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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  A misteriosa origem da Oração da Serenidade

Na construção de Alcoólicos Anônimos, a Oração da Serenidade foi o mais valioso tijolo, de fato foi a pedra angular. (Bill W.)

A Oração da Serenidade está profundamente enraizada na vida e no espírito de Alcoólicos Anônimos.

A descoberta de suas origens, de sua autoria, tem sido verdadeiro jogo de esconde-esconde entre pesquisadores dentro e fora de A. A.

A história de sua chegada à nossa Irmandade, há 50 anos, é conhecida. É Bill W. quem conta: “Pouco antes da saída de Ruth, o jornalista Jack, um membro de A. A. de Nova Iorque, chamou nossa atenção para um recorte de jornal, cujo conteúdo viria a ser famoso. Tratava-se de uma notícia da seção de necrologia de um jornal de Nova Iorque. Sob o relato comum de uma pessoa falecida apareciam as seguintes palavras: Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras’.”(1)

Todos, em nosso escritório da Rua Vesey, em Manhattan, ficaram vivamente impressionados com o conteúdo e sabedoria da oração. Nunca tínhamos visto tanto de A. A. em tão poucas palavras. (2)

Alguém sugeriu imprimir a oração num pequeno cartão e distribuí-la com a correspondência expedida pela Sede Mundial.

Ruth Hock, nossa primeira secretária (não-alcoólica), contatou Henry S., um membro de A. A. de Washington, profissional de artes gráficas, perguntando-lhe quanto custaria a impressão de certa quantidade daquela oração. A entusiástica resposta de Henry foi a impressão de 500 cópias da oração remetidas à Sede Mundial com a seguinte observação: Sou apenas um miserável quando bebo... assim, naturalmente, nada cobrarei por qualquer serviço desta natureza.

... com uma velocidade surpreendente, a Oração da Serenidade alcançou uso geral e tomou seu lugar junto às nossas orações favoritas, a Oração do Pai-Nosso e a Oração de São Francisco. (3)

Desta forma, uma oração que ninguém sabia de onde viera, impressa numa simples notícia do óbito de uma pessoa desconhecida, tornou-se uma prece de uso diário por milhares de membros de A. A. em todo o mundo.

Apesar de anos de pesquisa por numerosos estudiosos, a exata origem da Oração da Serenidade continua envolta num véu de mistério. Além disso, sempre que um pesquisador parece ter encontrado a fonte definitiva, outro surge para refutá-lo e, ao mesmo tempo, acrescentar novos e intrigantes detalhes.

O Dr. Reinhold Nieburr reivindica para si a autoria da oração. Ele declarou, em numerosas ocasiões, ter escrito a oração como introdução para um sermão sobre Cristianismo Prático. Mas o próprio Dr. Nieburr, posteriormente, acrescentou um toque de dúvida à sua reivindicação quando declarou a um dos entrevistadores: Naturalmente, é possível ter havido algo parecido durante anos ou mesmo séculos, mas eu não penso assim. Acredito honestamente ter escrito a oração.

Durante a II Guerra, com permissão do Dr. Nieburr, a oração foi impressa e distribuída às tropas pelo governo dos Estados Unidos. Desde então ela tem sido amplamente impressa pelo Conselho Nacional de Igrejas (dos Estados Unidos), assim como por Alcoólicos Anônimos.

O Dr. Nieburr é bastante preciso ao sugerir ter havido versões semelhantes durante séculos.

Ninguém pode dizer com segurança quem primeiro escreveu a Oração da Serenidade. Alguns dizem ter ela vindo dos antigos gregos; outros acham que ela saiu da pena de um poeta inglês anônimo; ainda outros afirmam ter sido ela escrita por um oficial da Marinha Americana. (4). Ainda existem outros que vão mais longe, atribuindo sua autoria a antigos textos sânscritos, a Aristóteles, São Tomaz de Aquino, Santo Agostinho e Spinoza. Um membro de A. A. encontrou no filósofo romano Cícero os Seis Defeitos do Homem, entre os quais se incluiu: A tendência de preocupar -se com coisas que não podemos mudar ou corrigir.

Ninguém encontrou, realmente, o texto da oração entre os escritos dessas supostas fontes originais. Tão antigos quanto a citação de Cícero, acima, são os temas da oração: aceitação, coragem para mudar o que pode ser mudado e deixar fluir livremente o que não temos habilidade para modificar. Procurar a origem definitiva da oração é uma ilusão. Por exemplo, em julho de 1964, A. A. Grapevine (Revista Internacional de A. A. publicada em inglês, nos Estados Unidos) recebeu o recorte de um artigo publicado em Paris, no “Herald Tribune”, pelo correspondente daquele jornal em Koblenz, na Alemanha Ocidental, onde se dizia o seguinte: No saguão ligeiramente sombrio de um hotel usado ilegalmente, com vista para o Rio Reno, em Koblenz, há uma tabuleta com estas palavras: Deus dai-me a imparcialidade para aceitar as coisas que não posso modificar; a coragem para alterar as coisas que posso alterar; e a sabedoria para distinguir umas das outras.

Estas palavras eram atribuídas pelo correspondente a um pietista (partidário do piatismo: movimento de intensificação da fé nascido na Igreja Luterana alemã no século XVIII) Friedrich Oetinger (1702-1782). A placa estava afixada à parede de entrada do quartel onde as modernas tropas e companhias de comando do novo exército alemão eram treinadas em princípio de administração... conduta de soldados-cidadãos de um estado democrático.

Aqui, finalmente, pensaram os pesquisadores, membros de A. A., estava a evidência concreta - texto, autor e data - da fonte primitiva da Oração da Serenidade. Esta convicção permaneceu indiscutida por quinze anos. Então, em 1979, Peter T., de Berlim, mandou para Beth K., do escritório de Serviços Gerais de Nova Iorque, um material capaz de jogar por terra a autenticidade da autoria da oração do século XVIII. Da mesma forma, acrescentava dúvidas sobre a origem daquela placa.

A primeira forma da oração, responde Beth, originou-se do filósofo romano Boécio (480-524 A.C.), autor do livro ‘Consolações da Filosofia’. A essência da oração já era usada desde então por pessoas religiosas, perseguidas primeiras pelos ingleses, depois pelos puritanos da Prússia... depois usada por pietistas do sudoeste da Alemanha... e, então, pelos membros de A.A. ... e através deles, na Alemanha Ocidental depois da II Guerra Mundial.

Além disso, continua Beth, depois da guerra, um professor universitário do Norte da Alemanha, Dr. Theodor Wilhelm, o qual deu início ao renascimento espiritual na Alemanha Ocidental, adquiriu a breve oração de um soldado canadense. Ele escreveu um livro no qual incluiu a oração sem mencionar seu autor. O resultado foi o aparecimento da oração em diversos lugares diferentes, tais como vestíbulos de quartéis, escolas e outras instituições. Qual era o pseudônimo do professor? Friedrich Oetinger, o pietista do Século XVIII. Wilhelm certamente escolheu Oetinger como nome suposto em virtude da admiração pelos seus ancestrais do Sul da Alemanha.

Retomando ao ano de 1975, outra funcionária do Escritório de Serviço Gerais, de Nova Iorque, Anita R., folheando alguns volumes numa livraria de Nova Iorque, encontrou um belo cartão, luxuosamente adornado, no qual estava impresso: Deus Todo-Poderoso, Nosso Pai Celestial, dai-nos Serenidade para aceitar o que não deve ser modificado; coragem para modificar o que deve ser modificado, e sabedoria para distinguir uma coisa da outra, por Jesus Cristo, Nosso Senhor.

O cartão tinha vindo de uma livraria da Inglaterra, chamava a prece de Oração do General e informava ter ela aparecido no Século XIV.

Existem, ainda, outras reivindicações da autoria da Oração da Serenidade e, não há dúvida, outras descobertas virão. De qualquer modo, a esposa do Dr. Nieburr afirmou, numa entrevista, ser seu marido, definitivamente, o autor da oração e ter ela visto o papel onde a escreveu e que seu esposo - agora que existem muitas versões da oração - usava e preferia a seguinte fórmula: Deus, dai-me a graça de aceitar com serenidade as coisas que não podem ser modificadas, coragem para modificar as coisas que podem ser modificadas e sabedoria para distinguir uma das outras.

Todas essas pesquisas, desafios e mesmo mistérios perdem qualquer significado quando comparados com o fato de que, por 50 anos, a oração tornou-se profundamente enraizada no coração, na alma, na mente, no viver e na filosofia de A. A., de modo que quase se poderia pensar ter a oração se originado da própria experiência de A.A.

Bill W. enfatizou isto anos atrás agradecendo a um amigo de A. A. por uma placa na qual estava escrita a oração: Na construção do A. A., a Oração da Serenidade foi o mais valioso tijolo do edifício, de fato foi a pedra angular.

E falando em pedra angular, mistérios e coincidências, o prédio onde funciona hoje o Escritório de Serviços Gerais (dos Estados Unidos) está localizado na Rua 120, em Nova Iorque, entre Riverside Drive e a Broadway, onde fica o Seminário Teológico União. E chamado Praça Dr. Reinhold Nieburr.

(Fonte: Box 459.)

Notas: (1) A.A. atinge a maioridade, p. 175

(2) Idem

(3) Idem

(4) Idem



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