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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  O dar que não pede recompensa
Quando cheguei no AA, há alguns anos atrás, levado pela dor e pelo sofrimento, apeguei-me, palavra por palavra a tudo que se falava dentro e fora de uma sala de AA, principalmente naquelas ocasiões do “13º Passo”. E, foi numa destas reuniões extras que comecei a despertar o meu conhecimento pelos Grupos Familiares Al-Anon. Tudo era novidade e, eu não podia desconhecer este outro lado, no aspecto de minha doença: o alcoolismo.
Naquela época, o meu remorso, os meus ressentimentos e a minha incredulidade, impediam-me de ver a dor causada a tantas pessoas em minha volta, ou talvez, a dor por ter causado tantas dores, ainda estivesse “vendando” os meus olhos.
Na verdade, a minha busca eu já a havia encontrado. Não deixa de ser um comportamento egoísta. Eu estava doente e, queria e precisava parar de beber. Ali era e estava sendo o meu lugar. Ali eu renasceria. Ali eu voltaria e continuaria a viver.
Naqueles primeiros dias e nos primeiros meses, fiquei “colado nos ensinamentos” desta nova vida. Gradativamente, notava um crescimento dentro do meu “eu”. Em casa, o silêncio poderia estar dando os primeiros sinais da satisfação. Era como permanecesse no ar a pergunta: E hoje, será que ele vai beber ?
No trabalho, passei a produzir. Além de passarem a me ver de forma diferente e carinhosa, chegaram até a me promover. E por outro lado, em alguns de outros lugares, aonde eu era conhecido, passei a receber até tapinhas nas costas, pela satisfação em me verem renovado, de forças e esperanças. Muitos passaram até a me elogiar.
Naquela época, eu havia iniciado precocemente, a minha dedicação aos Serviços de AA.
E estes serviços voluntários, que normalmente prestamos, são muitas das vezes, incompreendidos. Seja por respeitada parte da Irmandade, que apenas desfrutam das dádivas e que desconhecem o grande universo de informações, para a permanência da “engrenagem desta grande máquina”, ou seja, por amigos e familiares, que ainda não captaram a mensagem de que somente com gratidão, poderemos continuar recebendo aquilo que buscamos, como também manter unidos os “elos desta grande corrente” de dádivas, de ação e de amor ao próximo, acima de tudo.
Dentro de minha casa, encontra-se um grupo de pessoas a quem muito devo e a quem muito amo: Minha esposa, que suportou todo o sofrimento e não se desprendeu de mim, meus filhos que continuam acreditando em mim, minha mãe e meus irmãos. Alguns já casados. Somente meu pai é que está no céu, mas, foi através dele que conheci o AA, numa manhã de domingo, no natal de 1976, no Grupo Vitória, de Areias em Recife-Pe.
Devo muito a todos. Até mesmo a compreensão de hoje, que há quase toda hora estou recebendo dos menos atingidos pelo meu alcoolismo. Mas como seria bom, se todos eles tivessem um “tempinho”, dentro dos seus dias-a-dias, para conhecerem mais sobre as conseqüências do alcoolismo, além daqueles meus maus humores, algumas tristezas e outras alegrias...às vezes, ainda não tão bem administráveis !
Numa primeira análise, o nosso sonho, já dentro da Irmandade é o de que todos os familiares, comecem a notar a nossa modificação. Afinal, paramos de beber. Afinal, estamos fazendo um programa de recuperação ! Infelizmente, cobramos, em silêncio e às vezes abertamente.
Numa verificação posterior, começamos a encontrar as falhas que poderão significar muito para o resto de nossas vidas. Haja vista a seriedade de como passamos a enfocar o problema alcoólico, suas conseqüências e programas de recuperações. E isto, não pode ser visto diferente, como algo passageiro ou como se uma vez encontrada a saída, pudéssemos abandoná-la, depois de recebido “os primeiros socorros”.
Estas falhas, em sua maioria, são provenientes do próprio alcoólico, que poderá estar se “condenando” a “permanecer na luta” sozinho. Ou então, acertadamente, poderá estar corrigindo-as, imediatamente, proporcionando para si e para os seus familiares, a visão mais ampla do seu problema, bem como da melhor solução, abrindo-lhes também, aos horizontes destas novas vidas que advirão. Fazendo-lhes conhecer os Grupos Familiares Al-Anon e Alateen, quando for o caso.
O momento desta abertura é de suma importância.
Esta ocasião não pode ser atropelada. Não poderá ser imposta. Não poderá ser sob condições de... É uma hora de decisão muito sublime. É um novo momento, de gloriosa “declaração de amor”. De aceitação do perdão. E de se perdoar também ! O alcoólico deseja ardentemente que o seu familiar o veja diferente. Ele quer voltar a ser acreditado. Ele quer voltar a ser feliz em sua plenitude. E quando existe este recomeço de vida, ele quer mais do que nunca compartilhar com o seu companheiro ou com a sua companheira, em casa, em primeira mão. Às vezes, é um gesto de carência. Mas, na maioria das vezes, trata-se de um verdadeiro compartilhar, onde ele ou ela não quer estar mais sozinho ou sozinha, dali para frente. Afinal, está sendo vencido o grande inimigo, que trouxe tanta destruição moral, física e financeira para um lar. O inimigo, que trouxe a desconfiança, a insegurança, o ódio, o ressentimento, o ceticismo, o desprezo, o desespero e a falta de tanta auto-estima.
Nem sempre o doente alcoólico quer ficar sozinho. Nesta batalha, ele quer lutar e vencer, juntamente com todos aqueles que um dia ele os fez sofrer tanto e por tanto tempo.
Nesta hora, o alcoólico descobre que continuando a viver, as condições serão bem mais favoráveis para se identificar as inúmeras coisas que ao longo dos anos abalaram as bases sólidas de sua vida.
A mudança de velhos hábitos, dentro de cada um de nós e, “nunca nos tornarmos em grupos de veteranos, guardando as experiências somente para nós”, representam gigantescos passos para quem quer mudar. Para quem quer ter Aceitação. Para quem quer Viver e Deixar Viver. Para quem quer viver a humildade.
O doente alcoólico, no programa de AA, quando não é bem “acompanhado” por um “anjo da guarda”, vez por outra se deixa esmorecer.
Reconhecemos a importância do programa praticado em Al-Anon, na recuperação para o doente alcoólico. E isto se torna muito evidente, quando mesmo não nos permitindo a uma comparação, nos deparamos com duplas de AAs e Al-Anons, em recuperações.
A primeira coisa que identificamos é que ambos não querem que o programa de um, venha a modificar ao outro e sim, complementar, com muita compreensão e mais companheirismo.
A compreensão mais aprofundada, do que é alcoolismo como doença, a forma de convivência com o doente alcoólico, a descoberta de seus próprios valores, fazem com que as ações futuras sejam bem mais amadurecidas.
A gratidão como essência, no repasse de suas experiências, traduzem que não podemos ser egoístas para guardarmos conosco as alegrias das dádivas recebidas.
Há uma diferença para o doente alcoólico e para o familiar: Conhecendo-se o programa de Al-Anon, passa-se a existir a “ação”. Já o desconhecendo, ou seja, “parar no tempo” e ficar “remoendo o passado”, passará a ser “a solução”,que convenhamos, não é tão agradável.
Pois, depois de tanto tempo e de tantas lutas e aceitações daquilo que não se pode mais modificar, é bem mais fácil entender que aquilo que não tem solução, solucionado está! Imagina-se que raros são os desencontros de idéias, para aqueles que amargaram conjuntamente as cicatrizes do alcoolismo e que felizes encontrando o Al-Anon e o AA, conseguiram fechá-las.A mesma coisa, possivelmente não poderá ser dita e com a mesma intensidade, em relação a um membro Al-Anon ou a um membro AA, praticando sozinho o programa. E’ bem verdade, que uma grande maioria sobrevive, mas, que existem desencontros, eles existem!
Por mais que um ou outro tente fechar as cicatrizes, provavelmente, de pouco adiantará. As “cicatrizes” sempre permanecerão abertas.
Os programas de AA e de Al-Anon, onde buscamos e encontramos o Deus, na forma em que O concebemos, são quase que perfeitos. Servem e têm validades para aqueles que os querem. Tem o valor incontável para aquele que deles precisam. É nossa a responsabilidade, de mesmo com os avanços tecnológicos e de comunicações, não deixar que sejam banalizadas as suas mensagens. Mantê-los simples, Anônimos e espiritualizados serão os grandes segredos, para as nossas vidas e para as vidas daqueles que ainda os irão conhecer, seja pelo amor ou seja pela dor.

CAAMPOS S./ Brasília-DF




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