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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  Sem ele, somente paramos de beber, o que é pouco para alcançar a sobriedade...

QUARTO PASSO

Inventário moral, minucioso e destemido...

Essas palavras põem o meu cabelo em pé, pois quando falamos de inventário, costumamos pensar em bens materiais que devem ser inventariados. Entendo ou entendia, inventário como algo ligado a herança que os pais deixam para os filhos: terras, casas, carros, fazendas, fábricas, dinheiro, poupança...

Mas neste caso não se trata disso, mas justamente de outros bens; que não são nada bons. E o pior, não são uma herança dos pais, mas a minha própria herança, meus próprios bens. E não são tanto bens materiais, mas sim desvios morais.

Isso assusta qualquer mortal. Quanto mais um alcoólatra.

Depois de não ter mais a desculpa da bebida, começam a aflorar ao meu consciente todas as bobagens, erros, excessos que eu pratiquei, quando estava sob o efeito da bebida.

Agora, as lembranças destes fatos grotescos me deixam nervoso, preocupado, raivoso, com medo, sem saber o que eu devo fazer. Como devo agir para que o passado não seja para mim uma espada pendurada sobre a minha cabeça.

Enterrar o passado? Não posso e não consigo!

Enfrentá-lo? Tenho medo! Pois fiz muitas coisas horríveis e erradas, das quais até o diabo se envergonha.

Ó dúvida cruel: fazer ou não fazer um inventário honesto, minucioso e destemido!!

Se eu não fizer este inventário, o passado vai me recriminar a toda hora, e sempre será um motivo mais que suficiente para voltar ao copo, pois era assim que eu esquecia, pelo menos por alguns instantes, as verdadeiras burrices que tinha feito.

Se eu fizer este inventário, vão aparecer: cobras, lagartos, gatos, cachorros, esterco, muito esterco, sujeira, muita sujeira, muitas coisas podres e fedidas, lixo, muito lixo...

Mexer com tudo isso? Não seria melhor pular este Passo?

Porem, como posso seguir o caminho para frente? Não dá para pular este Passo, pois ele vai fazer muita falta perante os próximos Passos.

Uma sugestão: aqui nós não devemos ter pressa em terminar os Passos dentro dos doze meses do ano, pois nenhum de nós esta fazendo uma tese de formatura para se doutorar no final do ano.

Por que não se deter por mais tempo neste Passo tão importante e tratar com mais amor e carinho, mas também com mais objetividade; os Vícios Capitais e como seus opostos, as Virtudes Capitais?
Motivo desta sugestão: já tenho lido muitas e muitas vezes e também escrito, mas não como Tema Semanal; sobre Raiva, Ressentimentos, Medo, Humildade, Caridade, Sexualidade, Preguiça, Orgulho...

Inventário moral
Uma coisa que nós não podemos esquecer ao fazer o nosso inventário pessoal dos nossos Pecados Capitais; que eles não devem ser simplesmente eliminados.
Muitos de acham que os nossos instintos ou Pecados Capitais devem automaticamente ser eliminados pelo Quinto Passo.
Porem a grande decepção de cada um que faz bem feito o seu Quarto e Quinto Passos, e com o tempo percebe que não dá para eliminar, a ira, o orgulho, a inveja, a preguiça, a luxúria, a avareza e a gula. Eles continuam presentes e muito fortes.
Então o que fazer?
De fato os instintos não devem e nem precisam ser eliminados. Pois se forem eliminados, estaremos mortos.

Quem não gosta de sentir orgulho dos seus filhos, por exemplo?
Quem não sente uma ponta de inveja de seu lindo trabalho?
Quem não sente uma atração sexual pelo companheiro ou companheira do sexo oposto?
Quem não quer ganhar mais e ter uma vida melhor?

Então, do que se trata, na verdade? Trata-se de fazer o levantamento dos exageros cometidos, pois todo bêbado é uma pessoa exagerada em todos os sentidos. Isso quer dizer, faz o prato da balança pender para um lado só.
E o segredo do programa, e ai sim, tem todo o seu peso e valor, as Virtudes Opostas aos Vícios, pois esta é a finalidade do programa, não eliminar, mas equilibrar os dois pratos da balança.

Isto significa: nem luxúria demais, mas nem castidade demais, nem exageros sexuais e nem abstenção sexual total, pois simplesmente não haveria procriação.
Nem gula demais e nem sobriedade demais, pois ou nos empanturramos demais ou morremos de fome.
Mas como a bebida destruiu totalmente este equilíbrio, dai a necessidade deste Quarto Passo bem feito, para que o restante da programação seja de fato uma caminhada segura para conseguir este equilíbrio pessoal e comunitário.

No primeiro parágrafo do Passo Quatro, os autores nos descrevem em breves linhas de que os instintos dados a nós por Deus são bons.

De fato, todos os instintos naturais (por isso que se chamam naturais), são bons e tem uma finalidade específica. "Por isso: homem e mulher estavam nus diante de Deus e não sentiam vergonha disso. Aliás, todas as tardes passeavam com Ele no Jardim."

O que não ocorre com os animais irracionais. Eles são, digamos assim, programados. Não têm a liberdade de escolha. Fazem isso ou aquilo por instinto de sobrevivência, mas sem raciocinar. Eu não. Eu raciocino, se isto me é útil, se é bom, se convém, se é necessário, se é próprio ou impróprio, se convém aos outros, não vai machucar ninguém, não vai ferir a suscetibilidade alheia, etc.
Um leão ou um tigre, jamais irá pensar dessa forma.
A pessoa humana não. Ela pode escolher. O animal não tem essa opção de escolha.

Assim sendo, podemos usar aqui os próprios Sete Vícios Capitais, que sendo bem usados e na dose correta não são Vícios e sim Sete Virtudes.
Alguns exemplos: se eu não busco alimento (gula), morro de fome.
Se não busco abrigo (egoísmo), morro de frio ou sou destruído pelas intempéries.

Se homem e mulher não se acasalam (luxúria), a espécie não sobrevive e se extingue. Mas não é só isso, se não houver atração pelo sexo oposto, não há grupo, não havendo grupo, não há sobrevida, não apenas no sentido de aumento da espécie, mas agregariedade, que faz com que as pessoas se aglomerem em famílias, clãs e sociedade organizada. E isso não é apenas instinto sexual, mas amor um pelo outro.

A solidariedade.
Se eu não luto por um lugar ao sol (orgulho), sou esquecido pelos demais e fico só.
Se não uso do direito ao descanso (preguiça), morro trabalhando.
Por estes e por outros motivos, o homem, tanto selvagem (que vive nas selvas) como o homem urbano (que vive em cidades), usa estes e outros instintos como sua salvaguarda e proteção.
Então, a rigor, não podemos falar de *instinto selvagem. Pois ele não existe. O que pode existir é a deturpação do ou dos instintos ou o mau uso do ou dos instintos.

Para podermos prosseguir neste Passo, é interessante observar o que esta escrito na página 67 do livro "Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade": "Os membros dos Grupos de Oxford tinham-nos mostrado claramente o que fazer. E com igual importância, também tínhamos aprendido com eles o que não fazer em relação aos alcoólicos. Tínhamos visto que certas idéias e atitudes deles simplesmente não poderiam ser aceitas por alcoólicos. Por exemplo, os bebedores não aceitariam qualquer tipo de pressão, exceto a pressão exercida pelo próprio álcool. Eles somente teriam que ser conduzidos, não empurrados. Não aceitariam a evangelização agressiva dos Grupos de Oxford. Não aceitariam o princípio de "orientação coletiva" para suas próprias vidas. Isso era muito autoritário para eles.
Em outros aspectos, achamos também que tínhamos que ir devagar. Em seu primeiro contato, a maioria dos alcoólicos somente desejava encontrar a sobriedade e nada mais. Eles se apegam a seus a seus outros defeitos, deixando-os pouco a pouco. Simplesmente não desejavam tornar-se "muito bons muito depressa". Os conceitos absolutos dos Grupos de Oxford - pureza absoluta, honestidade absoluta, desinteresse absoluto e amor absoluto - eram muitas vezes demais para os bêbados. Essas idéias tinham que ser alimentadas com colheres de chá e não com baldes."
Para mim isto quer dizer, nem pecador irrecuperável e nem santo em dois dias.

O segredo do Quarto Passo é identificar os desequilíbrios produzidos pelas bebedeiras e começar a equilibrar os pratos da balança.
Porem, a partir do segundo parágrafo, os autores já nos direcionam para mostrar-nos a finalidade deste Passo: "Contudo, estes instintos, tão necessários para nossa existência, freqüentemente excedem bastante suas funções específicas. Fortemente, cegamente e muitas vezes simultaneamente, eles nos impulsionam, dominam e insistem em dirigir nossas vidas.
Nossos anseios pelo sexo, pela segurança material e emocional, e por posição importante na sociedade, nos tiranizam com freqüência.
Quase deturpados dessa forma, os desejos naturais do homem causam-lhe grandes problemas, aliás quase todos os problemas que existem. Nenhum ser humano, por melhor que seja, fica livre destas dificuldades. Quase todo problema emocional grave pode ser considerado como um caso de instintos deturpados. Quando isso acontece, nossas qualidades naturais, os instintos, tornam-se empecilhos físicos e mentais."

Podemos destacar algumas coisas importantes neste parágrafo:

• Os instintos são sumamente importantes para nós, seres humanos, portanto são bons.Por causa do álcool eu acabo me desviando do reto caminho, procurando atalhos, isso é mau.

• De senhores dos nossos instintos, tornamo-nos seus escravos, isso é péssimo.

• Dessa forma, praticamente todos os meus problemas tem as suas raízes em algum instinto deturpado.

• Invés de eu dirigir os meus instintos, são eles que me dirigem, isso é um desastre total.

• Porem, mesmo não-alcoólatras estão livres dessa deturpação dos instintos.

• E o ponto, a meu ver, mais importante, toda deturpação dos instintos naturais tem a sua causa no emocional, mas os verdadeiros desastres acontecem no campo físico e mental.

Precisa comentar?

A título de ilustração posso contar o que me contaram a este respeito: Um sujeito foi ao seu médico e pediu que o examinasse detalhadamente, queixando-se de que ele possuía os dois órgãos genitais (masculino e feminino). O médico, muito ciente de sua responsabilidade, pediu que o paciente se despisse, fez todos os exames necessários e depois de meia hora concluiu: "Não, meu amigo, você é só homem, só tem os genitais masculinos. Não há nada de errado quanto á tua masculinidade.”

O paciente, contrariado, começou a se vestir.

O médico, por curiosidade, perguntou-lhe: "Não encontrei fisicamente nada que indique a presença de órgãos genitais femininos em teu corpo. Onde estariam eles?"

E o paciente apontou a cabeça e disse: "Aqui, doutor! Aqui estão os órgãos genitais femininos. Na minha cabeça." Seria hilariante, se não fosse verdade. Triste verdade.

Porem isso não ocorre só em relação à sexualidade; ocorre em todos os campos da vida humana. Popularmente se diz de uma pessoa orgulhosa: "Ele tem o rei na barriga". Nós alcoólatras temos o rei e muito mais, na cabeça.

Os autores prosseguem no primeiro parágrafo da página 37: "O Quarto Passo representa nosso esforço enérgico e meticuloso para descobrir quais foram, e são esses obstáculos em cada um de nós. Queremos descobrir exatamente como, quando e onde nossos desejos naturais nos deformaram. Queremos olhar de frente a infelicidade que isto causou aos outros e a nós mesmos. Descobrindo quais são nossas deformidades emocionais, podemos nos encaminhar em direção à correção delas. Sem um esforço voluntário e persistente para lograr isso, haverá pouca sobriedade e felicidade para nós. Sem um minucioso e destemido inventário moral, a maioria de nós verificou que a fé que realmente funciona na vida diária permanece fora de alcance."

• Não tem como "pular" este Passo.
• Para trabalhar o programa, eu preciso saber exatamente onde e quando me feri e feri os outros.
• Quais os meus instintos que sofreram mais danos (nem sempre e nem para todos os alcoólatras, serão os mesmos instintos e a mesma quantidade).
• Olhar cara a cara a infelicidade (os estragos) causados pelo alcoolismo, a mim e aos meus.
• Volta a insistir que a doença é muito mais emocional que física, mas tem seus desdobramentos por lá e pelo mental e espiritual.
• A Sobriedade, sem este inventario, praticamente não existirá.
• A fé não vem, não nasce, não brota em mim, porque existe algo que impede o seu desabrochar.
• Deus será sempre um eterno desconhecido e distante, jamais será amigo, confidente e Pai.

Prosseguem os autores: "Antes de atacar o problema do inventário em pormenores, olhemos mais de perto para ver qual o problema básico."
Esse é o meu problema: descobrir qual é o problema (ou o deslize básico), pois sempre haverá um que é básico e os outros serão periféricos. Tipo as feridas ou os ninhos de formigas. Enquanto eu estiver atacando e destruindo só as pequenas, nunca acabarei com o formigueiro. Preciso descobrir onde esta a rainha, atacá-la e destruí-la. E uma grande maioria de nós, encalha com o quarto Passo exatamente neste ponto: identificar a raiz do problema.

Vejamos juntos pelo menos alguns desses problemas. Para mim um deles será o problema básico, mas para outro não será este, será outro. Às vezes não será um só, serão vários.

• Só vejo, penso, medito como e bebo sexo. Esta será ou é a minha destruição e a destruição dos que me cercam. Por quê?
Porque eu coloco a satisfação de meus desejos sexuais acima de tudo e de todos. Serão ou foram abusos sexuais com minha esposa, minha filha, a filha do vizinho, a esposa do açougueiro, a menina da escola, o menino do professor, ....não vejo pessoas; vejo verdadeiros *parques de diversão. A destruição ao meu redor será um verdadeiro vendaval. Só que na maioria das vezes esta obsessão sexual estará apenas na minha mente. As grandes proezas de Don Juan, não passam de bravatas. Mas elas, para mim, são reais.
• Dinheiro. É outra obsessão que destroe tudo, pois só quero ganhar, amontoar bens não importa a forma como eu consiga isso; contanto que consiga. Quando não consigo, é uma grande frustração. Serão roubos, assaltos, extorsões, enganos, empréstimos, propinas, calotes, etc.
• O Poder. Não importa quantos caiam ao meu redor, contanto que eu suba na escada de mando. Este é o grande problema na família e no emprego, pois os outros são meros meios para conseguir um fim. E ai sim, para mim, os fins justificam os meios. Eu sou o Rei.
• E talvez o pior e o mais sutil de todos: se eu tenho um temperamento do tipo depressivo, mergulho num sentimento de culpa e auto-repugnância. Chafurdamos neste brejo confuso, freqüentemente obtendo dele um prazer doloroso e deformado. Enquanto prosseguimos morbidamente nesta melancólica atividade, podemos descer até tal ponto de desespero que nada, a não ser o esquecimento, se apresentará como solução. Neste ponto a humildade já foi embora faz muito tempo. Pois na verdade, é o orgulho operando em sentido contrário. São as famosas e conhecidas choradeiras: "ninguém me ama, ninguém me quer, todos me odeiam, sou o pior de todos os
homens, eu não presto pra nada, por que minha mãe me pôs neste mundo... só falta dizer: "Rogai por nós". É a autoflagelação ou o orgulho inverso.

Alguns perigos que nos afastam de um verdadeiro inventário moral:
• "Toda vez que uma pessoa impõe seus instintos, sem razão, aos outros, segue-se a infelicidade.
• Se a busca da riqueza atropela os que se encontram no caminho, provavelmente despertará o rancor, a inveja e a vingança.
• Se o sexo se desenfreia, cria o mesmo tumulto.
• Exigir dos outros excessiva atenção, proteção e amor só pode despertar a dominação ou a revolta nos próprios protetores."
• "Os alcoólicos, especialmente, deveriam ser capazes de perceber que os instintos desenfreados representam a causa básica de suas bebedeiras destrutivas. Temos nos embriagado para afogar nossos sentimentos de medo, frustração e depressão. Temos nos embriagado para fugir do sentimento de culpa causado por nossas paixões. Temos nos embriagado pela vanglória, para melhor desfrutar sonhos absurdos de ostentação e poder.
• Não é agradável olhar esta perversão doentia da alma.
• Os instintos agitados impedem a investigação.
• A partir do momento em que nos esforçamos para examiná-los, estamos sujeitos a reações graves."
• "Isto certamente não é um inventário moral; é justamente o processo através do qual o depressivo foi levado, tantas vezes à garrafa e á morte."
• "Se somos orgulhosos ou temos a mania de grandeza, nossa reação será exatamente contrária. Fazer o inventário é uma ofensa gravíssima.
• Faremos um inventário ao contrário, assinalando só as coisas boas antes de nos tornarmos vítimas da garrafa.
• Apontaremos como causa de nossos defeitos de caráter deturpados, o nosso beber em exagero. Por outro lado, se sempre fomos bastante agradáveis, excluindo o problema da bebida, que necessidade haveria de fazer um inventário moral, já que estamos sóbrios?"
• O perigo de interpretar a Terceira Tradição num sentido laxo e se refugiar por trás dela para não fazer o inventário moral.
• E talvez, a mais clássica de todas, "nossos problemas e ansiedades atuais, dizemos, são causados pelo comportamento de outras pessoas que realmente precisam fazer um inventário moral. Acreditamos firmemente que, se elas nos tratassem melhor, não teríamos problemas. Nós não somos culpados. São elas."
E ai, meu caro companheiro? O que fazer?
Buscar a ajuda de um bom padrinho.
Daqui em diante entra em ação o Padrinho (No livro Os Doze Passos e as Doze Tradições vai da página 39, último parágrafo até a página 47; no Texto Básico, página 82, parágrafo segundo até a página 87, mas este já é um Tema para uma próxima oportunidade) .

Enquanto eu continuava me debatendo com estas justificativas todas, procurando desculpas e justificativas, mentiras e ressentimentos.... aproximou-se de mim a minha madrinha, sentou-se bem na minha frente, com um largo sorriso estampado no rosto, pôs a sua mão na minha e sussurrando baixinho, como se quisesse que ninguém mais ouvisse as suas palavras, mas que elas penetrassem no mais profundo de meu ser; disse-me: "Meu caro Companheiro, não desanime e nem desista agora. Não sei direito o que você pretende e o que você quer. Se quer mesmo só parar de beber ou se você quer também ficar de bem com a vida entre você e os teus. Olhe bem nos
meus olhos." Eu sentia a sua mão na minha, mas até este momento não tive coragem de fita-la nos olhos. Então com muito esforço, tentei levantar a cabeça e olhar olhos-nos-olhos. Confesso que não foi nada fácil. Pois nossos olhos revelavam coisas e pessoas bem diferentes. Um, agitado, nervoso, deprimido, cheio de auto-piedade, raiva, ressentimentos, olhos chamejantes, inchados, semicerrados, opacos, duros e frios. Defrontando- se com um olhar que mais parecia um sol em pleno verão. Um olhar cheio de brilho, que inspirava paz, tranqüilidade, calma, ternura, limpidez, amor, sossego... Enquanto os meus eram dois raios de fogo queimando e ardendo, quase saltando de suas órbitas, os dela mais pareciam dois diamantes brilhantes e cintilantes, refletindo uma luz tão intensa e ao mesmo tempo um calor tão aconchegante que eu não pude resistir de fitar. Continuou: "Eu também tentei de muitas formas e de muitos modos fazer a mesma coisa que você esta
tentando fazer, enganar-me e enganar os outros. Não deu certo.
Provavelmente você e os seus defeitos de caráter não são tão diferentes e nem mais numerosos e nem piores do que os de qualquer outro alcoólico.
Você tem mais valores do que pensa ou imagina. Não é nem tão ruim que não se possa recuperar nada e nem tão bom que não precise de alguns reparos. Quando eu busquei escapatórias e desculpas, isso me levou sempre de volta para o copo. As circunstâncias também me levaram ao copo, e quando tentei corrigi-las e descobri que não conseguia fazer a contento, meu beber se descontrolou e eu me tornei
alcoólatra como você.
Nunca me ocorreu que precisava mudar a mim mesma para que eu pudesse me ajustar às circunstâncias, fossem quais fossem. Geralmente demorei muito para perceber como as emoções descontroladas me vitimavam. Eu notava isso rapidamente nos outros, mas em mim, muito vagarosamente. Antes de tudo, era preciso confessar que eu tinha muitos defeitos, mesmo que esta admissão fosse dolorosa e humilhante. Tive que eliminar do meu vocabulário a palavra "culpa". Isso requeria de mim uma certa dose de boa disposição, só para iniciar. Uma vez ultrapassada esta barreira inicial, o caminho pela frente começava a parecer mais fácil
ou, pelo menos, menos difícil.
Pois comecei a ver a minha própria imagem objetiva e de mim mesma e isto para mim começava a cheirar humildade e não humilhação. Fui notando que havia muita coisa errada em mim, havendo portanto, muito que fazer, se eu quisesse alcançar mesmo a sobriedade, o progresso e a verdadeira capacidade de enfrentar a vida. Para não me confundir e nem cair em confusão sobre os nomes que deveria dar a estes defeitos dos quais eu queria me livrar, fiz uma relação das principais falhas humanas seguindo uma listinha chamada Sete Vícios Capitais: orgulho, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça.
Fiz duas colunas no meu caderno.
Numa escrevia as minhas falhas e na outra anotava algumas virtudes ou coisas boas que consegui fazer. Não eram muitas, mas sempre tinha pelo menos uma. Fiz isso com cada um deles, orgulho = olhei e verifiquei todos os cantos e recantos de minha casa. Quantas vezes feri os meus e aos outros por causa dele. Fiz o mesmo com a avareza = quantas vezes coloquei o dinheiro, o lucro, o ganho, o bem-estar material acima de todas as coisas. Não deixei de lado o sexo = quantas vezes usei e abusei da minha sexualidade e da sexualidade de outras pessoas, tanto por atos, gestos, obras pensamentos ou palavras. A ira = deu quase uma página inteira de raios e explosões. Comer eu quase não comia, mas a gula não e só comida sólida, a bebida é uma gula também. E como fui guloso! Quantas mordidas e remordidas por causa da inveja e quanta vagabundagem!
Quando cheguei ao fim, o caderno estava quase na metade, e olha, era um caderno de 50 páginas. Até eu mesmo me espantei com tudo isso. É claro que contei com a ajuda de minha madrinha. “Eu sozinho, jamais faria isso, pois estava na mesma situação em que você esta.”
Eu não tirava meus olhos dos olhos dela e a minha mão estava cada vez mais presa na mão dela.
Os poucos dos meus olhos, antes duros e flamejantes começaram a escorrer duas pequenas lágrimas e caíram no papel no qual eu estava escrevendo. Ela enxugou com carinho e me disse: "Chore o quanto você quiser.
Eu fiz o mesmo. E eu chorei igual a uma criança ou de um modo que há muito tempo não chorava mais. Mas não eram lágrimas de dor e revolta, mas lágrimas de alegria, paz e calma. Entre soluços só consegui balbuciar: "Madrinha, obrigado". Ela me disse: "Não me agradeça hoje. A hora que alguém lhe pedir ajuda, faça o mesmo. Esta será a tua dívida e a tua paga para comigo."
Que divida! Continuo pagando até hoje e confesso que não sinto peso nenhum em pagar com juros e correção monetária.
Madrinha, muito obrigado. Graças a você hoje não sou tão bom como gostaria de ser, mas não sou tão ruim como era antes. Não tenho tanta humildade como desejaria, mas também não tenho tanto orgulho como tinha antes.
Não sou tão puro como anjo, mas consigo respeitar meu corpo e o corpo de outras pessoas, consigo ver nas pessoas homens e mulheres e não apenas objetos de diversão.

Penso em riquezas, mas não fico obcecado por elas.
Fico com raiva muitas vezes, mas não guardo mais rancor.
Sinto inveja e tenho preguiça, mas não a ponto de voltar para o copo outra vez.

Ao enxugar meu rosto suado e cheio de lágrimas, ela me disse ainda uma última palavra: "Companheiro, isso não é tudo, é apenas o começo, o começo de uma bela caminhada. Conte comigo."

"Portanto, minuciosidade deveria ser o lema quando se trata de um inventário. Neste sentido, é sábio escrevermos nossas perguntas e respostas. Servirá como ajuda aos pensamentos claros e à avaliação honesta. Será a primeira indicação tangível de nossa total disposição de tocar para frente."

Amigos, obrigado por me toleram por tanto tempo. Obrigado pela sua leitura. Obrigado pela sua atenção.

Desejo do fundo do coração muitas 24 horas de paz e serenidade.(Fim).
Fonte: [AABR] TS Quarto Passo (abril/2008).



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