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RECANTO DA LEITURA

 
 
 
 
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  ACERCA DO SURGIMENTO DOS DOZE PASSOS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS,
DE ACORDO COM RELATO FEITO PELO COFUNDADOR BILL W.
GRAPEVINE – JUNHO DE 1953.

Dr. Laís Marques da Silva, Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB.
Extrato


No que se refere a pessoas, três foram as fontes de inspiração: Os Grupos Oxford, o Dr. William D. Silkworth, do Hospital Towns, e o psicólogo William James.

Os Grupos Oxford eram um movimento evangélico que floresceu nos anos 20 e 30 do século passado. Eles colocavam forte ênfase no trabalho pessoal, um membro junto a outro, e nos quatro absolutos: honestidade absoluta, pureza absoluta, generosidade absoluta e amor absoluto. Praticavam um tipo de penitência, a que chamavam compartilhamento, além da feitura de reparações pelos danos causados, ao que chamavam restituição, devolução. Davam grande valor ao que designavam de tempo de calma, uma forma de meditação praticada pelas pessoas e pelos grupos em que a orientação de Deus era buscada. Essas idéias não eram novas, mas o que valeu muito para os primeiros alcoólicos que freqüentavam os grupos foi o fato de que colocavam grande ênfase nesses princípios e no cuidado especial de não interferir nas crenças religiosas das pessoas.

Em 1934, no convívio com esses grupos, Ebbie ficou sóbrio, livrou-se da obsessão que o levava a beber. Chegando a Nova York, procurou Bill e, nas conversas que tiveram, usou com freqüência frases como: “eu perdi o controle da minha vida”, “devo fazer uma reparação pelos danos causados aos outros”, “tenho que pedir a Deus orientação e força, mesmo que não esteja certo da sua existência” e “após ter tentado com empenho praticar essas coisas, me dei conta de que a minha compulsão pelo álcool passou”. Repetia: “você não luta contra o desejo de beber, você se livra dele”. Eu nunca havia sentido isso antes. Foi o que Ebbie absorveu dos Grupos Oxford e transmitiu a Bill naquele dia, o impressionou fortemente e o fez entender o quê de especial havia em um alcoólico estar falando com um outro alcoólico de um modo que nenhuma outra pessoa podia fazer.

Em 11 de dezembro deste mesmo ano, Bill foi ao Hospital Towns procurar o Dr. Silkworth que, por anos, afirmara que o alcoolismo era uma doença, uma obsessão da mente associada a uma alergia do corpo e, naquele tempo, Bill sabia o que isso significava, pois que a obsessão o condenava a beber e a alergia o condenava à morte. Era esse o ponto em que a ciência começava a se encaixar no problema do alcoolismo. A fim de melhor entender as palavras do Dr. Silkworth quando buscava a similaridade entre as duas condições, vale acrescentar que a alergia, em si, é um conceito bem compreendido sendo fácil entender que pessoas alérgicas a penas não consigam estar por perto de galinhas. A maior parte das pessoas pode estar em volta de galinhas sem sofrer o mais leve desconforto, mas as pessoas que são alérgicas a penas podem ter ataques severos de espirros e coriza, olhos lacrimejantes, respiração difícil, e assim por diante. Esta reação é devida a uma resposta física anormal da vítima à inalação de partículas microscópicas das penas. Na visão do doutor, o alcoólico é alérgico ao álcool no sentido de que a ingestão dispara uma resposta química anormal no corpo que é manifestada como uma compulsão por mais álcool. O bebedor social automaticamente para de beber quando é razoável fazê-lo e nunca tem qualquer necessidade para, conscientemente, controlar a bebida. Ele não experimenta compulsão. Naturalmente, o alcoolismo não é uma verdadeira alergia mas o conceito é útil para entender o que é um tipo de reação anormal bem estabelecida. A reação anormal a uma substância estranha fornece uma base para o entendimento do porquê um alcoólico não pode se entender com o álcool.

Nas mãos de um alcoólico falando com outro, essa verdade de dois gumes era o argumento que poderia romper o ego rígido do alcoólico, em profundidade, e abri-lo para a Graça de Deus. No caso de Bill, o Dr. Silkworth vibrou o malho enquanto o amigo Ebbie trazia os princípios espirituais e a Graça que o levaria ao seu súbito despertar espiritual no hospital, três dias após e fazê-lo sentir-se um homem livre. Essa magnífica experiência veio com a certeza de que um grande número de alcoólicos poderia um dia gozar do precioso presente que lhe havia sido concedido. Nesse ponto, um terceiro componente surgiu da leitura do livro “Variedades da Experiência Religiosa”, de William James. O Dr. Silkworth se esforçou em convencer Bill de que ele não estava sofrendo alucinações, mas o livro fez mais ainda pois, da sua leitura, ficou claro que as experiências espirituais não só poderiam tornar as pessoas mais sadias mas também transformar homens e mulheres de tal modo que poderiam fazer, sentir e acreditar no que até então se mostrara impossível para eles. O maior retorno que o livro proporcionou foi que, na maioria dos casos, os que se transformaram eram pessoas sem esperança e que, em áreas de controle da sua vida, tinham encontrado a derrota absoluta. Em completa derrota, sem esperança ou fé, Bill fez um apelo ao Poder Superior, o que hoje é o Primeiro Passo de Programa de A.A. – admitimos que éramos impotentes diante do álcool e que as nossas vidas se tornaram inadministráveis – e ainda o Terceiro Passo, que devíamos entregar a vontade e a vida aos cuidados de deus da forma que o concebiam. Assim ele se tornou livre. Era tão simples e tão misterioso, também.

Bill se juntou então aos Grupos Oxford, mas continuou com a idéia de devotar-se exclusivamente aos bêbados enquanto aqueles grupos, diferentemente, queriam salvar o mundo todo ao mesmo tempo em que os seus resultados com alcoólicos eram pobres. Cerca de seis meses depois, Bill não tinha conseguido tornar ninguém sóbrio e todas as tentativas haviam resultado frustradas. No entanto, Bill continuava com a certeza de que um caminho para a sobriedade poderia ser encontrado. Se ele e Ebbie chegaram à sobriedade, porque os outros não poderiam chegar? Imaginava, naquele tempo, que poderia ser porque não havia acompanhado o ritmo dos Grupos Oxford com os seus quatro absolutos de honestidade, pureza, generosidade e amor. Por outro lado, a postura de pressão agressiva sobre os alcoólicos para ficarem bem rapidamente os fazia voar como gansos por semanas e depois cair tristemente. Os alcoólicos se queixavam também de uma outra forma de coerção exercida pelos Grupos Oxford a que chamavam de “guia para os outros”. Um grupo de não alcoólicos sentava-se com um alcoólico e, após um tempo de calma, apresentavam instruções precisas de como o alcoólico devia levar a sua vida; mas isso, para o alcoólico, era difícil de fazer.

Depois de meses, Bill verificou que o problema estava principalmente nele. Havia se tornado agressivo e muito convencido. Falava muito da sua súbita experiência espiritual como se fosse uma coisa muito especial. Estava desempenhando o duplo papel de professor e de pregador. Nas suas exortações, havia esquecido o lado médico do problema e a necessidade de desinflar, tão enfatizada por William James, tinha sido negligenciada. Não estava usando o malho que, de modo providencial, o Dr. Silkworth havia dado a ele. Finalmente, um dia, o doutor esteve com Bill e perguntou por que não parava de falar daquela sua experiência da luz e disse que, embora estivesse convencido de que as coisas morais faziam os alcoólicos melhores, pensava que Bill estava botando a carroça na frente do cavalo. Os alcoólicos não iriam aceitar a sua exortação até que se convencessem de que deveriam fazê-lo. Se eu fosse você, disse, iria a eles com o fundamento médico, em primeiro lugar. Seria melhor dar, primeiro, as más notícias e, por causa da sua identificação natural com eles, você poderia chegar onde eu não posso. Isso os amaciará de modo a aceitar os princípios que os farão sentir-se bem, disse.

Pouco tempo depois desta conversa, Bill encontrava-se em Akron, Ohio, numa viagem de negócio mal sucedida. Estando sozinho, sentiu medo de ficar bêbado. Não era mais professor nem pregador e sim um alcoólico que sabia que necessitava de um outro alcoólico tanto quanto um outro alcoólico necessitava dele. Chegou ao Dr. Bob levado por essa necessidade e logo ficou claro que o Dr. Bob era mais espiritualizado do que ele e que tivera contactos com os Grupos Oxford, mas não conseguira ficar sóbrio. Seguindo o conselho do Dr. Silkworth, Bill usou o argumento médico e disse que o alcoolismo era fatal e isso, aparentemente, tocou em Bob que, em 10 de junho de 1935, ficou sóbrio e nunca mais voltou a beber.

Nas palavras de Bill, o Dr. Silkworth havia suprido o elo que faltava e, sem ele, a cadeia de princípios, consolidada nos 12 Passos, nunca estaria completa.
Durante os três anos seguintes, os grupos cresceram a partir do programa boca-a-boca dos primeiros tempos e, na medida em que começaram a formar um grupamento humano separado dos Grupos Oxford, começaram a consolidar os princípios com algo como:
1. admitimos que éramos impotentes diante do álcool.
2. tornamo-nos honestos com as outras pessoas, confidencialmente.
3. fizemos reparações pelos males causados aos outros.
4. trabalhamos com outros alcoólicos sem procurar prestígio ou dinheiro.
5. pedíamos a Deus para nos ajudar a fazer essas coisas tão bem quanto possível.

Este foi o fundamento da mensagem para os alcoólicos que chegaram até 1939, quando os 12 Passos foram postos no papel.

Bill relatou que na tarde do dia em que os 12 Passos foram escritos ele estava de cama. Achou que o programa deveria ser colocado mais incisiva e claramente, pois conhecia a habilidade do alcoólico de racionalizar e alguma coisa incontestável deveria ser escrita. Começou por separar o programa em pequenas partes, as desenvolveu e, em meia hora, escreveu os princípios que, ao contar, verificou que eram em número de 12. Por alguma razão não percebida, colocou a idéia de Deus no Segundo Passo e usou a palavra Deus de forma livre ao longo dos outros passos e, num deles, chegou a sugerir que o recém-chegado ficasse de joelhos. Apresentados esses passos numa reunião em Nova York, os protestos foram muitos e veementes. Os amigos agnósticos não absorveram a idéia de ajoelhar e outros disseram que estavam falando muito em Deus. Perguntaram também porque Doze Passos, se haviam feito cinco ou seis? Era preciso manter simples, disseram. A discussão foi intensa por dias e noites. Os agnósticos convenceram os companheiros que deveríamos tornar as coisas mais fáceis para gente como eles usando termos como “Poder Superior” ou “Deus, como nós o entendemos” e essas expressões se mostraram salvadoras de vidas para muitos alcoólicos além de permitir que milhares deles pudessem entrar no programa. Os Passos continuaram a ser doze e, cedo, foram aprovados pelo clero de todas as denominações e pelos amigos psiquiatras.

Ninguém inventou Alcoólicos Anônimos, ele simplesmente cresceu pela Graça de Deus.



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