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VIVÊNCIA - REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 87 - JAN/FEV 2004 06/12/2017 - 15:10
VIVÊNCIA - REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 87 - JAN/FEV 2004




VIVÊNCIA - REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 87 - JAN/FEV 2004

Grande verdade
"Não sei por que sou alcoólico, mas assumo que sou. Este é o Primeiro Passo de A.A. Ele encerra uma grande sabedoria. Enquanto eu tiver isso como minha grande verdade, estarei salvo."

Jamais conseguirei transmitir a quem não bebe o que é a sensação de acordar às 4 horas da madrugada, olhar-se no espelho e ver suas feições alteradas pedindo a Deus para não beber.

De repente, a lembrança da garrafa escondida no banheiro. Eu mesmo as escondia em todos os locais de casa: atrás de caixas de material de limpeza, nos lugares mais absurdos...

Trêmulo, encontrava uma e - em um átimo de segundo - enchia o copo e bebia com sofreguidão. Com quatro filhos, a morte em um acidente não me amedrontava. Mas não aguentava mais a sorte sofrida, desesperadora, ocasionada pelo álcool... Só outro alcoólico pode
entender o desespero de quem é capaz de ir até o carro, tirar um pouco de gasolina do tanque para beber porque não achou nada
melhor em casa.






Comecei a beber como todo garoto de 14, 15 anos: um chopinho "inofensivo" e gostoso no final da tarde. Depois, aumentei a dose - um só não bastava. De vez em quando com um trago mais forte. Aos sábados era ótimo ficar embriagado para me sentir mais agradável, mais solto, capaz de chegar a qualquer ambiente.

Aquilo foi se tornando uma necessidade: para frequentar um ambiente eu precisava de bebida; em casa, quando chegava alguém que eu não conhecia bem, bebia para me tornar espirituoso, para impressioná-lo bem. Vez ou outra um porrinho mais pesado, mas isso não me preocupava - era tudo muito prazeroso.

Lembro-me de que no início em criticava obsessivamente os amigos que pediam um aperitivo na hora do almoço. Dez anos mais tarde, já de manhã estava tomando aperitivos para "estimular" o apetite. Era ótimo. Em pouco tempo já eram três ou quatro doses antes do almoço. Depois, uma cerveja ou vinho com a refeição e, por que não, um licorzinho (digestivo) depois do café. A primeira cerveja do dia era a continuação das bebidas da noite anterior.

Nessa fase eu não admitia que ninguém, absolutamente ninguém, se atrevesse a fazer alguma referência ao meu hábito de beber. Era a negação. Quando se sente que está perdendo o controle, surge a negação.

Como tantos alcoólicos, minha resistência à bebida era muito grande. Poucas pessoas assistiram a um porre meu. Um grande
amigo foi um dos poucos que me diziam "pare de beber". Mas ele também bebia muito, e eu não lhe dava o direito de me aconselhar.

Nem a família do alcoólico, nem qualquer outra pessoa que não seja portadora da doença do alcoolismo pode entender as situações que mencionei. A ajuda só pode ser de quem sente na própria pele os mau tratos do alcoolismo.

Durante minha ativa costumava sentar-me num dos bancos da praça às 8 horas da manhã, já alcoolizado, e observar o resto do
mundo indo para o trabalho. Torturava-me a pergunta: por que eles não precisam beber e eu preciso?

Hoje sei que não há resposta conclusiva nem da medicina, nem da psiquiatria, nem da psicanálise a essa pergunta. Não sei porque
sou alcoólico, mas assumo que sou. Este é o Primeiro Passo de A.A. Ele encerra uma grande sabedoria. Enquanto eu tiver isso
como minha grande verdade, estarei salvo.

E essa "grande verdade" me acompanha desde o dia 14 de dezembro de 1980.

(Luizão, São Caetano do Sul/SP)

Vivência nº 87 - Janeiro/Fevereiro 2004