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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  ALCOOLISTAS ANÔNIMOS - UMA SOCIEDADE DE FINS MERITÓRIOS

Berb faz seu primeiro esforço na divulgação de A.A.
Íntegra do Artigo Publicado em "O GLOBO" de 16 de outubro de 1947.

"Recebemos uma carta sumamente expressiva de um ex-bêbado, que é hoje membro da "Sociedade Alcoolistas Anônimos", agremiação cuja finalidade é auxiliar os que habitualmente se embriagam a libertar-se do terrível vício. Por se tratar de um depoimento verdadeiramente significativo, que poderá contribuir para a redenção de muitos infelizes, resolvemos publicá-lo. E o que fazemos a seguir, deixando, porém, de divulgar o nome do autor."
Ilmo. Sr. Redator
Recentemente em entrevista a O GLOBO, o Prof. A. Botelho, chefe de um dos serviços ligados à Saúde Pública teve ocasião de mencionar a sociedade que existe nos Estados Unidos com o nome de "Alcoolistas Anônimos". Nós desejamos informar aos leitores de O GLOBO que existe atualmente no Rio de Janeiro um pequeno mas dinâmico núcleo de "Alcoolistas Anônimos". Para aqueles leitores que possam ter algum interesse nesta sociedade aqui vão as informações:
Alcoolistas Anônimos é uma sociedade composta de pessoas que tendo sido bebedores inveterados conseguiram livrar-se do vício e que trabalham em conjunto, com o fito de auxiliarem¬se mutuamente a se manterem sóbrios. Sendo ex-bêbados, não entramos em discussão com aqueles que bebem normalmente, com os fabricantes de bebidas alcoólicas, nem somos contra estas em si. Não temos também como grupo qualquer ligação ou filiação com determinada igreja, sociedade missionária ou organização de temperança. Como "ex-bêbados", estendemos a nossa simpatia e auxílio a qualquer pessoa, de qualquer classe social, e de qualquer religião, que haja perdido o controle na bebida e que, sinceramente, queira abandonar o vício. "A.A." não é de modo algum uma organização religiosa, conquanto reconheça que é de grande auxílio a admissão da existência de um Poder Superior ao humano. Não faz mágica, não usa cerimônias misteriosas, não cobra
mensalidades ou taxas de qualquer espécie, nem exige obrigações; a única exigência é uma vontade sincera de deixar de beber. As nossas estatísticas demonstram que cerca de 25% dos novos aderentes à associação fracassam na sua tentativa de se conservarem sóbrios e este fracasso se explica pelo fato de que ao entrarem em contacto com a "A.A." estavam somente "meio-interessados" em deixar de beber, acreditando que depois de um curto período de sobriedade poderiam tornar-se bebedores "normais". Estas reservas mentais redundam sempre em uma volta ao vício. Daí a exigência de uma intenção sincera, honesta e forte de abandonar a bebida. E quais os métodos de ação de "A.A."? – Quando o alcoolista compreende que nós, membros de "A.A." já passamos em nossa carreira de "bêbados" pelas mesmas vicissitudes, sensações, preocupações, doenças, "ressacas", desculpas, esconderijos secretos para estoques de bebidas, perda de empregos,
desconsideração social, prisões, sanatórios, hospitais, separações conjugais e de família, etc, percebe que nós poderemos oferecer-lhe um auxílio que somente quem já esteve na situação em que ele se encontra é capaz, pois que só este o "compreende". Nós lhe falamos no seu "idioma" e para uma pessoa a quem a bebida está levando a passos rápidos para a morte e que sabe disso, o espetáculo de um grupo de "ex-bêbados" que hoje são sóbrios e que raciocinam com clareza e encaram o problema respeitosamente, e são também indivíduos respeitáveis, o espetáculo desse grupo, dizíamos, serve¬lhe de estimulo para que possa alimentar a esperança de que também para ele possa haver um futuro de saúde sem álcool.
Porque "Anônimos"? – Esta palavra não é usada para manter nenhum "segredo" mas unicamente porque o nosso sucesso depende de apresentarmos os "princípios de auxílio mútuo" antes do que o de "pessoas". Não estamos absolutamente interessados no engrandecimento particular ou público de pessoas e também porque fica assim mantido o direito a cada um dos membros de "A.A." de conservar o seu anonimato pessoal até o ponto em que julgar conveniente. Nós de "A.A." não pregamos, catequizamos, ameaçamos nem convidamos pessoa alguma que tenha problema conseqüente ao hábito de beber; auxiliamo-las, apontando-lhes o caminho pelo qual poderão ensaiar os seus primeiros passos oscilantes para voltarem à normalidade e é isto que explica a razão do sucesso de "A.A.", se é que existe uma explicação; para podermos auxiliar a outros "bêbados" nós temos que nos manter sóbrios. O alcoolismo tem sido reconhecido como sendo uma verdadeira "doença" e não
simplesmente como um problema devido à falta de "força de vontade" ou de "firmeza". Muitas vezes se toma preciso um tratamento médico para eliminar os efeitos perniciosos conseqüentes ao hábito de beber mantido por muito tempo. Sabe-se também que o alcoolista será por toda a vida alérgico ao álcool e quando não somente ele, mas também os seus parentes, amigos e conhecidos (bem como os médicos reconhecem que se trata de um doente grave e não unicamente da vítima de um mau hábito) então se pode esperar sucesso. O alcoolista precisa reconhecer a sua condição como tal e ao mesmo tempo compreender que o ser alcoolista não constitui vergonha maior do que o de ser por exemplo diabético. "A.A." não pode "curar" o alcoolismo, mas pode e tem conseguido "estacionar" o curso da doença e ao homem e à mulher que bebem em excesso a possibilidade de uma vida respeitável e em paz.
Estas declarações foram escritas por um "A.A." que durante vinte e dois anos viveu bêbado pelos bares e boates aborrecendo os seus semelhantes e que agora faz mais de dois anos e meio não sente a necessidade ou sequer o desejo de beber e sente com isso que sua vida está repleta de satisfação e paz. Da eficiência de "A.A." atestam os seus 49.000 membros norte-americanos que já não bebem mais.
Aos Interessados
Atendendo ao pedido do missivista, receberemos a correspondência dos interessados para encaminhá-la à mencionada sociedade. As cartas poderão, portanto, ser endereçadas ao Núcleo Brasileiro de A.A. aos cuidados da redação deste jornal.

Vivência nº 5 de outubro de 1987
Vivência nº 99 – Jan./Fev. 2006



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