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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  Alcoólicos Anônimos, começo e crescimento...(Bill W.)

Há 14 anos, realizei uma conferência diante da Sociedade Médica do Estado de New York, por ocasião de sua reunião anual, Para nós, de Alcoólicos Anônimos, esse foi um acontecimento histórico. Representou a primeira oportunidade em que uma das grandes Associações Médicas dos Estados Unidos obteve informações corretas sobre a nossa Irmandade. Os médicos, naquele dia, fizeram mais do que tomar conhecimento a nosso respeito. Eles nos receberam com os braços abertos e autorizaram a publicação de nossa palestra sobre A.A. na sua revista especializada, chamada Journal. Milhares de exemplares dessa conferência de 1944, desde então, têm sido distribuídos ao redor do mundo, convencendo os médicos de todas as partes sobre o valor de A.A. Somente Deus sabe o que essa percepção e atitude generosa têm representado para incontáveis alcoólicos e suas famílias.

A profunda compreensão daqueles membros da Sociedade Médica Sobre Alcoolismo da cidade de New York, movidos pelo espírito de generosidade, convidaram-me a vir aqui esta noite e com o sentimento de eterna gratidão é que trago os cumprimentos de 250 mil alcoólicos recuperados, que compõem agora a nossa Irmandade, em cerca de 7 mil Grupos, aqui e no exterior.*

Talvez a melhor maneira para compreender os métodos e resultados de A.A. seja dar uma olhada nos seus primórdios, no tempo em que a medicina e a religião assumiram uma benéfica parceria conosco. Essa parceria constitui agora o alicerce do sucesso que temos tido desde então.

Seguramente, ninguém inventou Alcoólicos Anônimos. A.A. é uma síntese de atitudes e princípios oriundos da medicina e da religião. Nós, alcoólicos, simplesmente alinhamos essas forças, adaptando-as aos nossos propósitos como Irmandade, de forma que funcione com eficácia. A nossa contribuição foi restabelecer o elo perdido na cadeia da recuperação, a qual agora é tão significativa e promissora para o futuro.

Poucas pessoas sabem que as primeiras raízes de A.A. encontraram solo fértil há 30 anos num consultório médico. Dr. Carl Jung, esse grande pioneiro da psiquiatria, estava falando com um paciente alcoólico. E, de fato, aconteceu o seguinte:

O paciente, um preeminente homem de negócios americano, havia percorrido o caminho típico do alcoólico. Havia esgotado as possibilidades da medicina e da psiquiatria nos Estados Unidos e veio procurar o Dr. Jung como último recurso. Carl Jung havia tratado dele durante um ano e o paciente, a quem chamaremos de Sr. R., sentia-se confiante de que haviam sido descobertas e removidas as causas profundas da sua compulsão para beber. Todavia, em pouco tempo, após receber alta do Dr. Jung, voltou a embriagar-se.

Em estado de desespero, voltou ao consultório de Dr. Jung e perguntou qual era a sua real situação, obtendo a resposta. Em essência, o Dr. Jung lhe disse: "Durante algum tempo, após a sua chegada aqui, acreditei que você seria um daqueles raros casos no qual poderia ocorrer uma completa recuperação. Mas devo dizer-lhe francamente que nunca vi um único caso de recuperação através da psiquiatria em que a neurose fosse tão severa como é em você. A medicina fez tudo o que podia fazer. Essa é a situação."

Uma profunda depressão tomou conta do Sr. R., e ele perguntou: "Não há exceção? Isso é realmente o fim da linha para mim?"

"Bem", respondeu o Dr. Jung, "há algumas exceções, muito poucas. Aqui e ali, de vez em quando, os alcoólicos têm tido o que chamam de experiências espirituais vitais, que parecem ser uma espécie de grande rompimento ou alteração, seguida de uma reorganização emocional. Idéias, emoções e atitudes, as quais constituíam as forças motrizes desses homens, são posta de lado e um novo elenco de conceitos e propósitos começa a dominá-los. Tentei produzir algumas dessa alterações emocionais dentro de você. Com alguns tipos de neuróticos, o método que emprego dá bons resultados, mas nunca obtive êxito num alcoólico com o seu perfil."

"Mas", protestou o paciente, "eu sou um homem religioso e ainda tenho fé". O Dr. Jung respondeu: " A fé religiosa comum não é suficiente. Estou me referindo a uma experiência transformadora, uma conversão espiritual, se preferir assim. Somente posso recomendar-lhe que se coloque num ambiente religioso de sua escolha; que reconheça sua impotência pessoal e que se entregue ao Deus que você pensa existir. O raio de um despertar espiritual poderá atingi-lo. Terá que tentar isso, é a sua única saída". Assim falou um grande e humilde médico.

Para o futuro de A.A., essas palavras foram decisivas. A ciência havia diagnosticado que o Sr. R. estava virtualmente desenganado. As palavras do Dr. Jung haviam-no atingido fundo, produzindo uma grande deflação do ego. Essa deflação profunda é atualmente a pedra angular dos princípios de A.A. Ali, no consultório do Dr. Jung, esse princípio foi aplicado pela primeira vez em nosso benefício.

O paciente, Sr. R., escolheu o Grupo Oxford da época como sua instituição religiosa. Terrivelmente castigado e quase sem esperança, entrou em grande atividade no grupo. Para sua alegria e assombro, prontamente cessou sua obsessão por bebidas.

Retornando à América, o Sr. R. encontrou um velho amigo de escola, um alcoólico crônico. Esse amigo - a quem chamaremos de Ebby - estava prestes a ser internado num hospital psiquiátrico estadual. Nessa conjuntura, um outro elemento vital foi adicionado à síntese de A.A. O Sr. R., alcoólico, conversou com Ebby, também um alcoólico e companheiro de sofrimento. Essa identificação profunda veio a ser o segundo princípio fundamental de A.A. Através dessa ponte de identificação, o Sr. R. transmitiu o veredicto do Dr. Jung de como a maioria dos alcoólicos era desenganada, do ponto de vista médico e psiquiátrico. Ele então apresentou Ebby ao Grupo Oxford, onde meu amigo rapidamente ficou sóbrio.

Meu amigo Ebby conhecia bem minha situação. Eu havia percorrido o itinerário familiar. No verão de 1934, meu médico, William D. Silkworth, deu-se por vencido e desenganou-me. Ele foi obrigado a me dizer que eu era vítima de uma compulsão neurótica para beber; que nenhum tratamento, educação ou força de vontade poderia detê-la. Acrescentou ainda que eu era vítima de uma desordem física que poderia ser de natureza alérgica; uma disfunção física que provocaria dano cerebral, a insanidade ou a morte. Aqui estava novamente o deus da ciência - que era então meu único Deus - esvaziando-me o ego. Eu estava pronto para receber a mensagem que em breve viria por intermédio do meu amigo alcoólico, Ebby.

Ele veio à minha casa num dia de novembro de 1934 e sentou-se à mesa da cozinha enquanto eu bebia. "Não, obrigado", não queria nenhuma bebida, disse-me. Muito surpreso, perguntei-lhe o que havia acontecido. Olhando-me de frente, disse: "Tenho religião". Isso foi demais: uma afronta à minha formação científica. Tão polidamente quanto possível, perguntei-lhe que tipo de religião ele tinha.

Então me contou de suas conversas com o Sr.R. e como o alcoolismo realmente era desesperador, segundo o Dr. Carl Jung. Acrescentando-se ao veredicto do Dr. Silkworth, esta era a pior notícia possível. Fui duramente atingido. Em seguida, Ebby enumerou os princípios aprendidos no Grupo Oxford. Embora aquela boa gente às vezes lhe parecesse agressiva demais, não poderia encontrar nenhuma fala na maioria dos seus ensinamentos básicos. Afinal. esses ensinamentos tornaram-no sóbrio.

Em essência, aqui estão, tal como o meu amigo os aplicava em 1934:

1. Ebby admitiu que era impotente para dirigir sua própria vida.

2. Tornou-se honesto consigo mesmo, como nunca fora antes; fez um "exame de consciência".

3. Fez uma rigorosa confissão de seus defeitos pessoais e, assim, deixou de viver sozinho com seus problemas.

4. Inventariou suas relações distorcidas com outras pessoas, visitando-as para fazer as reparações possíveis.

5. Resolveu dedicar-se a ajudar outras pessoas necessitadas, sem a usual necessidade de prestígio ou ganho material.

6. Através da meditação, procurou a orientação para a sua vida e ajuda para praticar esses princípios de comportamento por toda a vida.

Para mim, tudo isso soava ingênuo. Contudo, meu amigo continuou o singelo relato do que havia acontecido. Contou-me que, praticando esses ensinamentos, tinha parado de beber. Medo e solidão desapareceram e havia adquirido uma considerável paz de espírito. Sem rigorosas disciplinas ou grandes resoluções, essas mudanças começaram a surgir a partir do momento em que se pôs de acordo com esses princípios. Sua libertação do álcool parecia ser um produto secundário. Embora sóbrio há poucos meses, sentia-se seguro, pois agora tinha uma resposta básica. Evitando prudentemente os debates, despediu-se e partiu. A centelha que se converteria em Alcoólicos Anônimos tinha sido acesa. Um alcoólico havia estado falando com outro, estabelecendo uma profunda identificação comigo e colocando os princípios da recuperação ao meu alcance.

A princípio, a história do meu amigo produziu uma confusão de emoções desencontradas. Eu estava indeciso e revoltado ao mesmo tempo. Minha forma solitária de beber continuou por mais algumas semanas, mas não pude esquecer sua visita. Vários assuntos ocorreram em minha mente: primeiro, que era estranho e imensamente convincente o seu estado de evidente libertação; segundo, que ele havia sido desenganado por médicos competentes; terceiro, que esses velhos preceitos, quando transmitidos por ele, tocaram-me com grande força; quarto, que eu não poderia, nem queria, seguir adiante com nenhum conceito de Deus e que não faria nenhum sentido para mim, nenhuma conversão. Resumindo, tentando brincar com meus pensamentos, descobri que já não podia fazê-lo. Pelos laços da compreensão, sofrimento e singela verdade, um outro alcoólico me havia enlaçado a ele. Não podia me desligar.

Uma manhã, após beber, tive uma inesperada revelação. E perguntei: "Quem é você para escolher a forma como recuperar-se? Mendigos não têm o direito de escolher. Suponha que a medicina diga que você tem um carcinoma. Você não iria tratá-lo com cosméticos. Tomado de medo, rapidamente suplicaria ao médico para dizimar aquelas diabólicas células cancerosas. E se ele não pudesse detê-las e você acreditasse que uma conversão religiosa poderia fazê-lo, o seu orgulho seria posto de lado. Se preciso fosse, por-se-ia de pé em praça pública e chorando diria Amém junto a outras vítimas. Então, qual a diferença entre você e uma vítima de câncer? Seu corpo está se desintegrando. Do mesmo modo, desintegra-se a sua personalidade e a sua obsessão leva-o à loucura ou a funerária. Vai experimentar a fórmula do seu amigo ou não?"

Naturalmente, experimentei. Em dezembro de 1934, compareci ao Hospital Towns, de New York. Ao meu ver, meu velho amigo, Dr. William Silkworth, balançou a cabeça, incrédulo. Tão logo me liberei dos sedativos e do álcool, senti-me terrivelmente deprimido. Ebby veio me visitar. Embora me agradasse vê-lo, retraí-me um pouco. Temia a evangelização, mas isso não aconteceu. Após conversar um pouco, pedi-lhe que falasse novamente com clareza da sua fórmula de recuperação. Mansa e calmamente, sem exercer nenhuma pressão, explicou-me E então partiu.

Deitado e em grande conflito , mergulhei na mais negra depressão que havia sofrido. Por um momento, meu obstinado orgulho foi esmagado. E exclamei: "Agora estou pronto para fazer o mesmo que o meu amigo Ebby". Embora não esperasse nada, fiz esse frenético apelo: "Se existe Deus, que se mostre por inteiro". O resultado foi instantâneo, elétrico, indescritível. O quarto iluminou-se de uma brancura intensa. Entrei em êxtase e vi-me numa montanha. Um vento intenso soprava, envolvendo-me e penetrando-me. Para mim, o vento não era feito de ar, mas de espírito. Veio-me fulgurante à mente um pensamento fantástico: "Você é um homem livre". E então o estado de êxtase cessou. Ainda deitado na cama, descobri dentro de mim um novo mundo de consciência, inundado da "presença". Unido com o universo, uma grande paz caiu sobre mim. "Então esse é o Deus dos pregadores, essa é a grande realidade." Mas, rapidamente, recobrei a razão e minha educação
formal assumiu o comando. Eu deveria estar louco. Fiquei terrivelmente assustado.

Dr. Silkworth, um santo médico como nunca houvera igual, veio para ouvir-me contar hesitante esse fenômeno. Após interrogar-me cuidadosamente, assegurou-me de que não estava louco e que talvez eu tivesse tido uma experiência psíquica que poderia resolver o meu problema.Como um homem da ciência cético que era até então, essa foi uma resposta compreensiva e sagaz. Se tivesse dito "alucinação", eu poderia agora estar morto. A ele dedico minha eterna gratidão.

A boa sorte me perseguia. Ebby me trouxe um livro intitulado Variedades da Experiência Religiosa e eu o devorei. Escrito por William James, psicólogo, sugere que a experiência da conversão pode ter uma realidade objetiva. A conversão modifica a motivação e, de forma quase automática, possibilita uma pessoa ser e fazer o que era antes impossível. Interessante foi o fato de que as experiências de conversão ocorreram na maioria das vezes com pessoas que sofreram derrota total em determinada etapa da vida. O livro mostrava certamente essas variedades. Mas, se essas experiências eram brilhantes ou embaçadas, súbitas ou graduais, de caráter teológico ou intelectual, tais conversões tinham um denominador comum, operavam mudanças em pessoas completamente derrotadas. Assim afirmava William James, o pai da moderna psicologia. Após compreender esses fatos eu venho tentando aplicá-los.

Para os bêbados, a resposta óbvia era a deflação profunda, e quanto maior melhor. Isso me parecia claro como a água. Eu tive a formação de engenheiro e a visão autorizada e a visão autorizada do psicólogo significou tudo para mim. Esse renomado cientista da mente veio confirmar tudo que o Dr. Jung havia dito e ele havia documentado exaustivamente tudo o que havia afirmado. Desse modo, William James confirmou os fundamentos pelos quais eu e muitos outros temos nos mantido sóbrios todos esses anos. Eu não tenho tomado nenhuma bebida alcoólica desde 1934.

Armado com absoluta certeza e animado pelo meu inato desejo de poder, lancei-me à tarefa de curar alcoólicos por atacado. Era duplamente impulsionado e as dificuldades nada significavam. Não me apercebia da enorme presunção do meu projeto. Recrutei à força durante seis meses e a minha casa se encheu de alcoólicos. Discursos bombásticos não produziram o menor resultado. (Para meu desapontamento, Ebby, meu amigo da conversa à mesa da cozinha e que estava mais doente do que eu supunha, demonstrou pouco interesse nesse alcoólicos. Esse fato pode ter sido a causa de suas recaídas, embora tenha eventualmente se recuperado.) Mas tinha descoberto que trabalhar com outros alcoólicos era de enorme importância sobre a minha própria sobriedade. Contudo, nenhum dos meus candidatos estava conseguindo ficar sóbrio. Por quê?

Pouco a pouco, os erros da minha abordagem tornaram-se claros. Algo semelhante a um fanático religioso, obcecado com a idéia de que todos teriam que ter uma "experiência espiritual" como a minha. Eu esqueci que James havia dito existir uma grande variedade de experiências transformadoras. Meus companheiros alcoólicos olhavam-me incrédulos ou zombavam sobre o meu "clarão". Sem dúvida, isso arruinava a forte identificação que era tão necessária estabelecer com eles. Tornei-me um evangelista. Obviamente teria que mudar a minha abordagem. O que havia acontecido comigo em seis minutos seriam necessários seis meses com os outros. Tive que aprender que as palavras eram apenas palavras e doravante teria que ser prudente.

Nessa conjuntura - a primavera de 1935 -, o Dr. Silkworth advertiu-me que eu havia esquecido tudo a respeito da deflação profunda do ego. Havia me transformado num pregador. E me disse: "Por que você não coloca a dura realidade da medicina a essas pessoas antes de mais nada? Esqueceu o que disse William James sobre a profunda deflação do ego? Dá-lhes os fatos médicos, com toda clareza. Não lhes conte do "clarão". Enumere extensivamente os seus sintomas, a fim de estabelecer uma profunda identificação. Se você agir dessa forma, os seus candidatos poderão vir a adotar os singelos princípios morais que você vem tentando ensinar a eles". Aqui estava a contribuição vital para a síntese. E uma vez mais foi feita por um médico.

Incontinente, substituiu-se a ênfase atribuída ao pecado pela enfermidade, a doença fatal, o alcoolismo. Nós citávamos a opinião de vários médicos que asseguravam de que o alcoolismo era mais letal que o câncer e que consistia numa obsessão mental acompanhada de crescente sensibilidade física. Esses eram os nossos fantasmas gêmeos. Loucura e morte. Apoiávamo-nos muito na declaração do Dr. Jung de quão desesperadora poderia ser essa situação e logo aplicávamos uma dose devastadora de conhecimento a todo alcoólico ao nosso alcance. Para o homem moderno, a ciência é onipotente, virtualmente um Deus. Por isso, se a ciência proferir uma sentença de morte a um alcoólico e nós colocarmos esse veredicto terrível numa transmissão constante ao alcoólico, uma vítima falando a outra, pode abalar totalmente o ouvinte. Então o alcoólico pode voltar-se para o Deus dos teólogos, simplesmente por não ter mais lugar para onde ir. Por mais
verdadeiro que fosse esse estratagema, certamente continha o seu lado prático. Imediatamente todo o ambiente modificou-se. As coisas começaram a melhorar.

Passados alguns meses, fui apresentado ao Dr. Robert S., um cirurgião de Akron. Era um alcoólico em péssimo estado. Desta vez não fiz nenhum sermão. Contei-lhe da minha experiência e do que conhecia sobre o alcoolismo. Porque nos entendemos e precisávamos um do outro, estabeleceu-se uma reciprocidade pela primeira vez. Esse encontro marcou o fim da minha postura de pregador. Essa idéia da necessidade mútua, acrescida ao ingrediente final da síntese da medicina, religião e da experiência do alcoólico constitui agora Alcoólicos Anônimos.

"Dr, Bob", um caso muito grave, alcançou a sobriedade e, desde então, nunca mais tomou um trago até a sua morte, em 1950. Ele e eu logo começamos a trabalhar com um grupo de alcoólicos que encontramos no Hospital Municipal de Akron. Quase imediatamente logramos uma recuperação, seguida de outras. O primeiro Grupo de A.A. havia sido formado. Retornando a New York no outono de 1935, dessa vez com todos os ingredientes da recuperação, um outro grupo rapidamente tomou forma nesta cidade.

Todavia, o progresso dos Grupos de Akron e New York foi dolorosamente lento nos anos seguintes. Centenas de casos foram trabalhados, mas somente poucos responderam positivamente. Entretanto, no final de 1937, quarenta pessoas estavam sóbrias e começamos a nos sentir mais seguros e confiantes. Vimos que tínhamos uma fórmula poderosa, que levada de um alcoólico a outro, mentalmente produz, numa reação em cadeia, um número expressivo de recuperações. Então veio a pergunta: "Como podemos transmitir nossas boas novas aos milhões de alcoólicos na América e em todas as partes do mundo?" A resposta parecia estar em uma literatura específica, que detalharia os nossos métodos. Uma outra necessidade era uma forte divulgação publicitária, a qual nos traria uma grande quantidade de casos.

Na primavera de 1939, mossa Irmandade havia produzido um livro intitulado Alcoólicos Anônimos. Nesse volume, nossos métodos eram detalhadamente descritos. Para obter uma maior clareza e transparência, o programa de viva-voz que me foi transmitido pelo meu amigo Ebby, foi ampliado para conter o que chamamos agora em A.A. de "Doze Passos Sugeridos Para a Recuperação". Este era o cerne do nosso livro. Para dar substâncias ao métodos de A.A., nosso livro incluiu vinte e oito histórias pessoais de recuperação. Esperávamos que essas histórias pudessem nos identificar plenamente com os nossos leitores distantes, o que certamente vem ocorrendo. E como nos havíamos retirado do Grupo Oxford, nossa Irmandade adotou o título do nosso livro (Alcoólicos Anônimos) como seu nome. O advento desse livro constitui um marco histórico. Nesses vinte anos, esse texto básico teve uma distribuição de aproximadamente 400.000 cópias. Incontáveis alcoólicos
têm alcançado a sobriedade sem outra ajuda a não ser a leitura desse livro e a prática dos seus princípios.

Nossa segunda necessidade foi a publicidade. E estava prestes a aparecer. Fulton Oursler, destacado editor e escritor, publicou um artigo a nosso respeito na revista Liberty, em 1939. No ano seguinte, John D. Rockefeller Jr. deu um jantar para A.A., que foi amplamente divulgado. No ano seguinte, 1941, foi publicado um artigo no Saturday Evening Post. Essa publicação sozinha nos trouxe milhares de novas pessoas. Na medida em que crescíamos, também aumentávamos a eficiência. O índice de recuperação estava bem alto. De todos aqueles que realmente tentavam A.A., um grande percentual obteve êxito imediato; outros tardavam um pouco e ainda outros, se ficavam conosco, finalmente melhoravam bastante. Nosso alto índice de recuperação tem se mantido constante, incluindo aqueles que primeiro escreveram suas histórias na edição original de Alcoólicos Anônimos. De fato, 75% dessas pessoas alcançaram finalmente a sobriedade. Somente 25% morreram ou
ficaram loucos. A maioria daqueles que ainda vivem tem permanecido sóbrios em média vinte anos.

Desde os nossos primeiros dias, temos sido procurados por inúmeros alcoólicos, que se aproximam de nós e logo se afastam - talvez três em cada cinco, atualmente. Mas, felizmente, aprendemos que a maioria deles volta mais tarde, contanto que não sejam demasiadamente psicóticos ou tenham sofrido sérios danos cerebrais. Uma vez que tenham aprendido dos lábios de outros alcoólicos que são vítimas de uma doença quase sempre fatal, continuar bebendo somente lhes causará mais transtornos. Finalmente, são obrigados a voltar para A.A.; têm que fazê-lo ou morrem. Algumas vezes isso acontece anos após o primeiro contato. O índice final de recuperação é, por essa razão, mais alto do que pensávamos que poderia ser no princípio.

Outra tendência que se tem observado nos anos recentes tem sido fonte de muito conforto. Em nossos primeiros dias cuidávamos somente daqueles casos terminais. Não se podia fazer nada até que o álcool quase destruísse sua vítima. Mas, nos dias atuais, nós não precisamos esperar que tais sofredores atinjam esse nível profundo. Agora podemos ajudá-los a ver onde têm a cabeça antes de alcançarem o fundo do poço. Por conseguinte, metade dos membros atualmente em A.A. é composta de casos mais suaves. Muito freqüentemente, a família, o trabalho e a saúde das vítimas estão relativamente intactos. Até mesmo os casos em potencial que nos procuram hoje em dia são pessoas que sofreram apenas um pouco, Aqui e no exterior, nossa Irmandade está fazendo muito progresso para superar as barreiras de raça, credo e circunstância próprias de cada cultura.

Contudo, temos que refletir humildemente que Alcoólicos Anônimos somente arranhou a superfície do problema total do alcoolismo. Aqui nos Estados Unidos, temos ajudado a conseguir a sobriedade somente a cinco por cento de uma população alcoólica de 4.500.000 pessoas.

As razões são estas: Não podemos nos relacionar com alcoólicos que são demasiado psicopatas ou sofreram sérios danos cerebrais; muitos alcoólicos não gostam dos nossos métodos e estão à procura de formas distintas e mais fáceis; milhões de alcoólicos ainda se apegam à racionalização de que seus problemas estão relacionados a circunstâncias pessoais e, assim, a culpa recai sobre outras pessoas. Conseguir que o alcoólico na ativa ou alcoólico em potencial admita que é vítima de uma doença progressiva e freqüentemente fatal é uma tarefa muito difícil. Esse é o grande problema com que nos defrontamos, quer sejam médicos, religiosos, familiares ou amigos. Contudo, temos muitos motivos para ter esperanças. Um dos maiores motivos reside no que os médicos estão fazendo e deverão continuar a fazer. Talvez alguns de vocês estejam perguntando: "Como podemos ajudar com mais eficiência?"

Nós, de A.A., não podemos oferecer a opinião da autoridade profissional, mas sentimos que podemos dar algumas sugestões de grande ajuda. Somente há poucos anos, o bêbado era na maioria das vezes um incômodo. O médico e o hospital podiam minorar-lhe a brutal ressaca. Um pequeno alívio podia ser proporcionado à família e poucas coisas mais podia ser feita.

Agora a situação é diferente. Próximo a cada cidade e vila deste país existe um Grupo de A.A. Todavia, com bastante freqüência, o alcoólico não quer experimentar A.A. Exatamente aí é que o médico da família pode intervir de forma decisiva. Ele é a pessoa a quem chamam quando os problemas reais começam a aparecer. Depois de desintoxicar a vítima do álcool e tranqüilizar a família, pode dizer francamente ao alcoólico o que o aflige. Pode fazer por esse paciente a mesma coisa que o Dr. Carl Jung fez pelo "Sr. R." e o Dr. Silkworth fez por mim. Isso precisa ficar claro para o relutante bêbado ao dizer-lhe que contraiu uma doença progressiva e quase sempre fatal, que não pode recuperar-se sozinho e que necessita de muita ajuda. Devido ao grande conhecimento atual das deficiências metabólicas e emocionais do alcoólico, os médicos da família podem documentar as suas afirmações e diagnósticos de uma forma mais convincente do que
podiam nossos médicos pioneiros.

É muito gratificante saber que hoje em dia a matéria alcoolismo é objeto de inúmeros cursos em nossas escolas médicas. Em qualquer caso, é fácil obter informações acerca do alcoolismo. Organizações, como o Conselho Nacional Sobre o Alcoolismo (desde 1962, a Escola Rutgers de Estudos do Álcool), mais as inúmeras clínicas estatais de reabilitação e a ajuda dos médicos clínicos, são forças disponíveis de utilíssimo conhecimento. Assim munido, o médico da família pode - como dizemos em A.A. - "amaciar" o alcoólico de forma tal que ele esteja disposto a procurar a nossa Irmandade. Ou, se resiste ao A.A., pode ser encaminhado a uma clínica, ao psiquiatra ou a um religioso compreensivo. Nesse estágio, o mais importante é que ele reconheça sua doença e que comece a fazer algo a respeito.

Se o resultado do médico da família é cuidadosamente realizado, os resultados são muitas vezes imediatos. Se a primeira abordagem não funciona, a chances melhorarão através de abordagens persistentes e sucessivas que trarão resultados. Esses procedimentos simples não roubam ao médico da família muito tempo nem serão necessariamente dispendiosos ao bolso do paciente. Um esforço combinado dessa natureza, feito pelo médico da família, seja onde for, não falha e conquista excelentes resultados. De fato, o resultado do trabalho dessa espécie e do médico da família tem sido grande. E por isso, gostaria de registrar nossos agradecimentos especiais a esses médicos.

Agora, dirigimo-nos ao especialista, normalmente o psiquiatra. Estou alegre em dizer que os psiquiatras, em grande número, estão encaminhando alcoólicos para A.A. - até os psiquiatras que são mais ou menos especialistas em alcoolismo. Sua compreensão a respeito de alcoólicos agora é grande. A paciência e tolerância conosco e com A.A. tem sido monumental.

Em 1949, por exemplo, a Associação Psiquiátrica Norte-americana permitiu-me apresentar uma palestra sobre A.A. perante uma sessão do seu Encontro Anual. Como esses doutores são especializados em desarranjos emocionais - e o alcoolismo é certamente um deles -, a atitude deles tem sempre me parecido um maravilhoso exemplo de humildade e generosidade refinadas. O tópico dessa palestra tem tido enorme repercussão em todo o mundo. Estou certo de que todos nós, de A.A., nunca avaliamos corretamente a importância desse fato. Costumava ser moda entre alguns de nós depreciar a psiquiatria; a ajuda médica de qualquer espécie, salvo a quem meramente era necessária à desintoxicação. Evidenciávamos as deficiências da psiquiatria e da religião. Estávamos sempre prontos a bater no peito e dizer: "Olhem para nós. Conseguimos, mas eles não." E por essa razão é com grande alívio que posso registrar que essa atitude está desaparecendo. Os membros
atentos de A.A. em todas as partes compreendem que os psiquiatras e os médicos ajudaram a conduzir a nossa Irmandade desde o primeiro momento e têm segurado nas nossas mãos desde então.

Nós também compreendemos que as descobertas da psiquiatria e da bioquímica têm enormes implicações para nós, alcoólicos. Na verdade, essas descobertas são atualmente bem maiores do que meras implicações. Seu presidente e outros pioneiros, dentro e fora desta Irmandade, vêm obtendo notáveis resultados há muito tempo e muitos dos seus pacientes têm conseguido boas recuperações sem qualquer ajuda de A.A. Devo assinalar - como destaque - que alguns dos métodos de recuperação empregados fora de A.A. estão em completa contradição com os princípios e a prática de A.A. Todavia, nós de A.A., devemos aplaudir o fato de que algumas dessas tentativas vêm alcançando crescentes sucessos.

Nós sabemos também que a psiquiatria freqüentemente pode liberar-nos da pesada carga neurótica que aflige a muitos de nós após ficarmos sóbrios em A.A. Sabemos que os psiquiatras têm nos enviado incontáveis alcoólicos, que de outra forma jamais chegariam a A.A. e, igualmente, muitos clínicos têm feito o mesmo. Vemos claramente que, somando nossos esforços, podemos fazer juntos o que nunca conseguiríamos em separado ou através da crítica míope e da competência.

Por essa razão gostaria de fazer uma promessa a toda comunidade médica, de que A.A. sempre estará disposta a cooperar; que A.A. nunca passará por cima da medicina; que nossos membros - quando chamados - ajudarão nos grandes empreendimentos da educação, reabilitação e pesquisa, os quais estão agora bastante adiantados e são muito promissores.

Tão ameaçador é o espectro crescente do alcoolismo que nada menos que a totalidade dos recursos da nossa sociedade pode esperar vencer ou diminuir a força do nosso perigosíssimo adversário, o álcool. A sutileza e o poder alcoólico da enfermidade estão presentes em cada página da história da humanidade - e nunca revelada tão claramente e tão destrutivamente como neste século em que vivemos.

Quando o conhecimento e a compreensão estiverem combinados e maciçamente aplicados, nós, de A.A., sabemos que encontraremos os nossos amigos da medicina na primeira linha de combate - exatamente onde tantos de vocês hoje já estão a postos.

Quando essa sinergia benigna e cooperativa estiver em plena ação, teremos certamente um grande amanhã para a imensa multidão de homens e mulheres que sofrem de alcoolismo e de suas sombrias e terríveis conseqüências.

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Declaração sobre o alcoolismo

A Associação Médica Norte-americana identifica o alcoolismo como uma doença complexa, com componentes biológicos, psicológicos e sociológicos e reconhece a responsabilidade da medicina em relação às pessoas atingidas. A Associação reconhece que são múltiplas as formas de alcoolismo e que cada paciente deveria ser avaliado e tratado de uma forma total e individualizada.

Casa dos Delegados

Associação Médica Norte-americana, 1971



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