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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  A.A. é um culto? (Artigo)

O artigo a seguir é a transcrição de uma parte da palestra apresentada pelo Dr. George E. Vaillant na ABEAD (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), em 08 de dezembro de 1999.

O Dr. George Vaillant, nascido em 1934 nos EUA, é psiquiatra e psicanalista, trabalha em Harvard; é mundialmente conhecido por seu livro "A História Natural do Alcoolismo", de 1983, recentemente revisto e traduzido para o português e é há décadas respeitado como uma das maiores autoridades mundiais em alcoolismo. Também é um dos grandes amigos de A.A. Foi Custódio não-alcoólico nos EUA.


http://en.wikipedia.org/wiki/George_Eman_Vaillant

A.A. é um culto?


Deixem-me dividir o conceito de religião em facetas úteis e em facetas perigosas, comparáveis aos efeitos colaterais de qualquer droga poderosa. Todos os tratamentos médicos têm efeitos colaterais. O Prozac pode levar à impotência, e a penicilina à anafilaxia. Do mesmo modo, a religião leva muitas vezes a cultos e à intolerância. Minha tese é que, quando examinado deste modo, A.A. é notavelmente isento de efeitos colaterais.



Muitas pessoas são tolerantes em relação à espiritualidade, mas se preocupam com A.A. porque receiam que seja um culto. Eu gostaria de discutir seis características que distinguem A.A. de um culto.


1) Uma preocupação dos cultos é que eles exercem controle sobre a mente e removem a liberdade de ação. Eu também me permito desconfiar de puritanismo, dietas da moda e maratonas. Sou, como qualquer outro, apaixonadamente contra uma preocupação obsessiva com correr, ou com se sentar sóbrio em duras cadeiras de igreja inalando passivamente a fumaça de cigarros alheios. Mas, se tais comportamentos me impedissem de morrer de doenças cardíacas ou de alcoolismo, eu poderia mudar de ideia.


Quando foi apresentada pela primeira vez, a cirurgia da ponte de safena não prolongou vidas, mas os regimes de exercício impostos, com o seu consentimento, aos pacientes safenados, prolongaram. Seguir os passos rigidamente sequenciais de A.A. é como seguir os passos rigidamente numerados de um regime de exercícios. O propósito da rigidez não é, como no caso dos cultos, retirar sua autonomia, mas apenas que você não recaia no uso do álcool.


2) Uma segunda diferença entre um culto e A.A. é sua estrutura governamental. A.A. insiste em que seus líderes não governam; eles servem. Um princípio fundamental em A.A. é que "é perigoso impor qualquer coisa a qualquer pessoa". O organograma de A.A. é uma pirâmide invertida. Seus processos legislativos são excessivamente democráticos. "Nossos líderes são servidores de confiança; eles não governam". Posições de responsabilidade em A.A. são definidas como "serviço sem autoridade" e são muito diferentes das mesmas em um culto. Os cultos caracterizam-se por líderes carismáticos com poderes infalíveis. Visões minoritárias são severamente castigadas.


Na verdade, uma das preocupações ocultas que a profissão médica pode ter em relação a A.A. é sua insistência numa verdadeira democracia e seu fracasso em dar ao profissional médico altamente preparado uma autoridade especial. Os médicos consideram uma impertinência que A.A. às vezes desconfie dos doutores como os doutores desconfiam de A.A. Em A.A., como no treinamento atlético, o que se valoriza não é o aprendizado em livros, mas sim uma vivência bem sucedida. Os "vencedores"- os que estão sóbrios há mais tempo - são mais valorizados do que professores de Harvard, como eu, com teorias de como permanecer sóbrio.


Eu mostro a meus próprios pacientes alcoólicos, aos quais cobro 125 dólares por hora, que A.A. pode fazer o mesmo trabalho por um dólar por reunião. Perco muitos pacientes deste modo.


3) Uma terceira crítica aos cultos é que eles encorajam a dependência. Assim, A.A. tem sido criticado por seus membros ficarem tão necessitados das reuniões das 8 horas da noite quanto precisavam antes do próprio álcool. Esta carga de criação de dependência merece uma cuidadosa consideração. Os cultos certamente tiram proveito do fato de que as pessoas experimentam um alívio da angústia emocional quando se sentem íntimos do que Mark Galanther chama um "casulo social ". Mas a cura pela filiação não pode ser limitada a cultos. Famílias, fraternidades, agremiações, times esportivos exercem o mesmo poder e a mesma coesão de visão mundial.


Contar honestamente a sua história a confidentes de confiança, em especial histórias de acontecimentos carregados de culpa, é uma parte essencial de diversos processos de iniciação. A oportunidade a ser "visto" e "ouvido", por um grupo amoroso é uma das mais curativas experiências humanas e reduz a alienação social.


4) Quarto, os cultos acreditam que são a única saída. Por definição, cultos envolvem intolerância. Mas ao contrário das organizações evangélicas, A.A. só procura alguém se este alguém pedir. Em contraste com o evangelismo, A.A. se considera um programa de atração, não de promoção. É pegar ou largar.


Há mais pragmatismo do que ideologia em A.A. O formato de uma consulta de A.A. para um grupo em dificuldades não é uma lavagem cerebral ou uma ameaça de excomunhão, e sim:


1) Se não me engano, já vi um problema igual ao seu;


2) O que foi feito foi isto;


3) O resultado foi este; e


4) Você não precisa seguir meu conselho.


5) Quinto, as Doze Tradições de A.A. refletem o esforço de vinte anos de Bill Wilson para impedir que A.A. se tornasse um culto. Estes princípios incluem:


a) o anonimato - um antídoto para o narcisismo (Wilson recusou um título honoris causa de Yale e a capa da revista Time para não quebrar seu anonimato);


b) a pobreza enquanto corporação- a incapacidade dos partidos políticos americanos de observar este princípio ameaça toda a democracia americana,


c) o único propósito de A.A. é a prevenção da recaída alcoólica - nenhuma política, nenhuma controvérsia, nenhum envolvimento em outras doenças mentais.


6) Sexto, e talvez o mais importante ingrediente que distingue A.A. de qualquer culto que conheço - inclusive o meu próprio e querido Instituto Psicanalítico Freudiano - é que A.A. tem senso de humor e os cultos não têm. Havia risos em todas as reuniões de A.A. que eu já assisti. Cultos normalmente não observam a famosa "Regra número Sessenta e Dois de A.A.: Não se leve muito a sério".


Em resumo, a razão pela qual A.A. funciona é provavelmente porque seus membros têm uma doença tão grave que mata 100.000 americanos por ano e A.A. permite que o sobrevivente desesperado se junte a uma irmandade de confiança mútua. Um padrinho de A.A. como um sargento da Marinha ou um fisioterapeuta, pode ser dogmático, mas nenhum está tentando salvar almas - somente vidas. Baseado nisto foi que, em 1951, Alcoólicos Anônimos receberam o Prêmio Lasker (indiscutivelmente o mais importante prêmio de Medicina da América). O prêmio considerou A.A. "Um grande empreendimento no pioneirismo social que forjou um novo instrumento para a ação social, uma nova terapia baseada na afinidade do sofrimento comum, algo com grande potencial para as incontáveis outras enfermidades da espécie humana."


Uma afinidade de sofrimento comum pode não ser tão específica quanto um antibiótico, mas essa afinidade é muito mais curativa e muito menos perigosa que um culto.


Fonte:



http://www.monicadelimaazevedo.psc.br/artigos/2011/aa_e_um_culto.asp




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