica Norte-americana permitiu-me apresentar uma palestra sobre A.A. perante uma sessão do seu Encontro Anual. Como esses doutores são especializados em desarranjos emocionais - e o alcoolismo é certamente um deles -, a atitude deles tem sempre me parecido um maravilhoso exemplo de humildade e generosidade refinadas. O tópico dessa palestra tem tido enorme repercussão em todo o mundo. Estou certo de que todos nós, de A.A., nunca avaliamos corretamente a importância desse fato. Costumava ser moda entre alguns de nós depreciar a psiquiatria; a ajuda médica de qualquer espécie, salvo a quem meramente era necessária à desintoxicação. Evidenciávamos as deficiências da psiquiatria e da religião. Estávamos sempre prontos a bater no peito e dizer: "Olhem para nós. Conseguimos, mas eles não." E por essa razão é com grande alívio que posso registrar que essa atitude está desaparecendo. Os membros
atentos de A.A. em todas as partes compreendem que os psiquiatras e os médicos ajudaram a conduzir a nossa Irmandade desde o primeiro momento e têm segurado nas nossas mãos desde então.

Nós também compreendemos que as descobertas da psiquiatria e da bioquímica têm enormes implicações para nós, alcoólicos. Na verdade, essas descobertas são atualmente bem maiores do que meras implicações. Seu presidente e outros pioneiros, dentro e fora desta Irmandade, vêm obtendo notáveis resultados há muito tempo e muitos dos seus pacientes têm conseguido boas recuperações sem qualquer ajuda de A.A. Devo assinalar - como destaque - que alguns dos métodos de recuperação empregados fora de A.A. estão em completa contradição com os princípios e a prática de A.A. Todavia, nós de A.A., devemos aplaudir o fato de que algumas dessas tentativas vêm alcançando crescentes sucessos.

Nós sabemos também que a psiquiatria freqüentemente pode liberar-nos da pesada carga neurótica que aflige a muitos de nós após ficarmos sóbrios em A.A. Sabemos que os psiquiatras têm nos enviado incontáveis alcoólicos, que de outra forma jamais chegariam a A.A. e, igualmente, muitos clínicos têm feito o mesmo. Vemos claramente que, somando nossos esforços, podemos fazer juntos o que nunca conseguiríamos em separado ou através da crítica míope e da competência.

Por essa razão gostaria de fazer uma promessa a toda comunidade médica, de que A.A. sempre estará disposta a cooperar; que A.A. nunca passará por cima da medicina; que nossos membros - quando chamados - ajudarão nos grandes empreendimentos da educação, reabilitação e pesquisa, os quais estão agora bastante adiantados e são muito promissores.

Tão ameaçador é o espectro crescente do alcoolismo que nada menos que a totalidade dos recursos da nossa sociedade pode esperar vencer ou diminuir a força do nosso perigosíssimo adversário, o álcool. A sutileza e o poder alcoólico da enfermidade estão presentes em cada página da história da humanidade - e nunca revelada tão claramente e tão destrutivamente como neste século em que vivemos.

Quando o conhecimento e a compreensão estiverem combinados e maciçamente aplicados, nós, de A.A., sabemos que encontraremos os nossos amigos da medicina na primeira linha de combate - exatamente onde tantos de vocês hoje já estão a postos.

Quando essa sinergia benigna e cooperativa estiver em plena ação, teremos certamente um grande amanhã para a imensa multidão de homens e mulheres que sofrem de alcoolismo e de suas sombrias e terríveis conseqüências.

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Declaração sobre o alcoolismo

A Associação Médica Norte-americana identifica o alcoolismo como uma doença complexa, com componentes biológicos, psicológicos e sociológicos e reconhece a responsabilidade da medicina em relação às pessoas atingidas. A Associação reconhece que são múltiplas as formas de alcoolismo e que cada paciente deveria ser avaliado e tratado de uma forma total e individualizada.

Casa dos Delegados

Associação Médica Norte-americana, 1971

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Fonte:

Três Palestras às Sociedades Médicas por Bill W., co-fundador de A.A.









" O EGO E SUAS MANIFESTAÇÕES "

No Quinto Passo de A.A. encontramos um componente essencial do Programa de Recuperação, ele nos alerta para o fato de que: "todos os Doze Passos nos pedem para atuar em sentido contrário aos desejos naturais, todos desinflam nosso ego" .
Uma profunda deflação do ego foi o caminho indicado ainda no final dos anos 20 pelo eminente Dr. Carl Jung a um alcoólico que o procurou buscando solução para o seu gravíssimo problema. Dizia esse médico "...reconheça a sua impotência pessoal e que se entregue ao Deus que você pensa existir. Terá que tentar isso, é a sua única saída" . Essa deflação do ego é atualmente a pedra angular dos princípios de A.A.
Nesse mesmo sentido o Dr. Tiebout destaca dois fatores essenciais à manutenção da sobriedade, ambos emanados do anonimato conforme suas palavras, duas faces da mesma moeda: primeiro a preservação de um ego reduzido, segundo a presença contínua de humildade ou simplicidade.
Com efeito a Tradição de A.A. coloca o anonimato como "o alicerce espiritual das nossas Tradições" vindo daí a inevitável conclusão de que é preciso "colocar os princípios acima das personalidades" . Segundo o autor esse ego não é um conceito intelectual, mas sim um estado de sentimento  uma sensação de importância  diríamos uma necessidade de ser especial . Vemos hoje por aí afora pessoas tentando ser especiais, e mesmo em nossa irmandade quantas vezes queremos ser especiais pelos mais variados motivos. Aprendemos em A.A. sobre o risco de bajular um alcoólico com honrarias e louvores e por isto evitamos o culto à personalidade. A realimentação do ego é fatal para nós bebedores em recuperação. A Segunda Tradição traz em seu enunciado um antídoto para essa ameaça ao definir que os nossos líderes são apenas servidores de confiança, não tendo poderes para governar.
Portanto, a nossa experiência demonstra que em todos os aspectos da recuperação precisamos manter uma atitude de permanente defesa contra a exacerbação do ego e o serviço em A.A. deve ser uma forma de crescimento espiritual, jamais meio de afirmação pessoal.
Outro aspecto preocupante nos dias atuais foi abordado pelo Dr. Tibeout no artigo que ora compartilhamos. Trata-se da prática infelizmente ainda hoje existente de comemorar-se tempo de sobriedade com bolos e acrescentaríamos, festas. Tomemos as palavras do eminente médico sobre esses episódios acontecidos, segundo ele, nos primeiros dias de nossa então florescente irmandade:
"Uma olhada ao que aconteceu nos mostra o egoísmo, como eu o vejo, em ação. Em primeiro lugar, a pessoa que esteve sóbria por um ano inteiro, tornou-se um exemplo, algo para se admirar. Seu ego naturalmente se expandiu, seu orgulho floresceu e qualquer diminuição de egoísmo, obtida anteriormente, desapareceu. Tendo sua confiança renovada, acabou por tomar um drinque. Tinha sido considerada especial, e reagiu de acordo. Depois, essa parte especial se esvaiu. Nenhum ego é alimentado, estando na condição de lugar comum, e desse modo, o problema de ego desaparece.
Hoje A.A., na prática, está bem consciente do perigo de se bajular alguém com honrarias e louvores. Os riscos da realimentação do ego são reconhecidos. A frase `servidor de confiança constitui-se num esforço para manter baixo o nível do egoísmo, embora alguns servidores tenham problema nesse particular"
Definido como um estado da mente, o egoísmo tira o indivíduo da sua condição de mero participante do contingente da humanidade para alçá-lo à condição de ser especial, conseqüentemente, diferente. A insistência de A.A. no princípio do anonimato individual, tem fundamental importância como antídoto natural para a forte tendência dos alcoólicos em sentirem-se especiais, levando-os para uma região distante da verdadeira humildade, por conseguinte, colocando-os muito próximo da perigosa zona de hiperinflação do ego.
Por outro lado o ego pode levar o indivíduo ao extremo oposto do "sentir-se especial", mergulhando no pântano da autopiedade por não conseguir suportar ou admitir as suas falhas, fraquezas e impotências. O sentimento de inferioridade dele se apossa fazendo-o sentir-se inferior, o último dos mortais, incapaz de alçar seus vôos de grandeza e superioridade.
Em nossa Sexta Tradição encontramos a síntese desses dois aspectos ao lembrar-nos que: "...a maioria dos alcoólicos não passa de idealistas falidos. Quase todos dentre nós tínhamos desejado fazer um grande bem, praticar atos, personificar grandes ideais. Somos todos perfeccionistas que, à falta da perfeição, nos bandeamos para o extremo oposto e aderimos à garrafa e à escuridão".
Aceitar ser o "nada", caminhar no sentido contrário aos desejos naturais, eis o problema de muitas pessoas. Porém, aprender a agir como um nada é entender a importância de ser um simples indivíduo, cidadão do dia-a-dia, integrado à raça humana e fundamentalmente anônimo. Atingir esse nível de compreensão permite desenvolver, aí sim, a verdadeira individualidade, que permite viver uma vida não circunscrita a fatos e circunstâncias, mas estar pronto para aceitar as adversidades como oportunidade para crescimento. Vivendo e deixando viver, livre das injunções do perfeccionismo e das auto-cobranças. Vivendo o hoje intensamente com alegria, plena satisfação consigo mesmo e a certeza de que é capaz de viver um dia por vez. Em A.A. conhecemos esse programa como o plano das vinte e quatro horas, que nos permite construir hoje o nosso amanhã, portanto, sem nos preocuparmos com ele.
Que o anonimato continue sendo o manto protetor de nossa irmandade, proteção contra o ego e suas devastadoras manifestações, permitindo que em A.A. cada indivíduo sinta-se apenas mais um, assimilando o sentimento de "eu não sou nada de especial", assim buscando a verdadeira humildade, salvaguarda contra futuros problemas com relação ao álcool.


"Compreendo o motivo pelo qual você se espanta ao ouvir alguns oradores de A.A. dizerem: `Nosso programa é um programa egoísta. A palavra egoísta geralmente significa que se é ambicioso, exigente e indiferente ao bem-estar dos outros. Claro que o modo de vida de A.A. não apresenta esses traços indesejáveis.
O que querem dizer esses oradores? Bem, qualquer teólogo lhe dirá que a salvação de sua própria alma é a mais alta aspiração que um homem pode ter. Logo, sem salvação – podemos definir assim - ele terá pouco ou nada. Para nós de A.A. a urgência é ainda maior.
Se não podemos ou não queremos alcançar a sobriedade, então estamos desde já verdadeiramente perdidos. Não temos valor para ninguém, nem para nós mesmos, até nos libertar do álcool. Logo, nossa própria recuperação e crescimento espiritual têm que vir em primeiro lugar – uma justa e necessária espécie de preocupação com nós mesmos."

Carta de 1966





Literatura Oficial de Alcoólicos Anônimos

FONTE:- ALCOÒLICOS ANÔNIMOS ATINGE

A MAIORIDADE
TÌTULO; - “COMO A MEDICINA VÊ ALCOÒLICOS”.

“ANÔNIMOS” (Primeira Parte)

AUTOR: - Dr. HARRY M. TIEBOUT

“COMO de costume, eu deveria agradecer ao homem que me apresentou com palavras amáveis, mas há anos venho ensinando a necessidade da Redução do Ego e não estou tão certo de meu EGO ter sido suficientemente reduzido, depois dessa apresentação”.

Quando recebi o convite para falar perante este Grupo, disse imediatamente: “Sim, quero ir.” Durante muitos anos , como vocês todos sabem , tenho estado ligado ao A.A. e todas as Experiências que tive apresentaram-se repentinamente em minha mente, e assim havia tanta coisa a dizer que não sabia por onde começar. COM a permissão de vocês, vou usar um manuscrito para que os pontos que eu desejo ressaltar não sejam esquecidos.

NUMA Reunião de A.A., o orador geralmente se identifica como alcoólico e então começa a narrar sua história, usando Sabedoria ou Humor, ou ambos, à medida que continua sua narração. EU também contarei minha história ,embora não tenha a mesma perspicácia ou a Sabedoria dos oradores de A.A. . “JUNTEI-ME ao A.A. , em 1939, quando um dos meus pacientes se tornou membro do Grupo de New York”. Recordo-me muito bem de minha primeira reunião. EU estava emocionado, pois A.A. ia entrar no ar pela primeira vez. UM dos membros que estava tentando Reabilitar-se, tinha falado com Gabriel Heatter, que ao ouvir sua história sugeriu que o homem de A.A.aparecesse no Programa “Nós e o Povo”.

ESSA era a noite marcada para sua apresentação, e ela era muito emocionante e especial para se parecer com uma Reunião regular. O resultado, na verdade, não foi o que se esperava.

O homem de A.A. falou rapidamente a respeito de suas experiências – e nada mais.

Portanto, o A.A. tinha dado um passo para se fazer conhecido; certamente um passo não muito grande; mas um dos muitos passos que o levaram finalmente á sua atual posição, no cenário nacional e internacional.

Posteriormente assisti a outras reuniões, de caráter mais ortodoxo, e assim desenvolvi a convicção de que esse grupo tinha encontrado um método para resolver o problema do beber excessivo.

Até certo ponto, isso foi uma resposta ás minhas orações. Depois de quebrar a cabeça , durante muitos anos , no que se refere ao problema tratamento do alcoólico, eu podia agora começar a ter esperança .

A esse respeito, meus primeiros dois ou três de contato com A.A. foram os mais emocionantes da minha vida profissional. .A.A. encontrava-se então em sua fase de milagres. Tudo o que acontecia parecia estranho e maravilhoso. Bêbados sem esperança estavam sendo levantados da sarjeta. Indivíduos que tinham procurado todos os meios de ajuda conhecidos, sem sucesso, começaram a responder a essa nova orientação. Estar em contato com um desses grupos era formidável.

Além disso, do ponto de vista profissional, toda uma linha de tratamento para os problemas do álcool tinha sido iniciada.

EM algum lugar da experiência de A.A. estava a chave para a Sobriedade. AQUÌ estava à primeira verdadeira chave do mistério, depois de muitos anos de esforços infrutíferos. AS possibilidades à frente eram fascinantes.

Talvéz eu pudesse aprender como A.A. funcionava e assim conhecer algo a respeito de como as pessoas paravam de beber.

SIM, compartilhei da emoção geral daqueles dias. Pude ver a luz à minha frente .

MEU futuro nesse aspecto estava agora mais claro. Eu tentaria descobrir o que fazia A.A. funcionar . Nessa busca para compreender, nunca teria ido muito longe, no inicio, se não fosse através de BILL e de muitos antigos membros de A.A.

UM estudo dos Doze Passos ajudou um pouco, mas de muito maior importância foram os conhecimentos que possuíam BILL e outros ,com respeito ao processo como pelo qual A.A. conseguia resultados .

OUVI falar da necessidade de se atingir o “Fundo do Poço,”.

Da necessidade de um Poder Superior, da ‘humildade’ indispensável.

Essas foram idéias que nunca tinham cruzado meu horizonte profissional e certamente nunca tinham influenciado meu pensamento ou atitudes não profissionais.

Ainda que fossem idéias revolucionárias, elas faziam sentidas, e me vi fazendo uma viagem de descobrimento.

“Comecei a entender mais claramente” o que significava chegar ao ‘ fundo do poço’ e comecei a fazer todo possível para induzir essa experiência em outras pessoas, sempre perguntando a mim mesmo o que estava acontecendo no interior do Indivíduo, quando ele saia da crise do fundo do poço.

Finalmente a sorte me sorriu outra vez, e agora com uma outra paciente. Durante algum tempo ela esteve sob minha nova orientação de psicoterapia, destinada a chegar ao “Fundo do Poço”. Por razões completamente desconhecidas, ela experimentou uma leve, mas típica conversão que a levou a um estado de espírito positivo.

Guiada por esses novos elementos espirituais, ela começou a freqüentar várias igrejas da cidade. “Numa segunda feira de manhã, ela entrou em meu consultório com os olhos brilhando e começou logo a falar:-” Eu sei o que aconteceu comigo! Eu me Rendi”

Com a palavra ‘ RENDIÇÃO’ ela fez com que eu pela primeira vez percebesse o que acontece no momento da chegada ao Fundo do Poço.

O alcoólico estava sempre para não admitir sua derrota,não admitir que era impotente perante ao álcool . Se e quando ele se Rendesse ,pararia de lutar ,admitiria que estava derrotado e aceitaria o fato de que era Impotente perante ao álcool e de que precisava de ajuda . Se ele não se rendesse , poderiam ocorrer mil crises e nada de construtivo aconteceria .

A necessidade de induzir á rendição veio a ser uma nova meta terapêutica . O milagre de A.A. estava agora um pouco mais claro, mas a razão não era capaz ainda de perceber por que o programa e a irmandade de A.A. poderiam induzir à Rendição que por sua vez levaria a um período de abstinência .

Como era de se esperar , tive uma grande satisfação pessoal . Estava compreendendo o que estava acontecendo ; tudo isso era uma agradável experiência .*Ainda em minha ansiosa busca , modifiquei meu enfoque terapêutico . O trabalho agora era induzir à Rendição .

Mas eu tive uma total resistência a essa idéia .Um território totalmente novo tinha de ser explorado .À medida que eu continuava a viagem de exploração, ficou claro que no psiquismo de todos existia um “ ego inconquistável que se opõe amargamente a qualquer insinuação de derrota” .



“ATÈ que esse EGO não seja reduzido ou se tornado inativo de alguma forma , nenhuma esperança de Rendição poderia ser obtida .A Mudança da Ênfase do Fundo Do Poço para a Rendição , para a Redução do Ego , ocorreu durante os primeiros cinco ou seis anos , depois do meu primeiro contato com A.A.” .SEGUE....



‘Conheça A Literatura de Alcoólicos Anônimos Para Transmitir a Mensagem Certa’.







" APADRINHAMENTO "

"UM APOIO EM TEMPO DE NECESSIDADE"
(Tema apresentado na Quinta Reunião Mundial de Serviços de A.A., por Bill S., delegado do Reino Unido (Inglaterra e Escócia).)

Considero-me uma pessoa muito afortunada em muitos aspectos, muito particularmente em dois eventos cruciais de minha vida. O primeiro foi, indiscutivelmente, ter sido conduzido pela graça de Deus, tal como O entendo, para Alcoólicos Anônimos na hora de maior necessidade. O segundo, quando um membro de A.A. de ampla e magnífica experiência não apenas estava disponível como atendeu ao meu pedido de que fosse meu padrinho.
Um dos significados da palavra "apadrinhamento" é "apoio e esta é para mim uma descrição apropriada e confortante".
Devo admitir que quando fiz o pedido para que fosse meu padrinho, de maneira inocente ou ignorante esperava que ele se convertesse na pessoa responsável pelos meus atos. Logo aprendi que não poderia ser assim, posto que somente eu era responsável por mim mesmo. Contudo, minha desilusão foi minorada quando me explicou que compartilharia comigo sua experiência, força e esperança sobre uma base pessoal, para ajudar-me a adquirir a auto-responsabilidade.
Esta foi minha primeira lição sobre apadrinhamento: a de ser um apoio em tempos de necessidade, de oferecer disponibilidade e boa vontade em todas as ocasiões, para orientar-me para o descobrimento de minhas próprias soluções para os meus problemas e dificuldades pessoais.
No início, sua ajuda foi de natureza prática: sua presença nas reuniões, nosso intercâmbio em chamadas telefônicas e as preciosas conversas privadas especiais. Talvez tudo isto tenha sido apenas apoio moral, mas o fato de eu saber que o tinha disponível ajudou-me em muitas ocasiões a encontrar um porto seguro num mar de dificuldades.
Aqueles foram meus dias de passos vacilantes ao longo do caminho que conduz à abstenção, à sobriedade. Uma época para aprender a viver novamente, um tempo em que eu necessitava tanto de um mestre quanto qualquer criança na escola. O conteúdo dos livros e dos folhetos nem sempre era compreendido.
Pouco a pouco, durante um longo período, foi se operando uma sutil mudança na relação entre meu padrinho e eu. Na medida em que foram crescendo e fortificando-se minha confiança e respeito próprio, fui buscando um maior conhecimento do programa de recuperação de A.A.
Dentro do grupo podia-se apresentar e discutir muitos pontos, com o compartir de diversas...experiências.
Porém, ainda restavam muitos aspectos dos quais eu ainda carecia de ajuda e orientação.
Com o meu padrinho podia falar aberta e confidencialmente sobre os Doze Passos, e pude
passar a entender seu profundo significado interior. Lenta, porém seguramente, com o passar do tempo fui aprendendo através do exemplo e dirigindo minha mente para um melhor aproveitamento da vida de sobriedade.
Este período de transição, crescimento e renovação foi em muitos aspectos uma época muito feliz. Claro que houve problemas, mas meu padrinho me ensinou a rir deles e sobretudo a desenvolver um profundo sentimento de gratidão.
Até aqui falei somente muito brevemente do que foi para eu ter sido "apadrinhado". Necessariamente trata-se de um resumo já que fosse narrar todos os detalhes de tal experiência ocuparia muito mais tempo do aquele que me está destinado.

Nosso Escritório de Serviços Gerais considera este tema do "apadrinhamento" como da maior importância, e já desde a primeira Conferência em 1966 se tratou desta parte do serviço.
A sexta Conferência em 1971, cujo tema central foi "A unidade no Serviço para o membro novo", destinou dois comitês para tratar assuntos distintos. Um deles falou sobre "O apadrinhamento no grupo" e o outro compartilhou suas experiências sobre "A responsabilidade individual no Apadrinhamento".
A 12ª Conferência de 1977 teve novamente uma sessão dedicada ao exame de nossa consciência sobre o apadrinhamento.
Pelo o que foi dito anteriormente não é difícil deduzir a relevância que existe na Grã Bretanha quanto ao apadrinhamento, e como até agora, na vida de nossa Conferência temos prosseguido fazendo o inventário de grupo para examinar nossa consciência e para mantermos vivos em nossas mentes os benefícios que são obtidos tanto para o padrinho quanto para o afilhado.
Uma recente pesquisa cuidadosa em nossa associação revelou alguns interessantes resultados. Reconhecemos que a amostragem pesquisada é pequena, mas tomaram-se todas as medidas possíveis para assegurar que todos os setores de A.A. no país nela estivessem representados. As conclusões mostraram que 69% dos membros de A.A. tinham entre dois e seis anos de sobriedade, e que 75% das pessoas com mais de seis anos eram padrinhos de outro ou outros membros. A média geral dos membros que atuavam como padrinhos foi de 52%.
Outro fato interessante que veio à luz foi que 80% daqueles que atuaram como padrinhos mantêm uma relação de proximidade com a pessoa a quem apadrinharam. Isto poderia indicar a criação de um forte vínculo de amizade entre as pessoas envolvidas, amizade que se estabeleceu e que perdura através do tempo. Assim, parece confirmar-se a opinião expressada na edição revisada do folheto sobre apadrinhamento: "Um bom relacionamento padrinho-afilhado é uma espécie de elo recordado com prazer por cada um, mesmo se os dois já não estão entrosados. Mas pode também se transformar numa amizade duradoura, e quando isso acontece, geralmente os dois dizem: Agora apadrinhamos um ao outro.".
Quando escuto em meu grupo menção ao apadrinhamento, ainda que não seja este o tema da reunião, alegro-me profundamente. A pergunta do recém-chegado serve para recordar-me do tempo em que a palavra apadrinhamento era nova para mim e eu desconhecia seu propósito. A mente inquisitiva mostra um desejo de melhorar em sua rota para a sobriedade e uma boa disposição para utilizar toda ajuda possível, ao mesmo tempo em que acredita que haverá de encontrar a ajuda de que necessita, sem interessar de onde venha.
Entendo que somos afortunados por dispormos no folheto "P e Respostas sobre Apadrinhamento" de um tesouro de experiência compartilhada que nos pode guiar em tão importante atividade.
Diz-se que Deus nos deu dois ouvidos e uma só língua para nos indicar que devemos escutar duas vezes antes de falar. Eu procuro escutar atentamente e com a intenção de compreender; quando falo, procuro não sair dos limites de minha própria experiência. Tenho o privilégio de ser padrinho e - considero esta situação como uma parte muito importante do meu programa de recuperação, retribuindo, assim, à Irmandade uma fração mínima de tudo aquilo que me foi dado gratuitamente. -
Se me perguntassem como assumiria a responsabilidade do apadrinhamento, teria que responder: o apadrinhamento há que ser assumido de maneira sincera, honesta e amorosa.

Tradução: Edson H.





O anonimato durante as cerimônias fúnebres de membros de A.A. falecidos, tem-se constituído em um problema muito sério! Talvez mais sério que qualquer outra forma de aplicação desta importantíssima Tradição de A, A! O não respeitar o anonimato de um companheiro falecido, pode envolver e/ou até comprometer uma infinidade de pessoas que, aparentemente, nada tinham a ver com a situação "anônima" do membro de nossa Irmandade e que, durante toda a sua permanência em A.A., jamais declinou a quem quer que fosse, a sua participação no programa de Alcoólicos Anônimos, até mesmo para familiares e/ou a amigos que com ele (ou ela) conviviam.
E, para melhor compreendermos esse importante assunto, mentalizemos uma pequena "história", mas que poderá perfeitamente acontecer, se é que ainda não aconteceu, em algum lugar onde exista um grupo de A.A. em qualquer parte deste nosso planeta:
"Jayme" (nome suposto), alcoólatra em recuperação, participava há cerca de dois anos do programa de Alcoólicos Anônimos, Assíduo freqüentador das reuniões de A.A., mal orientado e/ou mal instruído, ele jamais declinara alguém, de suas relações pessoais, que era membro de nossa Irmandade. Somente a sua esposa o sabia e, a pedido dele, naturalmente não dizia a ninguém que seu marido era membro de Alcoólicos Anônimos. Jayme era um empresário muito bem postado na vida, com uma situação financeira bastante estável, próspero, já que o seu alcoolismo, embora sempre progressivo e crônico, jamais tinha afetado essa situação de sua vida, Nem mesmo os seus sócios sabiam que ele era membro de A.A., embora de um certo tempo para cá, tenham "notado" que algo de "estranho" tinha sucedido a Jayme, tanto em seu aspecto físico como também social, familiar e empresarial. Jayme se tornara - e isto há cerca de dois anos apenas - um indivíduo totalmente "diferente" daquele que mantinha sempre em sua mesa de trabalho, um "whisky para "brindar com os seus amigos e com as pessoas com quem tratava de negócios importantes ligados à sua sempre próspera empresa. Jayme deixara de beber de uma hora para outra!
Mas, certo dia, soa em sua grande empresa, uma triste notícia: Jayme falecera repentinamente, vítima que fora de um "enfarte agudo do miocárdio" (pelo menos fora isso o que constara em seu "atestado de Óbito"). O sentimento e a emoção tomaram conta de todos os seus amigos, funcionários e familiares, da mesma forma que entre os seus companheiros de A.A., onde ele era bastante querido - graças à sua humildade e grande dedicação ao grupo que ele sempre freqüentava.
Marcada a hora do sepultamento de Jayme, começaram a chegar não só companheiros de A.A. como também um grande número de amigos e familiares seus. Muitas coroas de flores foram-lhe enviadas como uma última homenagem de seus amigos e parentes. E dentre elas uma se destacava por seus amáveis dizeres:
"Jayme, que Deus te dê a paz que sempre almejaste! Teus companheiros de A.A." Na hora do funeral e em meio àquela multidão de pessoas, sem nenhuma consultam à sua esposa e/ou aos seus familiares, os companheiros de A.A. ali presentes, deram-se as mãos e após um comovido e bonito necrológio improvisado por um dos companheiros e amigo de Jayme, foi mais uma vez declinada a sua condição de membro de Alcoólicos Anônimos. Em seguida e como despedida daquele querido companheiro, os membros de A.A. ali presentes, fizeram a nossa mui querida e conhecida "Oração da Serenidade".
E o funeral de Jayme transcorreu normalmente, embora naquele clima de tristeza e muita consternação. Houve até quem, entre os companheiros, sugerisse que se colocasse em sua sepultura uma placa, um epitáfio, contendo os seguintes dizeres: "Aqui jaz um membro de A.A. Ele morreu sóbrio!" Em seguida, cobriram o caixão de Jayme com uma bandeira de A.A. Poucos dias depois expediram convites à comunidade, convidando os para a missa mandada celebrar pelo A.A. em homenagem póstuma ao "querido companheiro Jayme". Não se precisa dizer mais nada!
E agora vem o "outro lado da história: Acontece que, dentre as pessoas presentes a todo aquele cerimonial, havia uma muito reservada e que, embora bastante comovida, manteve-se sempre arredia ao contato com os amigos e familiares daquele querido companheiro falecido. Essa pessoa, esse estranho indivíduo, era, nada menos que um filho "ilegítimo"de Jayme e que havia sido excluído de seu testamento, feito há cerca de três anos quando, no auge de seu desespero, Jayme sentia a morte bem próxima. Todas as suas tentativas para parar de beber, antes de conhecer o A.A., haviam sido frustradas. Aquele indivíduo sabia alguma coisa sobre o AA. Ele sabia, por exemplo, que Alcoólicos Anônimos é uma Irmandade que se propõe a recuperar unicamente alcoólatras. Sabia também que, para ser membro de A.A. o único requisito é a vontade de parar de beber. Porém, só naquele momento, após aquelas "cerimônias" praticadas pelos membros de A.A., ele tomou conhecimento de que o seu "pai" era membro daquela Irmandade e, portanto, alcoólatra! E tirou suas conclusões: Se ele freqüentava há apenas dois anos o A.A. e o seu "testamento" fora feito há cerca de três anos, naturalmente ele poderia ou deveria perfeitamente estar "fora de si", bêbado, inconsciente e, portanto, sob o efeito do álcool, ao fazê-lo! Poderia até ter sido "induzido", "orientado" ao forjá-lo. Contratou advogados, ouviram-se testemunhas, investigaram e chegaram àquelas exatas conclusões: Jayme estava alcoolizado quando, naquele memorável dia, há cerca de três anos, anunciara o seu testamento, até mesmo como um grande presente "post-mortem" aos seus familiares, aos seus filhos, principalmente. E o pior de tudo é que fizeram a exumação do cadáver e a autópsia constatou que Jayme havia morrido de "complicações do aparelho digestivo conseqüentes a seu alcoolismo crônico e progressivo", coisas que o seu próprio médico desconhecia, já que Jayme jamais dissera a seu médico que pertencia à Irmandade de Alcoólicos Anônimos e que era alcoólatra, portanto. Logicamente que até o médico, que para evitar constrangimentos submetendo-o à uma autópsia chocante atestara "problemas cardíacos" como "causa mortis" de Jayme, fora seriamente envolvido e teve que responder a processos e submeter-se a outras implicações judiciais. E isso tudo por razões muito simples: Jayme jamais "abrira" o seu anonimato pessoal a quem quer que fosse e, além do mais, os companheiros de A.A. tomaram a si a erradíssima decisão de fazê-lo indevidamente por Jayme, desrespeitando a princípios de nossa Irmandade. E o resultado de tudo isso é que, depois de longa querela jurídica, após o envolvimento de dezenas de pessoas e até mesmo dos próprios membros de A.A., aquele "estranho" indivíduo ganhou a questão e naturalmente, graças ao A.A., que nada tinha a ver com isso, foi também incluído como herdeiro natural de Jayme, mas que havia sido "propositalmente excluído" de entre os beneficiários daquele "ingrato" e falecido pai. Aquela cerimônia simples, bem intencionada, oficiada por companheiros de A.A., mas totalmente desprovida dos conhecimentos dos princípios de nossa Irmandade, foi a responsável por toda aquela parafernália em torno do cadáver de Jayme. O anonimato de um companheiro nosso falecido, havia sido "aberto", sem o seu prévio consentimento e muito menos do de sua esposa e/ou de seus familiares,
Daí, depois dessa "hipotética história" (?) chegamos às seguintes conclusões sobre o Anonimato nas cerimônias fúnebres de membros de Alcoólicos Anônimos falecidos:
a) Devemos tomar certas precauções e evitar "abrir o anonimato pessoal de companheiros nossos, falecidos, diante das pessoas presentes ao seu funeral, já que não sabemos se todos estão a par de sua condição de membro da Irmandade, alcoólatra, portanto. Por via das dúvidas, devemos consultar sempre os seus familiares sobre essa condição e pedir-lhes permissão para citá-lo, caso queiramos fazer algum NECROLOGIO que possa identificá-lo como membro de A.A. Em resumo, o anonimato de companheiros nossos, falecidos, deve ser tanto ou até mais respeitado que o dos companheiros vivos.
b) Quando da remessa de coroas de flores, devemos evitar quaisquer referências nas mesmas à participação do falecido ao programa de A.A., a não ser com o prévio consentimento da família ou cumprindo vontade expressa em vida, pelo companheiro falecido. Por via das dúvidas, por que não remetê-las simples, sentidas e saudosas, sem nenhuma referência ao nome de A.A. ou de Alcoólicos Anônimos, como o fazem as outras pessoas de seu relacionamento?

Aluízio F.

Livro Azul

O PESADELO DO DR. BOB

Co-fundador de Alcoólicos Anónimos.
O nascimento da nossa Sociedade data do primeiro dia
da sua sobriedade permanente:
10 de Junho de 1935.
Até 1950, ano da sua morte,
levou a mensagem de A.A. a mais de 5.000 alcoólicos, homens e mulheres,
e prestou a todos gratuitamente os seus serviços médicos.
Foi apoiado neste prodigioso serviço pela Irmã Inácia
do Hospital de S. Tomás em Akron, Ohio,
uma das melhores amigas que a nossa Comunidade jamais conheceu.
Nasci numa pequena aldeia de Nova Inglaterra, de umas sete mil almas. O padrão moral, segundo me lembro, era muito acima do comum. Na vizinhança não se vendia cerveja nem bebidas fortes, a não ser na agência de bebidas do Estado, onde se poderia arranjar meio litro, desde que se conseguisse convencer o agente de que era realmente necessário. Sem esta prova, o comprador esperançoso teria de se ir embora de mãos vazias, sem aquilo que eu viria mais tarde a considerar o grande remédio para todos os males humanos. Aqueles que mandavam vir álcool por barco de Boston ou de Nova Iorque eram vistos com grande desconfiança e desaprovação pela maioria das pessoas da aldeia. Na aldeia havia muitas igrejas e escolas onde eu fiz os meus primeiros estudos.
O meu pai era um profissional de reconhecida competência, e tanto o meu pai como a minha mãe participavam muito activamente nos assuntos da igreja. Ambos tinham uma inteligência bem acima da média.
Infelizmente eu era filho único, o que talvez tenha contribuído para o egoísmo que veio a ter um papel tão importante no aparecimento do meu alcoolismo.
Desde a infância até ao fim dos meus estudos secundários fui mais ou menos obrigado a ir à igreja, a assistir à aula de catequese de domingo e aos serviços religiosos da tarde, a participar nas actividades cristãs das segundas feiras à noite e, por vezes, nas reuniões de oração das quartas feiras à tarde. Por isso decidi que nunca mais poria os pés na igreja, mal ficasse livre do domínio dos meus pais. Com firmeza cumpri esta resolução durante quarenta anos, excepto quando não podia deixar de ser.
Depois da escola secundária frequentei durante quatro anos uma das melhores universidades do país, onde beber parecia ser uma das principais actividades extra-curriculares. Parecia que quase todos o faziam. Eu bebia cada vez mais e divertia-me imenso sem problemas de saúde nem de dinheiro. Parecia ser capaz de me recompor no dia seguinte melhor do que a maioria dos outros estudantes, que tinham a pouca sorte (ou talvez a felicidade) de acordarem com ressacas. Nunca tive em toda a minha vida uma dor de cabeça, o que me leva a crer que fui alcoólico desde o início. Toda a minha vida parecia girar à volta daquilo que eu queria fazer sem ter em consideração os direitos, desejos ou privilégios dos outros; uma atitude que se acentuou cada vez mais à medida que os anos passavam. Formei-me com "distinção e louvor" aos olhos dos meus companheiros de bebida, mas não aos do reitor.
Passei os três anos seguintes em Boston, Chicago e Montreal a trabalhar numa grande empresa industrial, vendendo material ferroviário, máquinas de gás de todos os géneros e muitos outros artigos de maquinaria pesada. Durante esses anos, bebi tudo quanto a minha bolsa permitia, ainda sem grandes efeitos nocivos, embora já manifestasse por vezes indícios de tremores pela manhã. Durante estes três anos só perdi meio dia de trabalho.
A seguir, decidi estudar Medicina e entrei para uma das maiores universidades do país. Aí entreguei-me à bebida ainda com muito mais empenho do que até aí. Devido à minha enorme capacidade para beber cerveja, fui eleito membro de uma das sociedades de bebedores e em breve tornei-me uma das principais figuras. Muitas vezes de manhã ia para as aulas e, apesar de estar bem preparado, voltava para trás porque não me atrevia a entrar na sala com medo de que notassem os meus tremores e de fazer má figura se me chamassem para fazer uma exposição oral.
Isto foi de mal a pior até à primavera do meu segundo ano em que, depois de um longo período a beber, decidi que não podia terminar o curso, de modo que fiz as malas e parti para o sul para passar um mês na quinta de um amigo. Quando comecei a ficar com o espírito desanuviado, percebi que a minha decisão de abandonar o curso tinha sido precipitada e que seria melhor voltar e continuar os meus estudos. De volta à universidade, apercebi-me de que os professores da faculdade tinham outras ideias a meu respeito sobre o assunto. Depois de muitas discussões deixaram-me voltar e fazer os meus exames e passei com boas notas. Eles estavam porém muito fartos e disseram-me que podiam muito bem passar sem mim. Depois de muitas discussões desagradáveis, deram-me por fim os certificados e fui para uma outra das principais universidades do país, onde entrei nesse outono para o penúltimo ano.
Aí, o meu consumo de álcool agravou-se de tal modo, que os rapazes da casa onde vivíamos sentiram-se obrigados a chamar o meu pai, que fez uma longa viagem numa tentativa inútil para me corrigir. O efeito contudo foi mínimo, porque continuei a beber e a consumir bebidas ainda mais fortes e em maiores quantidades do que nos anos anteriores.
Ao aproximarem-se os exames finais apanhei uma tremenda bebedeira. Quando fui fazer a prova escrita, a minha mão tremia tanto que nem conseguia segurar a caneta. Entreguei pelo menos três provas em branco. É claro que fui repreendido e, portanto fui obrigado a repetir dois trimestres sem tocar numa gota de álcool, para me poder formar. Foi o que fiz e dei provas da minha competência perante os professores da faculdade, tanto no comportamento como nos estudos.
Tive uma conduta que inspirou tanta confiança que consegui um lugar muito cobiçado como estagiário numa cidade do oeste, onde passei dois anos. Durante estes dois anos estive sempre tão ocupado que mal saía do hospital e portanto não era possível meter-me em apuros.
Passados estes dois anos, abri um consultório no centro da cidade. Tinha algum dinheiro, tempo disponível e muitas perturbações de estômago. Em breve percebi que uns quantos copos me aliviavam as dores gástricas, pelo menos por umas horas e, portanto, não me foi difícil ceder aos meus antigos excessos.
Por esta altura já o meu estado físico se começava a ressentir e, na esperança de conseguir alívio, internei-me voluntariamente pelo menos uma dúzia de vezes num dos sanatórios locais. Estava agora "entre Cila e Caribdis" * porque, se não bebia, o meu estômago torturava-me e, se bebia, torturavam-me os meus nervos. Depois de três anos deste tormento, acabei num hospital onde me tentaram ajudar, mas eu arranjava maneira que os meus amigos me levassem álcool às escondidas, ou então roubava-o no edifício, de modo que o meu estado piorou rapidamente.
Por fim, o meu pai teve de me mandar um médico da minha cidade natal que conseguiu levar-me para casa. Estive de cama dois meses antes de poder saír de casa e fiquei lá ainda uns meses antes de retomar a minha clínica. Creio que me devo ter assustado muito com o que se passou ou com o que ouvi do médico, ou provavelmente com ambos, de modo que não voltei a beber até ser decretada a Lei Seca no país.
Com a promulgação desta lei senti-me bastante seguro. Sabia que todos iriam comprar umas quantas garrafas ou caixas de álcool segundo as possibilidades de cada um, mas que em breve se esgotariam. Portanto não fazia uma grande diferença se eu bebesse um pouco. Nessa altura eu não sabia que o governo concedia aos médicos um abastecimento quase ilimitado, nem fazia a menor ideia de que o contrabando iria em breve surgir. De princípio bebi com moderação mas levei relativamente pouco tempo a voltar aos velhos hábitos que já tinham provocado resultados tão desastrosos.
Durante os anos que se seguiram arranjei duas fobias: uma era o medo de não dormir e a outra o medo de ficar sem álcool. Como não tinha grandes meios, sabia que se não estivesse suficientemente sóbrio para ganhar dinheiro, acabavasse-me a bebida. Por isso não bebia o copo da manhã, por que tanto ansiava, mas substituía-o por grandes doses de sedativos para acalmar os tremores que tanto me angustiavam. Por vezes sucumbia ao desejo de beber logo de manhã, mas quando isso acontecia, ficava em poucas horas incapaz de ir trabalhar. Isto diminuía a possibilidade de trazer álcool para casa à noite às escondidas, o que representava uma noite em branco às voltas na cama e uma manhã de tremores insuportáveis. Durante os quinze anos que se seguiram tive o necessário bom senso de nunca ir trabalhar para o hospital se tivesse bebido e raramente aceitava pacientes. Escondia-me por vezes num dos clubes de onde era sócio e tinha o hábito de vez em quando de me inscrever em hotéis com um nome falso, mas os meus amigos normalmente encontravam-me e eu ia para casa, se prometessem não me ralhar.
Se a minha mulher decidisse sair de tarde, eu arranjava uma grande reserva de álcool que levava às escondidas para casa e escondia no depósito de carvão, na roupa suja, por cima dos umbrais das portas, sobre as vigas da cave e sob as telhas do sótão. Também utilizava velhos baús, cómodas e até velhos contentores de latas e de cinzas. Nunca utilizei o depósito de água da casa de banho porque parecia muito óbvio. Mais tarde vim a descobrir que a minha mulher o inspeccionava regularmente. Costumava pôr ampolas de álcool de oito a doze onças numa luva que deixava na varanda de trás, quando os dias de inverno eram bastante escuros. O meu fornecedor escondia álcool nas escadas traseiras onde eu o ia buscar quando precisava. Às vezes levava-o para casa nos bolsos, mas como era revistado, isso tornou-se perigoso demais. Também costumava pôr garrafas pequenas nas meias. Isto resultou até o dia em que a minha mulher e eu fomos ver Wallace Beery na peça "Tugboat Annie" em que o actor fazia a mesma coisa e o truque deixou de fazer efeito!
Não vou gastar tempo a contar todas as minhas experiências nos hospitais e sanatórios.
Durante todos este tempo os nossos amigos afastavam-se cada vez mais. Não nos podiam convidar porque eu me embebedava de certeza e a minha mulher não se atrevia a convidar ninguém pela mesma razão. A minha fobia das insónias fazia com que eu me embebedasse todas as noites, mas para conseguir arranjar álcool para a noite seguinte tinha que estar sóbrio durante o dia, pelo menos até às 4 da tarde. Continuei com esta rotina durante dezassete anos com poucas interrupções. Na realidade era um pesadelo horrível: ganhar dinheiro, arranjar álcool, levá-lo às escondidas para casa, embebedar-me, tremer logo de manhã, tomar grandes doses de sedativos para poder ganhar mais dinheiro e assim por diante "ad nauseam". Costumava prometer à minha mulher, aos meus amigos e aos meus filhos que não voltaria a beber - promessas que raramente me mantinham sóbrio nem sequer por um dia, apesar de ser muito sincero quando as fazia.
Para benefício dos que têm tendência para fazer experiências, quero aqui mencionar a chamada experiência da cerveja. Quando acabou a proibição de se vender cerveja, pensei que estava salvo. Podia beber toda a que quisesse. Era inofensiva e não havia memória de alguém se embebedar com cerveja, de modo que enchi o sótão até acima com a autorização da minha mulher. Em pouco tempo estava a beber uma caixa e meia por dia. Aumentei quinze quilos em cerca de dois meses, parecia um porco e sentia-me mal com falta de ar. Ocorreu-me então que o cheiro a cerveja impedia que se notasse qualquer cheiro de outra bebida, de modo que comecei a reforçar a cerveja com álcool puro. O resultado foi naturalmente muito mau e isto pôs fim à experiência da cerveja.
Mais ou menos por esta altura, comecei a dar-me com um grupo de pessoas que me atraíam por me parecerem calmas, saudáveis e felizes. Falavam com grande naturalidade e sem constrangimento, o que eu não era capaz. Pareciam estar sempre muito à vontade e tinham um ar saudável. Para além do mais, pareciam felizes. Eu era tímido e tinha quase sempre pouco à vontade, a minha saúde era precária e sentia-me completamente infeliz. Senti que elas tinham qualquer coisa que eu não tinha e que me seria de grande benefício. Compreendi que era qualquer coisa de natureza espiritual, o que não me agradava muito, mas que também não me podia fazer mal. Durante dois anos e meio dediquei muito tempo a estudar o assunto, mas apesar disso embebedava-me todas as noites. Li tudo o que encontrei e falei com todas as pessoas que eu achava saberem alguma coisa a esse respeito.
A minha mulher interessou-se profundamente e foi o seu interesse que manteve o meu, apesar de eu nem de longe pressentir que isto poderia vir a ser a resposta para o meu problema de álcool. Nunca hei-de compreender como a minha mulher manteve a sua fé e coragem durante todos aqueles anos, mas o facto é que manteve. Se não tivesse sido assim, sei que estaria morto há muito tempo. Por alguma razão, parece que nós, os alcoólicos, temos o dom de escolher as melhores mulheres do mundo. Não consigo explicar por que têm de se sujeitar às torturas que lhes infligimos.
Por esta altura, uma senhora telefonou à minha mulher num sábado à tarde para lhe dizer que gostava que eu fosse essa noite a casa dela conhecer um amigo seu que me poderia ajudar. Era véspera do Dia da Mãe e eu tinha chegado a casa muito bêbedo com uma enorme planta que pus em cima da mesa, depois fui para o meu quarto e desmaiei. No dia seguinte ela voltou a telefonar. Por delicadeza concordei em ir, embora me sentisse muito mal, mas fiz a minha mulher prometer que não iríamos ficar mais do que um quarto de hora.
Chegámos a casa dela às cinco horas em ponto e eram onze e um quarto quando saímos. Voltei a ter algumas conversas breves com esse homem e parei repentinamente de beber. Este curto período de abstinência durou três semanas. Fui então a Atlantic City para assistir durante uns dias a um congresso de uma sociedade nacional de que eu era membro. Bebi o whisky todo que havia no comboio e comprei várias garrafas no caminho para o hotel. Isto passou-se num domingo. Embebedei-me nessa noite, fiquei sem beber segunda-feira até depois do jantar e depois embebedei-me de novo. No bar bebi tudo o que me atrevi a beber em público e depois fui para o meu quarto para acabar o que tinha começado. Na terça-feira comecei logo de manhã e à tarde já estava bem aviado. Não quis ficar mal visto, paguei e fui-me embora. No caminho para a estação comprei mais álcool. Tive de esperar algum tempo pelo comboio. A partir daí não me lembro de mais nada, até acordar em casa de um amigo numa cidade perto da minha. Estes bons amigos avisaram a minha mulher que mandou o meu novo amigo ir-me lá buscar. Ele foi, levou-me para casa, meteu-me na cama, deu-me uns copos nessa noite e uma cerveja no dia seguinte.
Isto passou-se no dia 10 de Junho de 1935 e foi a última vez que bebi. Já se passaram quase quatro anos ao escrever estas linhas.
A pergunta que lhe pode ocorrer é: "O que disse ou fez este homem de tão diferente do que os outros tinham dito ou feito até aí?". É preciso relembrar que tinha lido muito e falado com todas as pessoas que sabiam ou pensavam saber alguma coisa sobre alcoolismo. Mas aqui estava um homem que tinha passado muitos anos da sua vida a beber de uma maneira horrível, que tinha tido a experiência de praticamente todo o tipo de bebedeiras que se possam imaginar, e que se tinha recuperado pelos mesmos meios que eu tinha tentado empregar, ou seja, por meios espirituais. Deu-me informações sobre alcoolismo que foram sem dúvida de uma grande ajuda. Mas o mais importante foi o facto de ter sido o primeiro ser humano com quem eu jamais falei que sabia o que estava a dizer a respeito de alcoolismo porque tinha passado por essa experiência. Por outras palavras, ele falava a minha linguagem. Ele conhecia todas as respostas e seguramente não era por as ter encontrado nos livros.
É uma bênção extraordinária estar liberto da terrível maldição que me afligia. A minha saúde é boa e recuperei o respeito por mim próprio e o respeito dos meus colegas. A minha vida de família é ideal e o meu trabalho é tão bom quanto se pode esperar nestes tempos incertos.
Dedico uma grande parte do meu tempo a levar o que aprendi a outros que querem e precisam muito. Faço-o por quatro motivos:
1. Por sentido de dever.
2. Porque é um prazer.
3. Porque ao fazê-lo, estou a pagar a minha dívida ao homem que gastou o seu tempo a passar-me a mensagem.
4. Porque de cada vez que o faço, protejo-me contra uma possível recaída.
Ao contrário da maior parte de nós, a minha apetência pelo álcool não diminuiu durante os primeiros dois anos e meio de abstinência. Esteve quase sempre presente, mas nunca estive sequer próximo de ceder. Sentia-me terrivelmente inquieto quando via os meus amigos beber, sabendo que eu não podia, mas disciplinei-me a pensar que embora tivesse tido esse mesmo privilégio, eu tinha de tal modo abusado dele, que me tinha sido retirado. De modo que não me vale de nada lamentar-me, porque afinal de contas nunca ninguém me enfiou à força bebida pela boca abaixo.
Se você se considera ateu, agnóstico ou céptico ou se tem qualquer outra forma de orgulho intelectual que o impede de aceitar o que está neste livro, sinto pena de si. Se ainda pensa que é suficientemente forte para ganhar a partida sozinho, o problema é seu. Mas se quer verdadeiramente deixar de beber de uma vez para sempre e sente sinceramente que precisa de ajuda, nós sabemos que temos uma resposta para si. Nunca falha, se puser nisso metade do esforço que costumava empregar para arranjar a bebida seguinte.
O seu Pai do Céu nunca o abandonará!





O VETERANO

Até hoje não achei que tivesse chegado a hora de expressar as
minhas opiniões, seja com respeito a A.A . ou com respeito ao alcoolismo.
Sempre achei o assunto ampla e maravilhosamente bem coberto pela
revista. Ultimamente, porém, dois problemas têm ocorrido vez por outra – o
dos veteranos, e artigos referentes ao que Bill e outros chamam de
"sobriedade emocional".
Alguns anos atrás, o veterano era uma raridade – digamos até mesmo
uns dez anos atrás, tão pouco. O lugar em que viviam , naturalmente, eram os
estados do leste norte-americano; só um ou outro se encontrava no Canadá ou
nos Estados do Oeste. Hoje em dia os veteranos são mais numerosos, mas por
vários motivos estão novamente escasseando nas reuniões. Eis uma situação
que não é boa para os veteranos, e certamente é muito ruim para A.A.
Vivo me surpreendendo com esta afirmação, que às vezes se ouve em
reuniões: "Em A.A. não existe senioridade." Ora, essa afirmação pode
facilmente qualificar-se como uma piadinha de salão. A pessoa que cunhou
essa belezoca deveria ter explicado que a falta de senioridade – ou seja de
uma hierarquia por antigüidade – somente se aplica em relação ao primeiro
gole. De outra forma, como aceitar e explicar o pouquinho de progresso
diário que nos é prometido no Livro Azul, desde que aceitemos praticar em
todas as atividades de nossas vidas os Doze Passos, integralmente?
Há montes de senioridade em A.A. A senioridade da sabedoria
adquirida com o correr dos anos. A senioridade da compreensão, da tolerância
com relação aos problemas de companheiros mais doentes do que nós. A
senioridade da fé, que nos torna capazes de amarmos o nosso Poder Superior e
confiarmos Nele, que nos permite perdoar e amar nossos vizinhos, e nos
ensina a nos amarmos e perdoarmos a nós mesmos também.
Na sua última grande palestra, o nosso co-fundador Dr. Bob
enfatizou bastante o que lhe aconteceu quando ele se afastou demais dos
"rapazes da enfermaria", e creio que é a mesma coisa que acontece com todos
nós quando esquecemos que a nossa sobriedade é condicional, que só permanece
enquanto passarmos adiante o que alguém uma vez se dispôs a passar para nós.
Não acredito que Deus nos tenha dado a sobriedade para racionalizarmos o
serviço à comunidade, em substituição ao serviço dentro de A.A. Os veteranos
precisam da associação constante com A.A. para manterem aquela calorosa
satisfação interna que tão bem conheciam quando freqüentavam A.A. havia uns
dez meses, e que perderam lá pelos seus dez anos.
O Grupo precisa de sua presença nas reuniões, pois assim proclamam
eles a sua própria necessidade de estarem presentes. Membros mais novos, por
sua vez, lembrarão esse exemplo e mais tarde, quando se tornarem veteranos,
também lá estarão. E assim A.A. se fortalecerá e crescerá.
Se o novato é o sangue que dá vida a A.A., então o veterano é nada
menos que o banco de sangue de A.A. Vejamos alguns fatos: os primeiros
veteranos escreveram o Livro Azul, e sua inspiração e sabedoria se
transfundiram para nós. Em Manitoba, A.A. foi iniciado por um membro que
veio de Minneapolis. Ele e seus companheiros nos disseram o que poderíamos
fazer, e quais as coisas que seria melhor não fazermos. Poupou-nos muitos
anos de tentativas e erros, o que é mais importante, com mais de dezoito
anos de sobriedade continua a frequentar o Grupo, e sua presença proclama,
em brados mais altos do que quaisquer palavras, o que essencialmente está
repetido em cada página do Livro Azul: que a nossa sobriedade nos é
concedida a cada vinte e quatro horas, e é condicionada ao nosso estado
espiritual.
É claro que os veteranos são importantes, portanto, que o saibam!
Talvez não sejam necessários para prover os afazeres do Grupo ou controlar
as finanças, mas se os veteranos em cada área forem freqüentadores fiéis e
assíduos das reuniões, então não teremos que nos preocupar com os novatos –
eles estarão em boas mãos. É bom lembramos o que o " A.A. Número Três" disse
à sua esposa quando Bill e o Dr. Bob o visitavam pela segunda vez: "Esses
são os rapazes de quem te falei; esses são os que entendem".

(Vivência nº 6, jan./mar., 1988, pág. 33)


UMA PERSPECTIVA DE VIDA PARA SI

Para a maior parte das pessoas normais, beber significa sociabilidade, camaradagem e uma imaginação viva. Quer dizer libertação de cuidados, do tédio e de preocupações. É a intimidade alegre com amigos e o sentimento de que a vida é boa. Mas não era assim para nós nos últimos tempos em que bebíamos em excesso. Os antigos prazeres tinham desaparecido. Já não eram senão recordações. Nunca conseguíamos reencontrar os grandes momentos do passado. Havia um desejo persistente de gozar a vida como a tínhamos conhecido e uma confrangedora obsessão de que um novo milagre de controlo tornaria isso possível. Havia sempre mais uma tentativa e um novo fracasso.
Quanto menos os outros nos toleravam, mais nos afastávamos da sociedade, da própria vida. À medida que nos tornávamos súbditos do Rei Álcool, habitantes trêmulos do seu reinado demente, o nevoeiro gelado que é a solidão abatia-se sobre nós, tornando-se cada vez mais espesso e sempre mais escuro. Alguns de nós procurávamos lugares sórdidos, na esperança de encontrar companhia compreensiva e aprovação. Por momentos conseguíamos - depois vinha o esquecimento total e o horrível despertar para defrontar os terríveis Quatro Cavaleiros do Apocalipse: o Terror, a Confusão, a Frustração e o Desespero. Os bebedores infelizes que leiam estas linhas e eles vão compreender!
De vez em quando, uma pessoa que beba muito, mas esteja sem beber na altura, dirá: "Não me faz falta nenhuma. Sinto-me melhor. Trabalho melhor e divirto-me mais". Como ex-bebedores problema que somos, esta saída faz-nos sorrir. Sabemos que essa pessoa é como uma criança a assobiar no escuro para afugentar o medo. Só se ilude a si própria. No fundo, daria tudo por beber meia dúzia de copos e ficar na mesma. Vai pôr de novo à prova o velho jogo, porque não está feliz com a sobriedade que tem. Não consegue imaginar a vida sem álcool. Chegará o dia em que não vai ser capaz de conceber a vida nem com álcool nem sem álcool. Conhecerá então como poucos a solidão. Estará no momento de saltar para o vazio. Vai então querer que chegue o fim.
Já mostramos como saímos do fundo. Poderá dizer: "Sim, estou disposto. Mas terei que ficar condenado a uma vida em que me sentirei estúpido, aborrecido e triste, como a de certas pessoas "virtuosas" que conheço? Eu sei que tenho de passar sem álcool, mas como é que é possível? Você tem algum substituto adequado?"
Sim, há um substituto e é muito mais do que isso. É pertencer a Alcoólicos Anônimos. Aí vai encontrar a libertação da inquietude, do tédio e da preocupação. A sua imaginação vai ser estimulada. A vida terá finalmente um significado. Os melhores anos da sua vida estão para vir. Foi isso que encontramos nesta comunidade e assim será para si também.
"Como é que isso me poderá acontecer?", pergunta. "Onde posso encontrar essas pessoas?"
Você vai encontrar esses novos amigos no sítio onde vive. Perto de si, há alcoólicos a morrer sem nenhum auxílio, como náufragos de um barco que se afunda. Se vive numa grande cidade, há centenas deles. Da classe alta e da classe baixa, ricos e pobres; estes são os futuros membros dos Alcoólicos Anônimos. Entre eles encontrará amigos para toda a vida. Vai ficar ligado a eles por novos e maravilhosos laços, porque terão escapado juntos do desastre e, lado a lado, irão começar uma caminhada em conjunto. Então perceberá o que significa dar de si próprio para que os outros possam sobreviver e redescobrir a vida. Aprenderá o pleno significado de "Ama o teu próximo como a ti mesmo".
Pode parecer incrível que estas pessoas venham a ser felizes, respeitadas e de novo úteis. Como podem sair de uma tal infelicidade, má reputação e desesperança? A resposta concreta é que, se estas coisas aconteceram entre nós, elas também podem acontecer consigo. Se o quiser acima de tudo e estiver disposto a utilizar a nossa experiência, estamos certos de que lhe acontecerá também o mesmo. Ainda estamos na era dos milagres. A nossa própria recuperação é testemunho disso.
A nossa esperança é de que este modesto livro, uma vez lançado na onda mundial do alcoolismo, seja agarrado pelos bebedores derrotados que seguirão as nossas sugestões. Estamos certos de que muitos se porão de pé para empreender a caminhada. Eles encontrarão outros, ainda doentes, e assim, poderão formar-se grupos de Alcoólicos Anônimos em todas as cidades e aldeias, que serão verdadeiros abrigos para aqueles que precisam de encontrar uma solução.
No capítulo "Trabalhando com os outros" você ficou com uma idéia de como abordamos e ajudamos os outros a recuperar a saúde. Suponha agora que, por seu intermédio, várias famílias adotaram este modo de vida. Você vai querer saber algo mais acerca de como proceder a partir daí. Para lhe dar uma idéia do que o espera, talvez o melhor seja descrever como cresceu a Comunidade entre nós, o que a seguir descrevemos em poucas palavras: Há anos, em 1935, um dos nossos membros fez uma viagem a uma certa cidade do oeste do país. Do ponto de vista de negócios, a viagem correu mal. Se ele tivesse obtido êxito, o seu empreendimento ter-se-ia podido recompor financeiramente, o que na altura, parecia ser de uma importância vital. Mas o negócio terminou em litígio e fracassou por completo. O processo foi acompanhado de muito rancor e controvérsia.
Com amargura e desencorajado, ele viu-se desacreditado e praticamente falido, num sítio desconhecido. Ainda fisicamente debilitado e sóbrio apenas há alguns meses, viu bem que a sua situação era perigosa. Queria muito falar com alguém, mas com quem?
Numa tarde sombria, ele andava de um lado para o outro no hall do hotel a pensar como iria pagar a sua conta. Num canto da sala havia uma vitrina com uma lista das igrejas locais. Ao fundo, uma porta dava para um bar sedutor. Lá dentro, ele podia ver gente bem disposta. Aí, ele poderia encontrar companhia e descontração mas, a não ser que bebesse uns copos, ele não iria possivelmente ter coragem para meter conversa e passaria um fim de semana solitário.
É claro que não podia beber, mas nada o impedia de se sentar a uma mesa com um refresco. Afinal de contas, não estava ele sóbrio há já seis meses? Talvez se pudesse permitir beber sem perigo, digamos, três copos - e nem mais um! O medo apoderou-se dele. A situação era perigosíssima. Era outra vez a velha e insidiosa loucura do primeiro copo. Com um arrepio, deu meia volta e dirigiu-se para onde estava a lista das igrejas. A música e a conversa alegre do bar ainda lhe chegavam aos ouvidos.
Pensou nas suas responsabilidades - na sua família e em todos aqueles que morreriam sem saber que havia uma saída para a recuperação; sim, todos aqueles alcoólicos! Devia haver muitos naquela cidade. Telefonaria a um clérigo. Voltou-lhe a razão e deu graças a Deus. Escolheu uma igreja ao acaso na lista telefônica, entrou numa cabina e pegou no auscultador.
A chamada ao clérigo conduziu-o a um habitante da cidade que, embora tivesse sido um homem competente e respeitado, estava então no auge do desespero alcoólico. Era a mesma situação de sempre: o lar ameaçado, a mulher doente, os filhos perturbados, contas por pagar e a reputação desfeita. Ele tinha uma vontade desesperada de deixar de beber, mas não via saída, pois tinha tentado seriamente muitas formas de escape. Dolorosamente consciente de que havia algo em si de anormal, o homem não compreendia inteiramente o que significava ser alcoólico. *
Quando o nosso amigo lhe descreveu a sua experiência, ele concordou que, mesmo com toda a sua força de vontade, nunca tinha conseguido parar de beber por muito tempo. Admitiu que uma experiência espiritual era absolutamente necessária, mas o preço parecia--lhe muito elevado com base no que lhe era proposto. Contou como vivia numa aflição constante de que descobrissem o seu alcoolismo. Tinha naturalmente a obsessão, comum a muitos alcoólicos, de que só poucas pessoas sabiam do seu problema. Por que razão, argumentava ele, deveria perder o que lhe restava ainda do seu trabalho, só para afligir a família ainda mais, ao admitir estupidamente a sua grave condição a pessoas de quem dependia para ganhar a vida? Disse que faria tudo, mas isso não.
Intrigado, contudo, convidou o nosso amigo para sua casa. Algum tempo depois, justamente quando estava convencido de que já dominava o seu problema de álcool, apanhou uma tremenda bebedeira. Para ele, foi a bebedeira que pôs fim a todas as bebedeiras. Percebeu que tinha de enfrentar honestamente os seus problemas para que Deus lhe concedesse ajuda.
Um dia, pegou o touro pelos cornos, e dispôs-se a dizer àqueles de quem tinha medo qual tinha sido o seu problema. Para sua surpresa, verificou que era bem aceite e que muitos estavam a par do seu alcoolismo. Pegou no carro e fez a ronda das pessoas a quem tinha prejudicado. Visitou-as uma a uma a tremer, porque isso poderia significar a sua ruína, muito em particular para uma pessoa com a sua profissão.
À meia noite voltou para casa, exausto mas muito contente. Desde esse dia nunca mais voltou a beber. Como se verá mais adiante, este homem representa atualmente muito para a sua comunidade, e em quatro anos, reparou os maiores danos causados em trinta anos de alcoolismo.
A vida porém não foi fácil para estes dois amigos. Defrontaram-se com muitos problemas. Aperceberam-se ambos de que tinham de se manter ativos espiritualmente. Um dia telefonaram para a enfermeira chefe de um hospital local. Explicaram-lhe o que precisavam e perguntaram-lhe se tinha um paciente alcoólico de primeira classe.
"Sim", respondeu ela, "Temos um que é um caso muito sério. Acabou de bater numas enfermeiras. Fica completamente doido quando está a beber, mas é uma ótima pessoa quando está sóbrio, embora tenha cá estado oito vezes nos últimos seis meses. Parece que foi um advogado muito conhecido na cidade, mas neste momento está atado à cama". **
Tratava-se realmente de um candidato mas, pela descrição, não parecia muito prometedor. Nessa altura, a aplicação de princípios espirituais em tais casos não era tão bem aceite como é agora. Mas um dos amigos disse: "Ponha-o num quarto privado. Vamos vê-lo".
Dois dias depois, o futuro membro dos Alcoólicos Anônimos olhava com um ar vidrado para os dois à beira da sua cama: "Quem são vocês e porque estou neste quarto privado? Estive sempre numa enfermaria".
Um dos visitantes disse: "Viemos dar-lhe um tratamento para o alcoolismo".
O desespero estava estampado na cara do homem ao dizer: "Oh! é inútil. Não há nada que me valha. Sou um homem perdido. As últimas três vezes, embebedei-me ao voltar para casa. Tenho medo de sair da porta. Não consigo compreender isto".
Durante uma hora, os dois amigos contaram-lhe as suas experiências com o álcool. Repetidamente ele dizia: "Sou eu. Sou assim mesmo. Bebo tal e qual como vocês".
Explicaram ao doente que ele sofria de uma intoxicação aguda, que degradava o organismo do alcoólico e lhe destorcia o espírito. Falou-se muito sobre o estado mental que antecede o primeiro copo.
"Sim, sou tal e qual", disse o doente, "é o meu retrato. Vocês sabem realmente do que estão a falar, mas não vejo de que é que isso me pode servir. Vocês são pessoas de respeito. Eu também fui, mas agora já não sou nada. Pelo que me dizem, sei melhor do que nunca, que não consigo parar de beber". Ao ouvir isto, os dois visitantes desataram a rir. "Não vejo onde é que está a graça", disse o futuro membro dos Alcoólicos Anônimos.
Os dois amigos falaram da sua experiência espiritual e explicaram--lhe o plano de ação que tinham posto em prática.
Ele interrompeu-os: "Já fui um praticante muito convicto, mas neste caso, não me serviu de nada. Nas manhãs de ressaca rezava a Deus e jurava que nunca mais bebia uma gota de álcool, mas às nove da manhã já estava bêbedo que nem um cacho".
No dia seguinte, encontramos o candidato mais receptivo. Tinha estado a pensar no caso. "Talvez vocês tenham razão," disse ele. "É possível que Deus consiga tudo". E acrescentou, "Apesar de Ele ter feito pouco por mim quando lutava sozinho contra o álcool".
Ao terceiro dia, o advogado entregou a sua vida aos cuidados e orientação do seu Criador e declarou-se inteiramente disposto a fazer o que fosse preciso. A sua mulher foi vê-lo, mal se atrevendo a ter esperança, embora tivesse notado já alguma diferença no seu marido. Ele tinha começado a viver uma experiência espiritual.
Nessa mesma tarde, ele vestiu-se e saiu do hospital convertido num homem livre. Tomou parte numa campanha política, fez discursos, frequentou centros de reunião de todos os gêneros, passando muitas vezes as noites em claro. Perdeu por pouco a eleição a que se candidatou e não foi eleito. Tinha porém encontrado Deus e, ao encontrar Deus, encontrou-se a si próprio.
Isto foi em Junho de 1935. Nunca mais voltou a beber. Também ele se tornou um membro respeitado e útil na sua comunidade. Ele tem ajudado outros a recuperarem-se e desempenha um papel importante na igreja, da qual esteve afastado muito tempo.
Assim, como se viu, havia naquela cidade três alcoólicos que sentiam que tinham de dar aos outros o que tinham encontrado, ou se afundariam de novo. Depois de vários fracassos para encontrar outros, apareceu o quarto. Veio por intermédio dum conhecido que tinha ouvido a boa notícia. Tratava-se de um jovem irresponsável, cujos pais não conseguiam perceber se ele queria ou não deixar de beber. Eram pessoas profundamente religiosas e muito abaladas pela obstinação do filho em não querer nada com a igreja. Sofria terrivelmente com as suas bebedeiras, mas parecia não se poder fazer nada por ele. Consentiu, no entanto, em ir para o hospital, onde lhe deram precisamente o mesmo quarto recentemente desocupado pelo advogado.
Recebeu três visitantes. Ao fim de pouco tempo disse: "Faz sentido a maneira como vocês apresentam a questão espiritual. Estou pronto para pôr mãos à obra. Ao fim e ao cabo, acho que os meus velhotes tinham razão". E assim, se juntou mais um à Comunidade.
Durante este tempo, o nosso amigo do incidente do hotel ficou nessa cidade mais três meses. Quando regressou a casa, deixou lá o seu primeiro conhecimento, o advogado e o jovem irresponsável. Estes homens tinham descoberto algo de completamente novo na vida. Embora soubessem que tinham de ajudar outros alcoólicos para eles próprios se manterem sóbrios, esse motivo em si mesmo tornou-se secundário. Era superado pela felicidade que descobriram em se darem aos outros. Eles partilhavam as suas casas, os seus escassos recursos e dedicavam de boa vontade as horas livres aos companheiros que sofriam. Dia e noite, estavam dispostos a levar um novo homem para o hospital e a visitá-lo em seguida. O número deles aumentou. Passaram por uns quantos fracassos dolorosos, mas nesses casos esforçavam-se por introduzir os familiares num modo de vida espiritual, trazendo deste modo conforto a muita inquietação e sofrimento.
Passado ano e meio, estes três homens obtiveram êxito com mais sete. Como se viam frequentemente, era rara a noite em que não houvesse um pequeno grupo de homens e mulheres que se encontravam em casa de um deles, felizes pela sua libertação e sempre a pensarem como encontrar um meio de levar a sua descoberta a recém-chegados. Para além destes encontros informais, estabeleceu-se em breve o costume de se reservar uma noite por semana para uma reunião, a que poderiam assistir todos os interessados num modo de vida espiritual. Além da camaradagem e sociabilidade, o objetivo fundamental era o de proporcionar a ocasião e lugar para os novos interessados falarem dos seus problemas.
Pessoas de fora começaram a interessar-se. Um homem e a sua mulher puseram a sua casa, que era grande, à disposição deste conjunto de pessoas tão estranhamente diverso. Este casal tornou-se desde então tão entusiasta com a idéia que dedicou a sua casa a esta obra. Muitas mulheres em estado de confusão vieram a esta casa para encontrar companhia carinhosa e compreensiva entre outras mulheres que conheciam o problema, para ouvir da boca dos maridos alcoólicos o que lhes tinha acontecido, para serem aconselhadas sobre a maneira como hospitalizar e tratar os seus obstinados maridos quando tropeçassem de novo.
Muitos homens, ainda atordoados pela sua experiência no hospital, transpuseram o limiar dessa casa para a liberdade. Muitos alcoólicos que ali entraram, saíram com uma resposta. Eles ficavam rendidos perante essa gente alegre que ria das suas próprias desgraças e compreendia as deles. Impressionados por aqueles que os visitavam no hospital, capitulavam mais tarde por completo ao ouvirem num quarto dessa casa, a história dum homem, cuja experiência se assemelhava à deles. A expressão na cara das mulheres, esse algo indefinível no olhar dos homens, a atmosfera estimulante e eletrizante do lugar, conjugavam-se para lhes fazer perceber que tinham encontrado o seu abrigo.
O modo prático de abordar os problemas, a ausência de qualquer forma de intolerância, a informalidade, a genuína democracia, a fantástica compreensão dessas pessoas, eram irresistíveis. Eles e as suas mulheres saiam animados com a idéia do que poderiam agora fazer por um amigo doente e pela sua família. Sabiam que tinham um grande número de novos amigos e era como se conhecessem estes estranhos desde sempre. Tinham presenciado milagres e certamente que um milagre também lhes iria acontecer. Eles tinham-se apercebido da Grande Realidade: o seu Deus de Amor e Criador Todo Poderoso.
Atualmente, esta casa já é pequena para os seus visitantes semanais, cujo número atinge em regra os sessenta ou oitenta. Os alcoólicos vêm de longe e de perto. Famílias percorrem longas distâncias, vindas de cidades vizinhas, para participarem nestas reuniões. Numa localidade situada a trinta milhas há quinze membros dos Alcoólicos Anônimos. Tratando-se de uma cidade grande, pensamos que um dia o número de membros será da ordem das centenas. ***
Mas a vida entre os Alcoólicos Anônimos não se limita à participação em reuniões e a visitas a hospitais. No dia a dia, procura-se resolver questões antigas, ajudar a restabelecer divergências familiares, advogar filhos deserdados perante pais ainda furiosos, emprestar dinheiro e procurar emprego a membros, nos casos em que as circunstâncias o justifiquem. As boas-vindas e a cordialidade são extensivas a todos, por mais desacreditados que estejam ou por mais baixo que tenham caído - desde que a sua intenção seja séria. Distinções sociais, rivalidades e invejas triviais não se levam a sério e são motivo para rir. Como náufragos do mesmo navio, salvos e unidos por um mesmo Deus, com o coração e o espírito atentos ao bem-estar dos outros, as coisas que têm grande importância para outros, deixam de ter grande significado para eles. E como é que poderiam tê-lo?
Em circunstâncias não muito diferentes, está a acontecer o mesmo em muitas cidades do Leste. Numa delas há um hospital muito conhecido para tratamento da adicção ao álcool e drogas. Há seis anos um dos nossos membros esteve lá internado. Muitos de nós sentimos, pela primeira vez, a Presença e o Poder de Deus dentro destas paredes. Temos uma grande dívida de gratidão para com o médico de serviço, porque pondo inclusivamente em risco o seu trabalho, expressou a sua confiança no nosso.
Quase todos os dias, este médico sugere a um dos seus pacientes que receba a nossa visita. Como compreende o nosso trabalho, seleciona com intuição os que estão dispostos e prontos para recuperar numa base espiritual. Muitos de nós, que somos antigos pacientes desse hospital, vamos lá para dar ajuda. Para além disso, nesta mesma cidade do Leste, há reuniões informais, como as que descrevemos, e onde se podem agora ver dezenas de membros. Tal como acontece com os nossos amigos do Oeste, criam-se amizades com a mesma facilidade e encontra--se o mesmo espírito de ajuda mútua. Viaja-se muito entre Leste e Oeste, o que nos faz prever um grande crescimento com este útil intercâmbio.
Esperamos que um dia todo o alcoólico em viagem possa encontrar um grupo de Alcoólicos Anônimos no seu destino. Até certo ponto isto já se tornou uma realidade. Alguns de nós somos vendedores e viajamos de um lado para o outro. Grupos de dois, três e cinco de nós surgiram noutros sítios através do contacto com os nossos dois maiores centros. Aqueles de nós que viajam visitam-nos com a maior frequência possível. Esta prática permite-nos ajudá-los e, ao mesmo tempo, evitar certas distrações sedutoras pelo caminho, que qualquer homem que viaje pode testemunhar. ****
Assim crescemos e, você também pode "crescer", ainda que seja apenas com este livro para o ajudar. Acreditamos e temos esperança de que ele contenha tudo o que precisa para começar.
Sabemos no que está a pensar. Diz para si mesmo: "Estou nervoso e sozinho. Eu não vou conseguir". Mas consegue. Esquece-se de que acaba de encontrar uma fonte de energia muito maior do que a sua própria. Com um tal recurso, conseguir o que nós conseguimos, é só uma questão de boa vontade, paciência e trabalho.
Conhecemos um membro de A.A. que vive numa grande cidade. Estava lá apenas há umas semanas, quando descobriu que aí havia uma maior percentagem de alcoólicos do que em qualquer outra cidade do país. Isto passou-se apenas alguns dias antes de se escreverem estas palavras (1939). As autoridades mostravam-se apreensivas com o problema. Ele entrou em contacto com um eminente psiquiatra, que tinha assumido determinadas iniciativas para cuidar da saúde mental na comunidade. O médico era muito competente e mostrava-se extremamente interessado em adotar qualquer método de trabalho que tratasse o problema. Perguntou então ao nosso amigo o que ele tinha para oferecer.
O nosso amigo descreveu-lhe o nosso método e o efeito foi tão positivo que o médico concordou em experimentá-lo nos seus pacientes e noutros alcoólicos de uma clínica onde trabalha. Foram igualmente tomadas disposições junto do psiquiatra chefe de um grande hospital público para escolher ainda outros casos que faziam parte do contínuo fluxo de miséria que passava regularmente por essa instituição.
Deste modo o nosso diligente companheiro terá em breve muitos amigos. Alguns deles poderão cair para talvez nunca mais se levantarem, mas se a nossa experiência pode servir de critério, mais de metade dos que foram abordados tornar-se-ão membros dos Alcoólicos Anônimos. Quando uns quantos homens nesta cidade se tiverem encontrado a si próprios e descoberto a alegria de ajudar outros a enfrentarem de novo a vida, o processo não parará, enquanto todo o alcoólico dessa cidade não tiver a sua oportunidade de recuperação - se ele puder e quiser.
"Mas", pode ainda dizer: "Não terei o benefício de entrar em contacto com os que escreveram este livro". Quem sabe! Só Deus pode decidir isso, de modo que tem de se lembrar que você depende realmente é Dele. Ele mostrar-lhe-á como criar o grupo de que tanto precisa. *****
É intenção do nosso livro oferecer apenas sugestões. Temos consciência do pouco que sabemos. Tanto a si como a nós, Deus fará constantemente revelações. Peça-Lhe na sua meditação da manhã o que pode fazer em cada dia por aquele que ainda sofre.
As respostas virão se estiver tudo em ordem consigo próprio. Mas é óbvio que não pode transmitir aos outros aquilo que não tem. Empenhe-se para que a sua relação com Ele seja boa e acontecer-lhe-ão coisas extraordinárias a si e a muitos outros. Isto é para nós a Grande Realidade.
Abandone-se a Deus como O concebe. Admita os seus erros perante Ele e perante os seus semelhantes. Limpe os destroços do passado. Dê livremente do que encontrar e junte-se a nós. Estaremos consigo na Comunidade do Espírito e, ao percorrer a Estrada de um Destino Feliz, encontrará seguramente alguns de nós.
Que Deus o abençoe e o guarde - até lá.



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