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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  " O EGO E SUAS MANIFESTAÇÕES "

No Quinto Passo de A.A. encontramos um componente essencial do Programa de Recuperação, ele nos alerta para o fato de que: "todos os Doze Passos nos pedem para atuar em sentido contrário aos desejos naturais, todos desinflam nosso ego" .
Uma profunda deflação do ego foi o caminho indicado ainda no final dos anos 20 pelo eminente Dr. Carl Jung a um alcoólico que o procurou buscando solução para o seu gravíssimo problema. Dizia esse médico "...reconheça a sua impotência pessoal e que se entregue ao Deus que você pensa existir. Terá que tentar isso, é a sua única saída" . Essa deflação do ego é atualmente a pedra angular dos princípios de A.A.
Nesse mesmo sentido o Dr. Tiebout destaca dois fatores essenciais à manutenção da sobriedade, ambos emanados do anonimato conforme suas palavras, duas faces da mesma moeda: primeiro a preservação de um ego reduzido, segundo a presença contínua de humildade ou simplicidade.
Com efeito a Tradição de A.A. coloca o anonimato como "o alicerce espiritual das nossas Tradições" vindo daí a inevitável conclusão de que é preciso "colocar os princípios acima das personalidades" . Segundo o autor esse ego não é um conceito intelectual, mas sim um estado de sentimento  uma sensação de importância  diríamos uma necessidade de ser especial . Vemos hoje por aí afora pessoas tentando ser especiais, e mesmo em nossa irmandade quantas vezes queremos ser especiais pelos mais variados motivos. Aprendemos em A.A. sobre o risco de bajular um alcoólico com honrarias e louvores e por isto evitamos o culto à personalidade. A realimentação do ego é fatal para nós bebedores em recuperação. A Segunda Tradição traz em seu enunciado um antídoto para essa ameaça ao definir que os nossos líderes são apenas servidores de confiança, não tendo poderes para governar.
Portanto, a nossa experiência demonstra que em todos os aspectos da recuperação precisamos manter uma atitude de permanente defesa contra a exacerbação do ego e o serviço em A.A. deve ser uma forma de crescimento espiritual, jamais meio de afirmação pessoal.
Outro aspecto preocupante nos dias atuais foi abordado pelo Dr. Tibeout no artigo que ora compartilhamos. Trata-se da prática infelizmente ainda hoje existente de comemorar-se tempo de sobriedade com bolos e acrescentaríamos, festas. Tomemos as palavras do eminente médico sobre esses episódios acontecidos, segundo ele, nos primeiros dias de nossa então florescente irmandade:
"Uma olhada ao que aconteceu nos mostra o egoísmo, como eu o vejo, em ação. Em primeiro lugar, a pessoa que esteve sóbria por um ano inteiro, tornou-se um exemplo, algo para se admirar. Seu ego naturalmente se expandiu, seu orgulho floresceu e qualquer diminuição de egoísmo, obtida anteriormente, desapareceu. Tendo sua confiança renovada, acabou por tomar um drinque. Tinha sido considerada especial, e reagiu de acordo. Depois, essa parte especial se esvaiu. Nenhum ego é alimentado, estando na condição de lugar comum, e desse modo, o problema de ego desaparece.
Hoje A.A., na prática, está bem consciente do perigo de se bajular alguém com honrarias e louvores. Os riscos da realimentação do ego são reconhecidos. A frase `servidor de confiança constitui-se num esforço para manter baixo o nível do egoísmo, embora alguns servidores tenham problema nesse particular"
Definido como um estado da mente, o egoísmo tira o indivíduo da sua condição de mero participante do contingente da humanidade para alçá-lo à condição de ser especial, conseqüentemente, diferente. A insistência de A.A. no princípio do anonimato individual, tem fundamental importância como antídoto natural para a forte tendência dos alcoólicos em sentirem-se especiais, levando-os para uma região distante da verdadeira humildade, por conseguinte, colocando-os muito próximo da perigosa zona de hiperinflação do ego.
Por outro lado o ego pode levar o indivíduo ao extremo oposto do "sentir-se especial", mergulhando no pântano da autopiedade por não conseguir suportar ou admitir as suas falhas, fraquezas e impotências. O sentimento de inferioridade dele se apossa fazendo-o sentir-se inferior, o último dos mortais, incapaz de alçar seus vôos de grandeza e superioridade.
Em nossa Sexta Tradição encontramos a síntese desses dois aspectos ao lembrar-nos que: "...a maioria dos alcoólicos não passa de idealistas falidos. Quase todos dentre nós tínhamos desejado fazer um grande bem, praticar atos, personificar grandes ideais. Somos todos perfeccionistas que, à falta da perfeição, nos bandeamos para o extremo oposto e aderimos à garrafa e à escuridão".
Aceitar ser o "nada", caminhar no sentido contrário aos desejos naturais, eis o problema de muitas pessoas. Porém, aprender a agir como um nada é entender a importância de ser um simples indivíduo, cidadão do dia-a-dia, integrado à raça humana e fundamentalmente anônimo. Atingir esse nível de compreensão permite desenvolver, aí sim, a verdadeira individualidade, que permite viver uma vida não circunscrita a fatos e circunstâncias, mas estar pronto para aceitar as adversidades como oportunidade para crescimento. Vivendo e deixando viver, livre das injunções do perfeccionismo e das auto-cobranças. Vivendo o hoje intensamente com alegria, plena satisfação consigo mesmo e a certeza de que é capaz de viver um dia por vez. Em A.A. conhecemos esse programa como o plano das vinte e quatro horas, que nos permite construir hoje o nosso amanhã, portanto, sem nos preocuparmos com ele.
Que o anonimato continue sendo o manto protetor de nossa irmandade, proteção contra o ego e suas devastadoras manifestações, permitindo que em A.A. cada indivíduo sinta-se apenas mais um, assimilando o sentimento de "eu não sou nada de especial", assim buscando a verdadeira humildade, salvaguarda contra futuros problemas com relação ao álcool.


"Compreendo o motivo pelo qual você se espanta ao ouvir alguns oradores de A.A. dizerem: `Nosso programa é um programa egoísta. A palavra egoísta geralmente significa que se é ambicioso, exigente e indiferente ao bem-estar dos outros. Claro que o modo de vida de A.A. não apresenta esses traços indesejáveis.
O que querem dizer esses oradores? Bem, qualquer teólogo lhe dirá que a salvação de sua própria alma é a mais alta aspiração que um homem pode ter. Logo, sem salvação – podemos definir assim - ele terá pouco ou nada. Para nós de A.A. a urgência é ainda maior.
Se não podemos ou não queremos alcançar a sobriedade, então estamos desde já verdadeiramente perdidos. Não temos valor para ninguém, nem para nós mesmos, até nos libertar do álcool. Logo, nossa própria recuperação e crescimento espiritual têm que vir em primeiro lugar – uma justa e necessária espécie de preocupação com nós mesmos."

Carta de 1966



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